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Atenção para os investimentos… no bem

Levantamento feito em parceria com a AACD apresenta uma radiografia das razões que levam à prática da filantropia. O país ainda ocupa uma péssima posição no ranking mundial World Giving Index (WGI), que mede a solidariedade no planeta – 90ª lugar entre 135 nações. Mas os especialistas acreditam que as novas gerações poderão mudar esse quadro

As causas que mais mobilizam doações, no Brasil, são aquelas relacionadas às crianças. Foi o que apontou a terceira pesquisa Investidores do Bem, realizada pela empresa Shopper Experience, em parceria com a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD). O levantamento, obtido com exclusividade pelo site de VEJA, tem a finalidade de identificar os perfis e as motivações dos doadores brasileiros. Do total de 330 entrevistados, de todas as regiões do país, 53% responderam que a causa que lhes é mais cara é a de crianças com câncer, seguida pela de crianças com deficiência (36%). O que chama mais atenção em relação às preferências, no entanto, são as associações ligadas a animais. Pela primeira vez elas foram listadas entre as “causas que mais mobilizam” os doadores – e foram citadas como prioritárias por 22% dos entrevistados.

Quase metade dos cidadão engajados em uma causa filantrópica (43%) destaca o crescimento pessoal como a principal razão para ajudar uma entidade. “A motivação para doar mudou bastante desde a primeira edição do estudo, feita em 2010, quando os entrevistados apontavam principalmente o senso de comunidade e a religião”, diz Angelo Franzão, superintendente de marketing e captação de recursos da AACD. “Agora, os motivos são mais racionais e isso mostra que nossas campanhas não podem apenas emocionar e sensibilizar. Precisam deixar explícito o propósito, dar um sentido à doação antes de pedir dinheiro”, acrescenta.

A transparência e a racionalização no uso dos recursos filantrópicos é importante também por outra razão: ainda é grande a desconfiança da população em relação ao destino das doações. Diz Stella Susskind, fundadora e presidente da companhia de pesquisa de mercado Shopper Experience, que coletou e analisou os dados: “Historicamente, nossos levantamentos mostram que as pessoas que não contribuem deixam de fazê-lo por não acreditar que o dinheiro vá chegar ao destinatário”.

Animais resgatados aguardam adoção na ONG Cão Sem Dono, em São Paulo

Animais resgatados aguardam adoção na ONG Cão Sem Dono, em São Paulo (VEJA)

Os brasileiros em geral têm a percepção de que são um povo generoso e solidário, contudo não há, no país, uma tradição filantrópica, como ocorre nos Estados Unidos e na Europa. “No Brasil, ainda é forte a crença de que contribuir com alguma causa é para gente com muito dinheiro”, explica Stella. De acordo com a especialista em pesquisa, a ascensão da classe C, por exemplo, que beneficiou diversos setores da economia, não teve impacto expressivo na filantropia. “A população ajuda um vizinho, a família, porém não faz doações a instituições. É caridade, não filantropia”, argumenta ela.

Um bom termômetro dessa prática é o World Giving Index (WGI), estudo anual que mensura a solidariedade em 135 países e serviu de base para a implementação do Investidores do Bem por aqui. Na última edição do WGI, divulgada no final de 2014, o Brasil ocupava a 90ª posição – atrás, por exemplo, de Mianmar, Trinidad e Tobago, Quênia, Nigéria e Afeganistão. Nos anos anteriores, o desempenho foi pior: 2014 representou o primeiro ano em que o país subiu uma posição, após quatro períodos consecutivos de queda no ranking.

Ainda de acordo com o WGI, os filantropos que doam dinheiro, no Brasil, são 33 milhões. Nos Estados Unidos, eles somam 175 milhões; na Índia, 249 milhões e no Irã, 31 milhões. Dados do National Center for Charitable Statistics revelam que as doações individuais, nos Estados Unidos, respondem por 72% das contribuições recebidas pelas ONGs. Aqui, esse número gira em torno de 3% somente.

A esperança de quem atua no setor é de que as gerações mais jovens mudem a situação. A pesquisa Investidores do Bem mostra que, em 2011, pessoas entre 18 e 24 anos correspondiam a apenas 2% dos doadores. Hoje, essa porcentagem mais do que triplicou. “As gerações Y e Z são muito mais atuantes. Não só financeiramente, mas também em relação ao voluntariado”, analisa Stella Susskind. “Esses jovens são nossa grande esperança. Espero que os cenários político e econômico não nublem essa perspectiva”, finaliza

Grafico de doações - AACD

Grafico de doações – AACD (VEJA)