Manuela Dias, criadora de ‘Justiça’, agora quer escrever novela

Roteirista já assinou 'Ligações Perigosas', e comemora seu segundo sucesso na Rede Globo neste ano

Justiça foi um dos melhores acontecimentos da televisão neste ano. A minissérie conquistou o público com a sua qualidade acima da média, graças a um roteiro que surpreende o espectador ao cruzar quatro histórias diferentes e fugir de clichês, um elenco afinado e uma produção bem cuidada, do enquadramento às cores. A mente por trás desse sucesso é Manuela Dias, que neste ano já brilhou na programação da Rede Globo com a minissérie Ligações Perigosas, exibida em janeiro. A roteirista conversou com o site de VEJA na reta final da minissérie, contou um pouco do seu processo de trabalho e revelou que sonha um dia escrever uma novela.

Apesar de ter se destacado nos últimos meses, Manuela Dias já possui 20 anos de Rede Globo. Atuou como colaboradora de várias tramas do canal, como os sucessos Cordel Encantado e Joia Rara. Foi nestas novelas que ela conheceu as autoras Thelma Guedes e Duca Rachid. A última inclusive aceitou a proposta de supervisionar o primeiro trabalho solo de Manuela, Ligações Perigosas, que foi bem recebido pela crítica e abriu as portas para Justiça.

Mas Justiça já estava sendo gestada quando Ligações Perigosas estourou. Manuela conta que passou um ano escrevendo os 20 capítulos da série, que renderam cerca de 800 páginas de roteiro, mas que até a última semana ainda reescrevia alguns pontos da trama. Após a minissérie, a autora vai descansar um pouco, pois ainda não tem nenhum projeto programado na Rede Globo. “Apenas o sonho de fazer uma novela.”

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Confira abaixo a entrevista do site de VEJA com Manuela Dias:

Justiça é a segunda minissérie de sucesso que você escreveu e é transmitida pela Globo neste ano. Pensa em escrever novelas para a Rede Globo? O formato de folhetim diário é um desafio maravilhoso que eu pretendo encarar. Ainda não temos prazo, apenas o desejo.

De onde surgiu a ideia da trama em teia de JustiçaO formato nasceu junto com o conteúdo. Tem a ver com um desejo meu de restituir volume à paisagem humana da cidade. Humanizar as pessoas com quem cruzamos funcionalmente no dia a dia. Quando vamos a um restaurante, não pensamos na vida do garçom, do manobrista, do cozinheiro, só nos interessa que a comida venha perfeita. Mas naquele dia pode ter morrido a mãe do garçom, o cozinheiro pode ter sido traído pela mulher e o filho do manobrista pode ter nascido. Pensar que cada pessoa é protagonista de sua própria vida, que enfrenta dramas e tem sonhos, nos leva a respeitar essa pessoa em sua dimensão humana e, quem sabe, tratá-la melhor se ela esquecer de servir o copo com gelo no restaurante. Em Justiça, como na vida, eventos profundos e idiossincráticos acontecem com pessoas consideradas comuns. Quando visto de perto, ninguém é “comum”, somos todos especiais. Ou seja, a alta temperatura das tramas e a pulverização de protagonistas no espaço dramático (a cidade) estão intimamente ligadas, do ponto de vista conceitual.

Como é o processo de escrever e gravar a mesma cena através de pontos de vista diferentes? Você orientou os atores para as cenas? A necessidade de fazer com que o espectador vivesse a mesma cena de diversos pontos de vista é uma premissa imposta pelo formato, que estava sugerida e embutida no texto. Mas o Zé Luiz [Villamarim, diretor artístico] ao dirigir realizou essa necessidade narrativa de forma maestral.

Eu trato todos os personagens como funções narrativas. A situação em que o recorte da narrativa encontra o personagem faz com que ele penda para a vilania ou não. Um mesmo ato é valorado de formas completamente diferentes, só por causa do ponto de vista. Ou seja, o personagem não “é” bom ou mau mas, como nós, pode ser tudo, a depender da situação em que o coloquemos e do ponto de vista a partir do qual olhamos.

Quanto tempo foi necessário para você formular e costurar todas as quatro histórias de Justiça? Qual foi a parte mais difícil? Passei um ano escrevendo os 20 capítulos, mas até hoje rescrevo cena. Semana passada, por exemplo, mudei o final de Kellen e Douglas! Para mim, é importante que o trabalho permaneça vivo em todas as etapas do processo, da ideia à edição. Ao longo desse ano, trabalhei com uma equipe de três pessoas [Mariana Mesquita, Lucas Paraizo e Roberto Vitorino] estruturando as histórias, mas escrevo todos os diálogos sozinha. Os vinte capítulos têm cerca de 800 páginas de roteiro.

Para você, todos os seus personagens são “errados” ou há algum deles que é realmente bonzinho? Eu trato todos os personagens como funções narrativas. A situação em que o recorte da narrativa encontra o personagem faz com que ele penda para a vilania ou não. Édipo muda muito de Édipo Rei para Édipo em Colono. É o mesmo personagem, mas na última peça da chamada trilogia tebana está velho, cego, expatriado e virou mendigo. Uma situação que desperta sentimentos muito distintos do jovem que chega a Tebas e vence a esfinge, tornando-se rei no lugar de Laio. Além do momento na vida do personagem, o ponto de vista do qual experimentamos alguém muda muito o conceito que fazemos desse alguém. Descrevendo de forma extrema, somos uma pessoa diferente para cada um com quem nos relacionamos – se o marido vende o carro do filho para ajudar a amante, a esposa pode considerá-lo um traidor, enquanto a amante lhe será grata eternamente por isso. Um mesmo ato é valorado de formas completamente diferentes, só por causa do ponto de vista. Ou seja, o personagem não “é” bom ou mau mas, como nós, pode ser tudo, a depender da situação em que o coloquemos e do ponto de vista a partir do qual olhamos.

Em Justiça, como na vida, eventos profundos e idiossincráticos acontecem com pessoas consideradas comuns. Quando visto de perto, ninguém é “comum”, somos todos especiais

Muitas pessoas reclamam que partes da história são muito forçadas e há coincidências demais. Como reage a isso? A dramaturgia precisa ser verossímil enquanto a realidade é livre para ser absurda. Acho que Justiça propõe um jogo com esses parâmetros.

Por que ambientar a história em Recife? Escrevi Deserto Feliz, um filme de Paulo Caldas, que se passa em Pernambuco, entre Juazeiro, Petrolina e Recife. Fizemos algumas viagens de pesquisa e fiquei encantada com tudo, das pontes de Recife à forma visceral com que as pessoas resolvem as questões de honra.

A série se passa em 2016. Porém, Antenor está concorrendo ao cargo de governador e atualmente estamos passando pelas eleições municipais. Essa mudança foi uma exigência da direção do canal ou há algum outro motivo para essa discordância com a realidade? Escrevo na Globo há 20 anos e nunca sofri nenhuma espécie de direcionamento na criação. Para a história, o cargo ao qual ele concorria era indiferente, o importante é que ele fosse um candidato.

Depois de Justiça já tem algum outro projeto na Rede Globo em produção? Ainda não, apenas o sonho de fazer uma novela.

Comentários

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  1. Ieda Lima Melo

    Ela está preparada para escrever novelas. ” Justiça ” já foi um grande laboratório.

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