Exploração espacial

Cientista quer frota de sondas para procurar vida em Marte

Em entrevista a VEJA.com, Dirk Schulze-Makuch explica os objetivos da missão Bold e comenta sua proposta anterior: o envio de astronautas voluntários ao planeta vermelho com 'passagem apenas de ida'

Talita Fernandes
Primeiro passo: cientistas usarão o conhecimento na missão Curiosity para viabilizar futuras missões tripuladas a Marte

Ainda em fase de proposta, a pesquisa pretende coletar amostras de solo de Marte para procurar evidência de vida no planeta (Nasa/VEJA)

Para procurar vida em Marte, um astrônomo da Universidade do Estado de Washington sugere o envio não de uma mas seis sondas. Dirk Schulze-Makuch lidera um grupo formado por 20 cientistas que criou uma proposta, publicada na revista Planetary and Space Science, para explorar o planeta vermelho. O nome escolhido para a proposta é BOLD, acrônimo para Biological Oxidant and Life Detection - e imodesta referência ao projeto (bold, em inglês, significa corajoso, destemido).

O autor justifica o uso de seis sondas com base no argumento de que cada uma tem uma chance de 50% para pousar com sucesso. Com o uso de seis delas, a chance de sucesso sobe para 98%. (Veja entrevista com Schulze-Makuch abaixo)

Schulze-Makuch ficou famoso ao defender em proposta anterior o envio de astronautas a Marte com passagens apenas de ida. Essa proposta é discutida pelo cientista no livro A One Way Mission to Mars: Colonizing the Red Planet (Cosmology Science Publishers, 2011).

"Nós realmente queremos falar sobre as grandes questões de Marte e não perder tempo", explica Schulze-Makuch. "Como o dinheiro para a exploração espacial está sumindo, nós finalmente temos que conseguir resultados que sejam entusiasmantes não só para especialistas da área, mas para o público em geral”.

A missão BOLD seria formada por sondas que seriam lançadas rumo a diversas regiões do planeta. Com formatos de pirâmide invertidas, elas desceriam de paraquedas na superfície do planeta e retirariam uma amostra de cerca de 30 centímetros do solo. Instrumentos a bordo conduziriam os experimentos, transmitindo informação para uma espaçonave fora da superfície de Marte.

Para analisar o solo, as amostras seriam umedecidas e seriam feitas medições para identificar a concentração de peróxido de hidrogênio (água oxigenada) da amostra. Schulze-Makuch acredita que organismos microbiais em Marte poderiam ter como fluído interno uma mistura de água (H2O) e peróxido de hidrogênio (H2O2), a famosa água oxigenada. Esse mesmo composto foi usado em várias descobertas feitas pela missão Viking Mars, da Nasa, na década de 1970.

A proposta descreve que uma câmera microscópica da sonda procuraria formas de microfósseis similares aos que podem ser encontrados na superfície terrestre. Um outro instrumento buscaria por moléculas longas similares às que são conhecidas em seres vivos na Terra.

Alguns experimentos propostos pela missão BOLD repetiriam o trabalho feito pela sonda Mars Viking, mas, de acordo com seus autores, com uma precisão maior do que foi detectada anteriormente. Dirk Schulze-Makuche falou ao site de VEJA sobre a ideia:


"As pessoas querem saber se há vida em Marte"

Dirk Schulze-Makuch
Bioastrônomo da Universidade do Estado de Washington


O senhor acaba de propor uma missão a Marte com o uso de uma frota de seis sondas. Qual a vantagem desse modelo? Ele é relativamente barato porque não inclui uma espaçonave: vamos enviar as informações para satélites que já estejam lá. Nós usaremos seis sondas, se uma ou duas forem destruídas ou não aterrissarem exatamente onde queremos, não vai haver problema. Nós teremos bastante retorno científico do restante dos equipamentos, eles vão penetrar o solo de Marte em uma profundidade de cerca de 10 centímetros para trazer parâmetros do solo e procurar evidências de vida microbial.

Na divulgação de sua proposta, o senhor diz que ela deve trazer descobertas que interessem não apenas ao meio científico, mas também o público em geral. De que forma seu projeto pretende fazer isso? Eu acho que as pessoas não estão muito interessadas em conhecer apenas sobre as propriedades físicas, como saber a quantidade de dióxido de carbono que existe na atmosfera de Marte. Elas estão mais interessadas em saber se existe vida no planeta. E esse é o centro da nossa pesquisa. 

O senhor disse que os custos são relativamente baixos. Quanto será gasto aproximadamente? Para os padrões de uma missão espacial, a Bold é relativamente barata. Pensamos em 300 milhões de dólares no máximo. Como comparação, as últimas missões a Marte custaram em torno de 2 bilhões de dólares.

Sua proposta em levar astronautas em uma viagem só de ida a Marte o tornou bastante conhecido. Com essa nova proposta, a anterior ficou esquecida? Eu não desisti da ideia, mas se você quer levar seres humanos para Marte, primeiro você precisa desenvolver de robôs. Precisamos saber se existe vida nativa em Marte. Precisamos ver se possíveis micróbios podem trazer problemas para futuros astronautas, o que poderia ser um problema se nós trouxermos amostras de Marte.  Esse é o primeiro passo: enviar algumas missões não-tripuladas antes de levar seres humanos.

 

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