Zika: o que a ciência sabe sobre o vírus

Descoberto há mais de 60 anos, o vírus zika se tornou um desafio para os cientistas. Especialistas explicam por que ainda não há uma estratégia de combate eficaz ao microrganismo que, nunca na história, havia provocado uma epidemia tão grave quanto a brasileira

Vírus convivem com a humanidade desde que nossos primeiros ancestrais Homo surgiram nas florestas africanas. A relação se tornou mais intensa há 10.000 anos, quando aprendemos a cultivar alimentos e avançamos com vilas e cidades sobre a natureza selvagem. Nesse encontro, descobrimos animais com parasitas ignorados e nos tornamos presa fácil para essas infecções, por milênios seguidos. Não faz mais que algumas décadas que a ciência conseguiu penetrar no mundo dos microrganismos em busca de armas para combatê-los. A varíola, por exemplo, um dos primeiros vírus identificados, migrou dos camelos aos homens num passado remoto e, ao longo da história, foi um assassino impiedoso, matando em média 30% dos infectados. Só a multiplicação de estudos sobre a biologia do microrganismo levou à criação de uma vacina, em 1977, que fez com que a varíola deixasse de ser um flagelo. Essa é a verdade: as infecções são dramáticas até que a ciência mapeie o mecanismo de ação do vírus, dado fundamental para seu combate. Mas, sobre o zika, que provoca uma grave epidemia no Brasil – a maior da história do parasita descoberto há mais de 60 anos – os cientistas pouco sabem. Foi apenas na última sexta-feira (15) que uma equipe da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto conseguiu detectar o que podem ser anticorpos específicos do vírus em testes com o sangue de uma mãe e um bebê com microcefalia nascido na capital paulista. A descoberta pode ser uma peça essencial no quebra-cabeça de conhecimentos sobre o microrganismo.

“Desconhecemos sua ciência básica e, por isso, não temos nem o número exato de casos no país. Infecções virais sempre foram graves para a existência humana e essa tem se mostrado um enorme desafio para os especialistas”, diz Jean Pierre Peron, professor do Departamento de Imunologia da Universidade de São Paulo (USP). “Vivemos uma situação inédita, com um crescimento assustador de microcefalia que pode ser apenas a ponta do iceberg sobre seus efeitos.”

Junto a cerca de 200 cientistas, Peron integra uma força-tarefa internacional para investigar o funcionamento do zika e cobrir um vazio científico. Em todo o mundo, não mais do cinco estudos sobre o vírus são publicados anualmente. O acervo comporta somente cerca de 200 estudos. Para a ciência, isso significa um abissal desconhecimento. No caso da dengue, que pertence à mesma família do zika e também foi descoberta após a II Guerra Mundial, são em média 200 artigos por ano, que já compõem um arquivo de cerca de 10.000 pesquisas.

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O que se sabe – Isso acontece porque, quando o zika foi identificado em 1947, em macacos da floresta de Zika, em Uganda (daí seu nome), provocava apenas infecções esporádicas em humanos, com sintomas “brandos”, como manchas avermelhadas, febre baixa e leve mal-estar. O primeiro surto aconteceu em 2007, na pequena ilha de Yap, na Micronésia, e, em 2013, novos registros da doença surgiram na Polinésia Francesa, que teve 8.264 casos suspeitos. Somente quando chegou ao Brasil, provavelmente trazido por religiosos da Polinésia que acompanharam a visita do Papa Francisco, em 2013, ou durante a Copa do Mundo, em 2014, o vírus provocou o impacto atual de saúde pública. Segundo estimativas dos especialistas, o número de infecções pode chegar até a 1,5 milhão de casos.

Os primeiros artigos sobre o vírus, publicados na década de 1950 e 1960, revelam que o zika é um vírus que pertence à família dos Flavivírus, a mesma da dengue e da febre amarela. Transmitido pela picada da fêmea do mosquito Aedes aegypti, ele entra na corrente sanguínea e pode infectar células da pele, do sistema linfático e a conjuntiva (membrana que reveste os olhos). Por isso, os sintomas do vírus que permanece por volta de dois a três dias no organismo são a formação de manchas na pele, gânglios ou conjuntivite, além da febre baixa e mal-estar característico das infecções. Contudo, em até 80% dos casos, o zika pode ser assintomático – ou seja, não causar sintoma algum. Com efeitos assim em adultos, o vírus não chegou a preocupar os médicos.

No entanto, alguns poucos estudos relatam que o microrganismo pode também ter afinidade com as células do sistema nervoso. Uma dessas pesquisas, publicada em 1952, descreve a injeção do vírus em camundongos, chimpanzés e coelhos. A análise revela que em ratos jovens, com menos de duas semanas de vida, o zika é capaz de destruir as células nervosas, efeito que não foi visto nos animais mais velhos. Outras pesquisas mencionam o aumento de alguns casos da síndrome de Guillain-Barré, uma afecção autoimune que afeta os tecidos do sistema nervoso e é capaz de levar à paralisia.

“Os estudos sobre o zika e seu mecanismo de ação pararam por aí. Tudo o que sabemos sobre ele são os relatos de médicos que acompanharam os surtos na Micronésia e Polinésia e nos ajudaram a estabelecer as relações entre o vírus e seus efeitos no Brasil. No entanto, toda a biologia do parasita ainda está por ser descoberta”, diz o infectologista Kleber Luz, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, um dos primeiros cientistas a perceber a relação entre as infecções de zika no país e o aumento dos casos de microcefalia na região Nordeste, em outubro de 2015.

O que falta descobrir – Para colaborar no combate ao vírus, uma rede de cientistas foi formada com pesquisadores espalhados em todas as regiões do país. Coordenada pela Universidade de São Paulo (USP), ela integra especialistas de diversas áreas da saúde, além de uma equipe de médicos senegaleses que chegou ao país no início de janeiro. A missão é descobrir todas as informações sobre o microrganismo, no mínimo de tempo possível.

Uma das equipes, formada por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA), tem investigado desde julho de 2015 a associação entre o vírus e a microcefalia. “Ninguém acreditava que ele pudesse ser tão perigoso.​ Mas, agora, estamos descobrindo que ele tem uma predileção pelo sistema nervoso central”, afirma ​o médico Manoel Sarno, professsor da UFBA.

Por enquanto, os pesquisadores acreditam que exista apenas um tipo de vírus zika, incapaz de sofrer muitas mutações. Isso significa que ele não apresentaria obstáculos à criação de uma vacina como a dengue, que se divide em quatro tipos (DEN-1 a DEN-4), e é capaz de infectar os humanos mais de uma vez. Se houver apenas um tipo de vírus zika, após a primeira picada, o indivíduo criaria anticorpos que o protegeriam de uma segunda infecção.

Após responder essa questão elementar, o desafio seguinte é descobrir quais anticorpos o microrganismo provoca ao entrar no organismo. A partir daí será possível criar um exame para detectar a presença do vírus, saber o número exato de infectados e, possivelmente, dar início aos estudos para a criação de uma vacina.

Os testes anunciados pela USP de Ribeirão Preto nesta semana, que puderam detectar o que parecem ser anticorpos específicos do vírus no sangue de uma mãe e um bebê com microcefalia, são promissores nesse sentido. Os exames ainda precisam ser confirmados em uma pesquisa que vai acompanhar 3.000 gestantes, mas já trazem informações importantes sobre o mecanismo viral. De acordo com os pesquisadores, os testes foram feitos em dezembro e deixaram clara a infecção da mãe pelo zika.

Sem o conhecimento sobre esses anticorpos, a única maneira de descobrir se alguém teve a doença é fazer um teste laboratorial chamado PCR, que detecta diretamente a presença do vírus. Ele deve ser feito rapidamente, enquanto o vírus ainda está no corpo. Após esse período de poucos dias, como o anticorpo específico para o zika ainda é desconhecido, não é possível detectar a presença do vírus.

Outro obstáculo a ser vencido pelos cientistas é comprovar quais células o vírus é capaz de infectar e verificar se há algum mecanismo que favoreça a entrada do microrganismo. Além da ligação com a microcefalia em bebês, que atingiu o número de 3.530 casos suspeitos no país, foram descritos casos de artogripose (malformação dos membros) e lesões oculares em recém-nascidos, efeitos, provavelmente, ligados à preferência do vírus pelo sistema nervoso de organismos jovens.

“Ainda não demos nem o primeiro passo para a prevenção da doença, precisamos descobrir se há fatores que facilitam as infecções do zika. É a primeira vez que enfrentamos uma epidemia de três doenças transmitidas pelo mesmo mosquito, ao mesmo tempo. Talvez, dengue, chikungunya e zika tenham algum tipo de interação desconhecida no corpo humano”, explica o infectologista Artur Timerman, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses.

Junto a isso, os pesquisadores ainda precisam decifrar os detalhes da genética do zika, que poderão ajudar no combate a ele. Uma das hipóteses levantadas para o número elevado de infecções registradas no Brasil é que o vírus tenha perdido um pedaço de seu RNA (a chamada “deleção”, em termos científicos) na viagem da Ásia para o território nacional e, com isso, tornado-se mais agressivo.

O mosquito – A única certeza que os cientistas têm sobre o zika é que uma das maiores barreiras para seu combate é o mosquito Aedes, um vetor extremamente adaptado aos ambientes urbanos. Ao longo dos séculos, suas fêmeas aprenderam a colocar ovos apenas em ambientes artificiais que retêm água, como calhas, caixas d’água ou pneus, locais abundantes nas cidades brasileiras de organização caótica, cobertas por asfalto ou concreto que dificultam o escoamento da água das chuvas.

Além disso, os ovos do mosquito adquiriam uma resistência incomum, capazes de sobreviver por até dois anos, mesmo sem água. Com essa característica, eles podem viajar, espalhando-se por diversas regiões. Esse inseto astuto também sabe escapar da maioria das táticas de prevenção e controle, como inseticidas e repelentes. A combinação do vírus sobre o qual pouco se sabe ao hábil mosquito é a principal causa da epidemia alarmante.

“O único jeito de combater esse vírus catastrófico é desenvolver uma vacina e, para isso, precisamos de toda a colaboração possível. Estamos atrasados na ciência mais elementar e precisamos dela para descobrir todas as artimanhas do zika”, afirma Timerman.

(Com reportagem de Marina Rappa)