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Aniversário de Henfil é marcado por reedição de revistas históricas

Se estivesse vivo, cartunista estaria completando 70 anos. Para celebrar a data, revistas 'Fradim' voltam ao prelo

Se estivesse vivo, Henrique de Souza Filho, o Henfil, faria 70 anos nesta quarta-feira. Para marcar a data, uma parceria entre a ONG Henfil e o Instituto Henfil está viabilizando a reedição das 31 revistas Fradim, publicadas pelo cartunista entre os anos de 1971 e 1980. Os primeiros títulos ficaram prontos em setembro, e mais de uma dezena deles está à venda exclusivamente pela internet no site Cursinho Henfil.

A coleção deve estar completa até o fim do semestre. Um apanhado geral do material, que resgata os personagens clássicos de Henfil, pode ser conferido em Número Zero, uma edição especial feita para marcar o projeto de reedição.

O cartunista, com seu traço rápido e cheio de movimento, deu origem a personagens que entraram para o imaginário brasileiro, em especial nos anos 1970, como a Graúna, o bode Francisco Orellana, o cangaceiro Zeferino e os Fradinhos. Com suas criações, Henfil brincava com os estereótipos. Graúna, o Cangaceiro e o bode, por exemplo, apareciam sempre em trio. O cangaceiro Zeferino era um clichê do nordestino machista e violento. Graúna era analfabeta, mas de inteligência viva, e o bode Orellana ironizava o intelectual livresco (a comida preferida do bode eram os livros), com muita cultura, porém com profunda ignorância das condições reais em que vivia o povo e de como ele pensava.

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Com essa trinca, Henfil comentava a situação do país, que vivia sob uma férrea ditadura, e captava a situação do interior nordestino, a caatinga, a indústria da seca, o coronelismo e o mandonismo da região, com seus próceres sempre alinhados com o governo.

O traço rápido e irreverente de Henfil era sua forma de pensar o Brasil. Corajoso e ácido, fustigava a ditadura através das brechas deixadas pela censura, mas não poupava quem a combatia de forma romântica e idealizada. Daí a implicância com a oposição livresca, que caracterizou no bode Orellana, com seu apetite por celulose e o chapeuzinho coco na cabeça.

O medo generalizado de viver sob um regime autoritário era expresso através de outro dos seus personagens, Ubaldo, o Paranoico, que, como o nome diz, tinha medo de tudo, até do que não precisava ter. Mas, como lembrava seu autor, mesmo os paranoicos às vezes têm seus perseguidores reais. O medo existia e, embora paralisante, tinha raízes no mundo real, na sociedade que não oferecia garantias individuais contra a prepotência, em especial depois da decretação do Ato Institucional n.º 5 em dezembro de 1968.

Essas frestas da ditadura, Henfil ocupava alegremente. São antológicos alguns dos seus desenhos no Pasquim, como uma série intitulada O Sobrevivente. Ela tinha desenhos como um assaltante esfaqueando uma velhinha para roubar-lhe a bolsa, um empresário da construção civil dirigindo-se a um operário caído do andaime, um urubu comendo o fígado de um condenado, um avião americano lançando bombas sobre vietnamitas. A fala dos protagonistas de cada cartum era sempre a mesma: “Tenho de sobreviver, entende?”. No caos gerado pela ditadura, sobrevivência era a palavra de ordem. E os patifes a invocavam para justificar seus atos.

Vilões internos e externos – Criou, também no Pasquim, um “cemitério dos mortos-vivos”, a Casa do Caboco Mamadô, no qual enterrava os dedos-duros, gente do meio artístico que supostamente teria se passado para o lado da ditadura e denunciado colegas. Na época, havia uma definição muito clara entre o “lado bom” e o outro, que ficava a favor do governo. Esse maniqueísmo tinha sua justificativa histórica numa época em que a maior parte da sociedade civil vivia farta da ditadura e ansiava pela volta da democracia.

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Se os militares eram os vilões no campo interno, os Estados Unidos eram o alvo no externo. Henfil, como toda a esquerda, via com péssimos olhos o intervencionismo americano em vários países do mundo, e exultou quando o Vietnã venceu a guerra. Henfil saúda o fato com um desenho em que Henry Kissinger conversa com um vietcongue e lhe diz: “Vamos sair, mas é uma retirada honrosa, viu? Não precisa empurrar!”.

Henfil também gozava a própria formação religiosa, travada e autoritária, que trazia como herança de Minas Gerais. Daí a dupla de frades, um o oposto do outro. Um baixinho, outro comprido. Um sádico e safado, o outro querendo dar uma de santarrão. Por isso, o frade Cumprido era sempre vítima do Baixim. O Cumprido diz que devemos amar a todos como irmãos. O baixinho reaparece com um mendigo sujo e malcheiroso e dá a ordem: “Abraça o irmão!”. Os Fradinhos tinham de ser dois. O alto representava as boas maneiras e os bons princípios, um verniz de civilidade que não aguentava grandes contrariedades da vida real. Já o baixinho era o instinto puro. Sádico, sensual e debochado. A tal ponto que, ao vê-lo feliz, o Cumprido já imagina com medo o que ele teria aprontado: “Internei a minha mãe no pronto-socorro público”.

A crítica estava sempre ligada nos problemas do país. Fossem os problemas macro, como a ditadura e a economia voltada para as classes ricas, ou suas consequências, como o mau atendimento nos hospitais, a carestia ou o desemprego, Henfil estava sempre de olho. Foi desses artistas ligados em seu tempo e com aguda consciência política do seu trabalho. É dele o slogan Diretas-Já para a campanha para as eleições presidenciais pelo voto popular em 1984.

Henfil morreria de aids em 1988, aos 43 anos, contaminado por uma das inúmeras transfusões de sangue tomadas para combater a hemofilia. De que lado estaria hoje? Difícil dizer e nunca é prudente falar em nome dos mortos. Mas por certo estaria espicaçando algum poderoso.

(Com Estadão Conteúdo)