Quando a natureza vence a tecnologia criada pelo homem

Passageiros retidos nas estradas, viajantes incomunicáveis nos aeroportos e a vida cotidiana convulsionada pela neve mostraram que a defesa civil pode apenas oferecer cuidados paliativos

O grande paradoxo é que “quando melhores previsões meteorológicas podemos fazer, aumentam os episódios de pessoas presas em aeroportos; e quando temos a tecnologia mais sofisticada, comprovamos que a erupção de um vulcão pode interromper o tráfego aéreo na Europa”

Os estragos da tempestade de neve na Grã-Bretanha, Suécia, França e outros países do oeste da Europa voltaram a demonstrar a vulnerabilidade das comunicações e a submissão da economia às regras da natureza. Passageiros retidos nas estradas, viajantes incomunicáveis nos aeroportos e a vida cotidiana convulsionada pela neve mostraram que, inclusive nos países mais avançados, a defesa civil pode apenas oferecer cuidados paliativos frente aos efeitos de fenômenos meteorológicos extremos. “É como se, em um mundo cada vez mais tecnológico, a natureza relembrasse nossos próprios limites”, disse o filósofo e ensaísta Jordi Pigem. O homem tentou progredir submetendo a natureza a um domínio contínuo. Quis domá-la. Explorou as florestas e subiu no último pico do mundo; foi capaz de chegar ao fundo do oceano e penetrar no espaço e na física. Sua superioridade sobre os outros congêneres do planeta o levou a convencer-se que pode domar a Terra e causar-lhe todo tipo de impacto. Mas sua ousadia o leva às vezes a ignorar sua fragilidade.

E isso o deixa perplexo. Assim, na semana passada, inesperadamente, alguns jovens espanhóis permaneceram presos vários dias no aeroporto de Bruxelas, com uma atitude confusa. “Nos disseram que havia acabado o líquido anticongelante dos aviões e por isso não sabemos quando poderemos decolar; não sabemos quando regressaremos a Barcelona”, disse um deles por telefone.

Sua estranheza resume até que ponto temos ignorado nossos próprios limites. Surpreende que a falta de líquido anticongelante feche um aeroporto europeu, mas essa fato ratifica que a fraqueza diante da natureza iguala os países europeus, os do Norte e os do Sul.

O grande paradoxo é que “quando melhores previsões meteorológicas podemos fazer, aumentam os episódios de pessoas presas em aeroportos; e quando temos a tecnologia mais sofisticada, comprovamos que a erupção de um vulcão pode interromper o tráfego aéreo na Europa”, disse Pigem. “A previsão meteorológica melhorou e os alertas ajudam a preparar equipes de emergência e a distribuir os grupos”, constata Antonio Conesa, delegado na Catalunha da Agência Estatal de Meteorologia. Mas um crescimento da ocupação do território e da mobilidade dilui por vezes o sucesso.

“Todos esses fatos nos convidam a refletir sobre a necessidade de reorientar nossa economia para integrá-la nos ciclos da biosfera. Podemos tomá-los como um gesto de humildade”, disse Pigem.

A frustrante espera em um aeroporto serve de metáfora da vã tentativa de superar as limitações que não conseguimos vencer. Da mesma forma, cada vez mais buscamos petróleo em lugares mais recônditos e remotos, porque o petróleo em zonas acessíveis já foi consumido. E essa luta na fronteira do possível causou o acidente da plataforma do Golfo do México. Também sabemos que estamos a ponto de exceder as outras fronteiras do equilíbrio do planeta, ao forçar a mudança climática (com as emissões de gases do efeito estufa) ou ao causar o desaparecimento de espécies.

O fato de que estejamos alterando a composição e a dinâmica da atmosfera faz prever mais fenômenos meteorológicos extremos como os que tivemos nas últimas décadas, recordam os meteorologistas, e nos quais podem ser incluídos essas tempestades.

Os estudos sobre mudanças climáticas prevêem que, além do aquecimento, podem ocorrer temperaturas mais baixas caso se interrompa o fluxo da Corrente do Golfo que aquece as costas do oeste da Europa. Um estudo de pesquisadores russos (no Journal of Geophysical Research) aponta que a redução da banquisa ártica por causa do aquecimento fará mais provável a aparição de invernos mais rigorosos na Europa. Tudo indica que as temperaturas seguirão aumentando, mas estamos em uma situação em que há muitas possibilidades de que os termômetros subam e de que em determinadas condições baixem. “Não vamos seguir com um clima estável como o que desfrutamos no passado”, disse Pigem.

Adeus à regularidade climática. Viveremos tempos mais convulsionados. “A direção em que segue o clima é imprevisível. Mas podemos começar já a nos preparar psicologicamente para nos orientarmos na incerteza”, assinala Pigem. A natureza não é tão previsível quanto acreditávamos. Temos uma capacidade de prever com detalhes o tempo com um antecipação de três dias, mas há outros fatores envolvidos que torna a previsão menos precisa quando feita por um prazo maior.

O mais relevante de todos esses episódios é comprovar que “estamos diante de situações novas e enfrentaremos desafios que não haviam antes, mas temos que integrá-los melhor nos ciclos econômicos”. Em um contexto de maior incerteza, seguramente, teremos de aprender a viver melhor, com menos recursos energéticos. Já não podemos confiar na abundância de energia que tivemos até agora, entre outras coisas porque o petróleo barato acabou. “Tudo o que está ocorrendo deve ser um estímulo para desenvolver a criatividade humana, para nos reorganizarmos a fim de poder ter uma vida boa nessa nova situação. Entramos em um novo diálogo com a natureza”, opina Pigem.

Devemos renunciar a viajar tanto de avião? Ficar sem comunicação num aeroporto é interpretado como uma catástrofe. Os voos se converteram em um indicador recorrente do mundo desenvolvido. Seus fluxos de passageiros são a artéria da economia global e, quando se corta esse fluxo, é como se o sistema sentisse a febre que delata a doença.

A aviação é o método mais sofisticado de transporte, e o que supostamente mostra mais a superioridade do ser humano sobre a natureza. Por isso, quando partículas de cinzas emitidas a milhares de quilômetros de distância suspendem o tráfego aéreo é uma lição de humildade. Se diz que interrompemos o tráfego aéreo, mas as aves migratórias continuam voando.

A linguagem delata a ânsia de dominação. É como dizer que temos a chave para fechar o espaço aéreo, quando na realidade o dividimos com as aves. Mas nunca conseguiremos a eficiência ou a funcionalidade que tem os desenhos da natureza, dizem os especialistas.

Fenômenos geológicos como o vulcão da Islândia nos lembram que, por mais que queiramos, a natureza escapa de nosso controle. E ainda que saibamos muito mais sobre como funciona a dinâmica física da Terra, sempre há novas incógnitas que nos revelam todo o que não sabemos.