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Documentário conta a história desde o atentado contra a Amia até a morte do procurador Alberto Nisman

Produção americana, que estreia nesta semana, é uma história bem contada das trapaças, erros e ingerências do governo argentino nas investigações dos dois casos – que são crimes correlatos

Quando o corpo de Alberto Nisman foi encontrado sem vida sobre uma poça de sangue em seu apartamento em uma área nobre de Buenos Aires, a notícia de sua morte teve um impacto de uma bomba na Argentina. Nisman era o titular de uma procuradoria federal criada uma década atrás cuja missão era investigar o atentado contra a Associação Mutual Israelita da Argentina (Amia), no qual 85 pessoas morreram depois que uma van Traffic carregada de TNT explodiu diante do prédio da entidade na manhã do dia 18 de julho de 1994.

A morte de Nisman se deu na véspera de uma audiência no Congresso da Argentina, na qual ele apresentaria informações complementares de uma denúncia assinada por ele contra a presidente Cristina Kirchner e seu chanceler Alberto Timmerman. O procurador os acusava de conluio com o Irã para acobertar as investigações. Desde 2006, Nisman apontava de forma rotunda o envolvimento do governo iraniano com o atentado.

A explosão da Amia é o ponto de partida do documentário Los Abandonados (Estados Unidos, 2015), que está disponível no serviço de streaming de vídeo Vimeo On Demand. O filme conta com rigor os detalhes da investigação desde o seu início, as falhas dos primeiros investigadores e o contexto político em que seu deu o atentado, cuja ordem partiu do governo do Irã e a execução foi atribuída ao grupo xiita libanês Hezbollah.

Los Abandonados traz depoimentos de jornalistas argentinos que trabalharam no caso, deputados que conheceram Nisman e, sobretudo, suas investigações, um ex-chefe da inteligência argentina, e autoridades como um procurador federal que organizou uma marcha que marcou a reação da sociedade civil argentina contra a versão oficial de que Alberto Nisman havia se matado.

Embora não apresente revelações sobre o caso, o filme cumpre o papel de juntar as peças e explicar porque o que ocorreu no interior do apartamento de Alberto Nisman foi um assassinato com fortes indícios de participação de agentes do Estado.

Um dos entrevistados, o jornalista do La Nación, Hugo Alconada Mon, relembra que pesava contra Nisman uma fatwa emitida pelos aiatolás iranianos. “Havia uma ordem para matá-lo”. A deputada Elisa Carrió vai além. Diz que o esforço do Estado Argentino em alterar a cena do crime, fazer crer que o que houve foi um homicídio e tratar o crime como algo desconexo das investigações que Nisman conduzia é a prova cabal de que o Governo tinha interesse em impedir a investigação. “E só tenta impedir uma investigação”, quem está envolvido.

O filme trata da mudança da relação entre Argentina e Irã, depois que os dois países passaram a estabelecer uma relação clandestina por intermédio da Venezuela. O caso foi revelado por VEJA em março deste ano e mostrou como o presidente Hugo Chávez atuou para ajudar o iraniano Mahmoud Ahmadinejad a se aproximar dos argentinos com o objetivo de obter os segredos nucleares do país sul-americano para poder dar continuidade ao programa nuclear de seu país.

O diretor americano Matthew Taylor mostra como o Irã usou essa conexão com Caracas para enviar dinheiro que irrigou a campanha presidencial de Cristina Kirchner, caso também revelado por VEJA. “Ficou muito claro que Nisman sabia muito mais do que estava exposto na denúncia. Quando Nisman morreu, muita coisa morreu junto com ele”, disse a VEJA o diretor Matthew Taylor. Par o cineasta, as entrevistas apresentadas no filme mostram que havia muita gente interessada em ver Nisman morto e que acabou se beneficiando com essa morte.

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