Pesquisa afirma que desmatamento da Amazônia pode diminuir geração de energia de Belo Monte

Cientistas brasileiros mostram que a perda de floresta pode afetar a quantidade de chuvas na região, levando a um fluxo menor de água nos rios e a um corte de até 40% na geração de energia prevista na hidrelétrica

Uma pesquisa publicada nesta segunda-feira na PNAS, periódico da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, mostra que a destruição das florestas tropicais pode ter mais uma consequência indesejada para o Brasil: ela pode afetar a própria produção energética do país. Os pesquisadores focaram seu estudo na Floresta Amazônica e descobriram que, se o desmatamento não for controlado, em 2050 a geração de energia da Usina de Belo Monte pode cair para até um quarto da produção máxima projetada. “Nosso estudo mostra que os grandes esforços feitos pelo Brasil para diminuir o desmatamento na Amazônia estão, na verdade, contribuindo para assegurar o suplemento de energia do país”, diz Claudia Stickler, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia e autora do estudo.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Dependence of hydropower energy generation on forests in the Amazon Basin at local and regional scales

Onde foi divulgada: periódico PNAS

Quem fez: Claudia M. Stickler, Michael T. Coe, Marcos H. Costa, Daniel C. Nepstad, David G. McGrath, Livia C. P. Dias, Hermann O. Rodrigues e Britaldo S. Soares-Filho

Instituição: Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia

Dados de amostragem: Modelos realizados a partir de dados da bacia do rio Amazonas e do rio Xingu

Resultado: Os pesquisadores descobriram que uma perda de 40% na cobertura vegetal da Amazônia pode levar a uma queda de até 15% na quantidade de chuvas da região. A quantidade menor de água pode diminuir em 40% a capacidade de produção energética prevista para a Usina de Belo Monte.

Segundo os cientistas, as áreas tropicais tendem a ser locais importantes para a instalação de usinas hidrelétricas, por causa da grande quantidade de rios e chuvas, que são aproveitados para geração de energia. Até agora, no entanto, nenhum estudo havia mostrado como a diminuição dessas florestas poderia afetar essa produção. Alguns pesquisadores, na verdade, estimavam que as plantas absorvessem grandes quantidades de água, impedindo que elas chegassem aos rios e diminuindo seu fluxo para as usinas – eles previam que o desmatamento poderia aumentar a produção de energia. “O problema é que os desenvolvedores de plantas energéticas costumam ignorar os efeitos do desmatamento futuro. Ou, quando levam em conta, pensam que ele pode aumentar a quantidade de água fluindo pelas barragens. Nossos resultados mostram o oposto disso”, diz Stickler.

Os pesquisadores combinaram uma série de dados da hidrologia, ecologia, uso da terra, climatologia e ecologia para produzir uma série de modelos de geração de energia em diferentes níveis de desmatamento da região. Como resultado, descobriram que os cenários com maior cobertura florestal eram aqueles com maior produção energética. Isso acontece porque a água liberada pelas plantas na forma de vapor aumenta a queda de chuva na região. Nos níveis atuais de desmatamento, de cerca de 15%, a quantidade de chuva deve diminuir em de 7% em toda a área. Com uma perda de 40% da cobertura vegetal – o que alguns pesquisadores dizem que deve pode acontecer até 2050 – a queda na quantidade de chuva deve ser de 11% a 15%.

Desmatamento e apagão – A Usina de Belo Monte deve entrar em operação em 2015. Segundo o governo, sua capacidade máxima de produção de energia será de 11.000 megawatts por ano, mas a pequena capacidade do reservatório e a sazonalidade do rio devem fazer com que a produção fique em apenas 40% disso. Essas estimativas não levam em conta, no entanto, o desmatamento da região.

Segundo os cálculos, a redução projetada de 40% da cobertura florestal até 2050 fará com que a produção de energia fique em 25% da capacidade máxima, e em 60% das previsões mínimas. “Esses resultados são extremamente importantes para o planejamento energético de longo prazo”, explica o climatologista Marcos Costa, pesquisador da Universidade Federal de Viçosa. “Nós estamos investindo bilhões de dólares em plantas de hidrelétricas ao redor do mundo. Quantas mais florestas sobrarem de pé, mais água teremos nos rios, e mais eletricidade seremos capazes de gerar com esses projetos.”

Segundo os pesquisadores, o novo estudo destaca a necessidade de os planejadores levarem em conta a cobertura florestal de determinada região quando forem calcular o potencial de geração energética de um projeto. “Agora, nós temos uma grande evidência de que a habilidade brasileira de gerar eletricidade depende da conservação da floresta”, diz Daniel Nepstad, diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, que também participou do estudo.

As hidroelétricas – responsáveis por cerca de 80% da eletricidade gerada no Brasil – ganham cada vez mais importância ao redor do mundo, por causa da baixa emissão de gases do efeito estufa e grande capacidade de armazenamento. Segundo Nepstad, isso faz com que o resultado da pesquisa não seja importante somente para o Brasil, mas também para outros países da América do Sul, África e Ásia. “Peru, Colômbia, Congo, Vietnã e Malásia estão se voltando para a ‘energia verde’ produzida pelas hidrelétricas para dar conta da demanda de suas economias crescentes”, diz o pesquisador.