Em visita ao Reino Unido, rei Felipe reabre disputa por Gibraltar

Em discurso no Parlamento de Londres, monarca espanhol discute o futuro de Gibraltar após o Brexit

O rei Felipe VI e a rainha Letizia da Espanha iniciaram nesta quarta-feira uma visita de Estado ao Reino Unido repleta de pompa para consolidar laços abalados pelas dúvidas a respeito do futuro de Gibraltar depois da saída britânica da União Europeia. Acertada antes de o Reino Unido decidir pelo Brexit em um referendo, em junho do ano passado, a visita de Estado espanhola é a primeira em 31 anos. Adiada duas vezes – uma por causa de uma crise política na Espanha em 2016 e outra que coincidiria com a eleição antecipada que a primeira-ministra britânica, Theresa May, convocou em maio, a viagem acontece poucos meses depois do ressurgimento da disputa por Gibraltar.

O pequeno rochedo aos sul da Espanha, capturado pelos britânicos em 1704, tem 30 mil habitantes e deve ser um grande ponto de discórdia nas conversas do Brexit. Em  abril, a União Europeia irritou o Reino Unido e Gibraltar ao insinuar que a Espanha teria direito de veto sobre o relacionamento pós-Brexit do território com o bloco.

Na véspera do discurso do rei Felipe, deputados conservadores declararam que o Reino Unido não abrirá mão do território, conhecido como “A Rocha”, e ameaçaram deixar o Parlamento, caso a disputa fosse mencionada pelo monarca. Um porta-voz do governo de Theresa May afirmou que a autoridade de Gibraltar “não é negociável” e se baseia na vontade de seus cidadãos.  “Nossa posição é clara: a soberania de Gibraltar não está aberta a negociação”, disse à agência EFE.

Em seu pronunciamento, o rei Felipe não fugiu ao tema e lembrou que os países superaram “estranhamentos, rivalidades e disputas” no passado. “Eu estou certo que a superação das diferenças será ainda maior no caso de Gibraltar e eu estou confiante que, por meio de nosso diálogo e esforços necessários, nossos dois governos serão capazes de trabalhar em entendimentos aceitáveis para todos os envolvidos”, disse.

A alusão aos “dois governos” incomodou o ministro-chefe de Gibraltar, Fabián Picardo, que considerou a posição “antidemocrática”. “Não há apenas dois governos relevantes, mas três”, disse Picardo, e ressaltou que o de Gibraltar “é o mais importante”, pois reflete os desejos de seu povo. “O fato é que a Espanha perdeu Gibraltar há 300 anos e que Gibraltar é britânico desde então”, disse, destacando que isso foi ratificado em dois referendos, em 1967 e 2002, por seus habitantes.

Picardo afirmou ainda que o povo de Gibraltar quer manter uma relação de amizade “normal” com a Espanha, mas não deseja fazer parte deste país. Além disso, o ministro-chefe apontou que hoje em dia “os territórios não podem trocar de rei como peões em um jogo de xadrez”.

Povos entrelaçados

Durante o brinde do banquete oferecido ao rei Felipe VI no Palácio de Buckingham, onde ficará hospedado, a rainha Elizabeth II afirmou que as relações entre Espanha e Reino Unido prosperarão à margem dos desacordos e dos futuros desafios. “É inevitável que haja assuntos sobre os quais não concordamos”, disse a rainha. “Mas nossos povos estão mais entrelaçados do que nunca”, completou.

Felipe VI, por sua vez, lembrou que “milhares de britânicos se instalaram na Espanha e milhares de espanhóis o fizeram no Reino Unido, e, deste modo, converteram nossos respectivos países em seus lares, criando vínculos afetivos muito profundos”.

(com agências internacionais)