Missão Rosetta: asteroides, não cometas, teriam trazido água para a Terra

Contrariando expectativas, a água do cometa 67P, ao redor do qual Rosetta está orbitando, não se parece com a do planeta azul

Quando a sonda Rosetta se aproximou do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, um de seus principais objetivos era analisar a água desse corpo celeste e determinar se sua composição era a mesma da Terra. Um resultado positivo ajudaria a reforçar a teoria de que a água teria sido trazida até aqui pelos cometas.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: 67P/Churyumov-Gerasimenko, a Jupiter family comet with a high D/H ratio

Onde foi divulgada: periódico Science

Quem fez: K. Altwegg, H. Balsiger, A. Bieler, P. Bochsler, U. Calmonte, P. Eberhardt e outros

Instituição: Universidade de Berna, na Suíça, e outras

Resultado: A água do cometa 67P, do qual a Sonda Rosetta se aproximou, não se parece com a da Terra, que pode ter vindo de asteroides

A teoria não se comprovou. Um estudo publicado nesta quarta-feira na revista Science mostra que a água presente no 67P é muito diferente da que existe no nosso planeta.

As medições que levaram a essa conclusão foram feitas pelo instrumento Rosina, a bordo da sonda Rosetta, composto por dois espectrômetros de massa e um sensor de pressão, durante os meses de agosto e setembro. Diante do resultado negativo, os pesquisadores, liderados por Kathrin Altwegg, da Universidade de Berna, na Suíça, apontam a possibilidade de a água ter vindo dos asteroides.

Estudo – Para chegar a essa conclusão, os cientistas analisaram a composição da água do 67P. Na Terra, a água é mais comumente formada por átomos de oxigênio com oito prótons e oito nêutrons em seu núcleo (o oxigênio 16) e de hidrogênio com um próton e nenhum nêutron. Mas essa não é a única fórmula encontrada por aqui. A água também pode ser composta por isótopos (átomos de um mesmo elemento químico que diferem em massa) mais pesados, oxigênio 18 (oito prótons e dez nêutrons) e deutério, também conhecido como hidrogênio pesado, com um próton e um nêutron em seu núcleo.

Os instrumentos mediram a quantidade de deutério em comparação com hidrogênio na água do cometa, e o resultado encontrado foi cerca de três vezes o valor da Terra. “Agora sabemos que a água do 67P não é igual à da Terra”, afirma Enos Picazzio, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo. “Mas a água não é igual em todos os cometas. Esses corpos celestes podem ter se formado em várias partes do Sistema Solar”, explica.

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Expectativa – Duas “famílias” de cometas já tiveram a composição da água analisada: as da Nuvem de Oort, mais distantes do Sol, e as da família de Júpiter, mais próximas do astro. Só o 67P e o Halley, porém, foram medidos in loco, com a ajuda de sondas espaciais. Nos demais casos, as medições foram feitas por telescópios.

O Hartley 2 e 45/P, cometas da família de Júpiter, têm água relativamente parecida com a da Terra. Já a água do 67P revelou-se mais parecida com a dos cometas da Nuvem de Oort.

“Por hora, a probabilidade mais forte é a água ter vindo dos meteoritos”, afirma Picazzio. Os condritos, meteoritos rochosos, têm a água mais semelhante à da Terra já observada no Sistema Solar. Acredita-se que eles sejam fragmentos de asteroides, os corpos celestes apontados pelos autores do estudo como nova possibilidade de origem da água do planeta azul. “Asteroides são rochosos, mas contêm água congelada, hidrogênio e oxigênio”, diz o professor.

Missões futuras – Há uma semana, a agência espacial japonesa, Jaxa, lançou a sonda Hayabusa 2, que percorrerá 300 milhões de quilômetros para chegar, em 2018, ao asteroide 1999 JU3, com objetivo de recolher amostras dele. Paralelamente, a Nasa planeja para o ano que vem o lançamento da OSIRIS-REX, com destino ao asteroide Bennu, para recolher amostras em 2019.