O livro dos erros – Tio Rei desanca um lingüista importantíssimo da USP; e só não desenha porque deixou a tarefa para Picasso. Divirtam-se!

Alguns especialistas em lingüística (pra mim, ainda com trema…) estão prestando um desserviço ao debate sobre o ensino da língua portuguesa, aos estudantes e, finalmente, à clareza. Abaixo, há uma entrevista do professor José Luiz Fiorin, do Departamento de Lingüística da USP, à Univesp TV. Vemos aí uma defesa entusiasmada do livro “Por Uma Vida […]

Alguns especialistas em lingüística (pra mim, ainda com trema…) estão prestando um desserviço ao debate sobre o ensino da língua portuguesa, aos estudantes e, finalmente, à clareza. Abaixo, há uma entrevista do professor José Luiz Fiorin, do Departamento de Lingüística da USP, à Univesp TV. Vemos aí uma defesa entusiasmada do livro “Por Uma Vida Melhor” — aquele que faz, sim!,  a apologia do erro. Infelizmente, trata-se de um momento infeliz em que o saber é usado em favor do corporativismo. Eis o filme. Retomo depois.

Voltei
Quase tudo o que diz o professor sobre a dinâmica da língua está correto, e esse debate seria — e é — pertinente em cursos de letras e lingüística, ministrados a alunos que já dominam a norma culta (pelo menos dominavam no meu tempo…). Levar essa questão para a sala de aula, a alunos dos ensinos fundamental e médio, como se tem feito amiúde, corresponde a debater filosofia da ciência com quem não tem nem formação filosófica nem científica.

A lingüística é um estudo crítico-descritivo dos fenômenos  da língua. A caracterização de determinadas ocorrências, sua gênese e evolução, tudo isso auxilia o especialista a conhecer mais profundamente a estrutura de determinados códigos e pode ser utilíssimo ao professor em sala de aula. Fiorin é um especialista, sabemos. Tio Rei é só um jornalista. Mas diz, com toda humildade (a possível…), a este mestre: alunos de ensino médio e fundamental não têm instrumentos para discutir epistemologia!

Professor Fiorin, ensine primeiro o aluno a desenhar um touro. Depois o senhor ensina como decompor o touro, até que ele vire um genial garrancho de Picasso! Veja bem, professor,
para que o touro pudesse ser isso…

touro-traco… ele teve de poder ser isso…

touro-traco-doisE, antes ainda, fora isso:

touro-figurativo
E poderia ser, se o pintor quisesse,  a reprodução tão fiel quanto possível a um desenho, do bicho ele mesmo.

Mais não me estendo porque seria preciso desenhar. E Picasso já desenhou, não é mesmo?

Ademais, tanto o apresentador quanto Fiorin não são exatamente fiéis à verdade quando afirmam que Heloísa Ramos, a autora do livro, refere-se apenas à fala quando trata do erro. Reproduzo a página do livro.

livro-didatico3

Como se lê acima, a professora escreve besteiras como:
“Muitas vezes, na norma popular, a concordância acontece de maneira diferente:
Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado

Atenção!
1 – Não existe “norma popular”; a característica do uso popular da língua é não ter norma;
2 – A concordância não é “diferente”; é errada — o que não quer dizer que seja um crime ou que o usuário da língua deva ser ridicularizado por isso.

Mais adiante, escreve a autora, deixando claro que não se refere apenas à fala:
“Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as normas lingüísticas”.
Fica claro, pois, que ela trata também da escrita. Sem contar que esse “muita gente” sugere existir um poder discricionário a oprimir a língua no povo. E é nisso que essa turma acredita. Não sei se Fiorin está nessa, mas Marcos Bagno, o aiatolá Khomeini da língua torta, pensa assim.

Mais ainda:
“O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião”.
“Mais uma vez, é importante que o falante do português domine as duas variedades e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala”.

É mesmo? E qual é a ocasião, professores Helóisa e Fiorin, em que o erro é preferível ao acerto? “Duas variedades”??? A expressão mexe com os meus piores instintos satíricos, mas os deixo de lado agora. Não existem apenas “duas variedades”!!! A variedade do erro é infinita!!! Essa é uma afirmação bucéfala!

Não ocorre a esses gigantes que aquele que domina o código pode escolher ou não o erro, assim como Picasso podia desenhar um touro com três ou quatro linhas, mas quem só sabe fazer um touro com três ou quatro linhas será incapaz de fazer um outro com volume, circunstância, movimento, expressão? Em suma, pode escolher quem erra por gosto, mas não quem é oprimido pela ignorância.

O domínio da norma culta da língua é libertador. É no mínimo discutível a afirmação de Fiorin de que a língua não fica nem melhor nem pior, mas apenas muda.  Ele sabe, ou deveria saber ao menos, que o latim vulgar não deu seqüência a certas complexidades de Cícero que traziam um pedaço bem apreciável da civilização.

Lingüistas dessa corrente cometem um erro brutal, que nada tem a ver com a sua especialidade — por isso, os tontos não venham me perguntar: “Você estudou lingüística para discordar de uma especialista?” E que erro é esse? Porque a “língua do povo” é eficiente, serve a seus propósitos, então isso passa a ser encarado como um valor a ser preservado. Ora, não é por acaso que os nossos estudantes estão nos últimos lugares nos testes de leitura do PISA. A maior complexidade da norma culta espelha também uma complexidade maior de relações, de raciocínios, de realidades.

Todos eles cometem o crime intelectual de considerar que o povo é uma variante antropológica que deve ser preservada. É a forma que tomaram as “novas esquerdas”. Antes, elas queriam “libertar” os homens em nome dos valores universais; agora, elas consideram que os tais valores universais são expressão das elites autoritárias e que impô-los é uma violência.

O povo é o seu jardim zoológico da diversidade!

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