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EU E AS MAIORIAS

Um sujeito que se identifica como Alberto Roberto (?) manda o seguinte comentário, tentando ser irônico, tadinho: Parece uma trama internacional. Todos contra Honduras. A organizações internacionais ONU, OEA, UE; as empresas de comunicação Globo, CNN, BBC e outras; os governos EUA, Brasil, França, etc. Enfim, o mundo inteiro contra Honduras. Só você, Reinaldo, para […]

Um sujeito que se identifica como Alberto Roberto (?) manda o seguinte comentário, tentando ser irônico, tadinho:
Parece uma trama internacional. Todos contra Honduras. A organizações internacionais ONU, OEA, UE; as empresas de comunicação Globo, CNN, BBC e outras; os governos EUA, Brasil, França, etc. Enfim, o mundo inteiro contra Honduras. Só você, Reinaldo, para nos abrir os olhos e ver esse atentado contra a democracia. Que absurdo.”

Comento
Pois é… Não obstante, você está aqui, lendo o que escrevo e enviando comentários. Por que não se contenta com essa unanimidade e ignora, então, esta pobre voz isolada? Talvez você tenha salvação, Alberto Roberto. Está enviando um pedido de socorro. Também não está confortável ao constatar correntes de opinião tão diversas unidas num mesmo propósito. Vou pegar na sua mão e fazer o desenho. Vamos ver se consigo retirá-lo da sala de Massinha I do pensamento político, promovendo-o, ao menos, à da Massinha II.

O que você evoca como evidência da minha posição isolada acena com a possibilidade de que exista algo fora do lugar nessa unanimidade, não é mesmo? Seria Honduras hoje a praça do horror, com graves e severas agressões a quaisquer princípios da democracia e dos direitos humanos, a ponto de juntar, num mesmo lado, EUA, Venezuela, Cuba, União Européia, Brasil, imprensa etc? Será que, finalmente, a humanidade encontrou algo pelo qual valha realmente a pena lutar? A eventual recondução do delinqüente Manuel Zelaya ao poder teria se transformado num bem universal? O demiurgo da nova ordem mundial, a unir extremos, a conciliar adversários, é um sujeito de bigode e cabelos tingidos chegado a um golpe de estado… É ele que vai realizar a paz kantiana?

Tenha paciência, Alberto Roberto! Tenha paciência! Antes que discorra um pouco mais sobre o mérito, é preciso observar: estar a maioria esmagadora de um lado não implica que esteja do lado certo, entende? Não é a convicção da maioria que faz uma verdade ser uma verdade. Nunca dei a menor pelota para isso. Ou, para ser franco, sempre que penso no assunto, as unanimidades mais me incomodam do que me convidam a aderir. Sempre que nos juntamos a alguma causa, somos obrigados a ignorar uma porção de óbices para fazer parte da turma. Por isso mesmo, essa causa tem de realmente valer a pena, já que demanda de nós uma certa renúncia à individualidade. E eu lhe digo uma coisa: não tenho feito concessões. Nem mesmo para ser simpático. Assim, pouco me importa o juízo que fazem sobre os eventos de Honduras. Sempre lidando com os fatos, o que me importa é o juízo que faço. Não dependo da boa vontade de ninguém para escrever o que penso.

Sobre unanimidades e maiorias
Eu não me assusto com unanimidades ou maiorias, Alberto Roberto. Fosse assim, eu seria lulista em 2002, em 2003, em 2004… em 2009. Na verdade, as minhas restrições a Schopenhauer Inácio da Silva cresceram junto com a ascensão da sua popularidade. Quanto mais popular ele se torna, menos adequado eu o considero para presidir o Brasil. Com o prestígio que tem, poderia ter conduzido reformas essenciais para o país. Em vez disso, resolveu ser o chefe dos pizzaiolos. Entrega pizza em domicílio nos endereços mais suspeitos da oligarquia brasileira, rebaixando as instituições.

Eu não me intimido nem mesmo com o alarido do mercado exaltando as suas virtudes demiúrgicas — afinal, não é?, o “direitista” sou eu, e ele deveria ser o meu horizonte. Acontece que eu quero uma sociedade de livre, sim, mas os mercadistas não são os melhores pensadores que a democracia tem. Seu patriotismo é ganhar dinheiro. E eu acho isso belo, essencial, vital. É a cupidez que gera o capital necessário para descobrir remédios e vacinas, por exemplo. Isso é tão importante — de verdade! — quanto Maquiavel, Shakespeare ou Camões. Mas saiba, Alberto Roberto: isso não é Maquiavel, Shakespeare ou Camões.

Jamais serei grato a Lula por ele cobrar tão caro por aquilo a que temos direito de graça. Só lhe sou grato pelas boas frases que ele me leva a escrever, entende? Adiante.

As razões
Assim, rapaz, aprenda uma coisa com Tio Rei: em vez de se assustar com maiorias ou de aderir a elas, procure, antes, entendê-las. Não seja nem o cachorro vagabundo que, quando escuta corneta, sai atrás do batalhão nem o tímido que adere à manada por susto ou delicadeza.

Há várias razões que explicam essa quase unanimidade contra o não-golpe em Honduras:
— o prestígio da democracia representativa vive uma fase de declínio — será recuperado mais adiante, mas está, nestes dias, por baixo;
— o governo americano, pautado por alguns desastres reais e outros supostos dos oito anos de Bush, está na fase dos pedidos de desculpas (o que é uma bobagem), sendo meramente reativo em matéria de política externa. Vá ver se a cúpula soviética – ooops!!!… Vá ver se o governo russo procurou se explicar ao Ocidente sobre a invasão da Geórgia); vá ver se a China ao menos se importa com o que dizem sobre o massacre de minorias rebeldes;
— organismos destinados à diplomacia e à resolução de conflitos, como ONU e OEA, foram tomados pelo discurso terceiro-mundista e se converteram em arenas de defesa de agendas localistas, quase sempre na contramão dos valores democráticos;
— a imprensa, brasileira e mundial, tem uma agenda politicamente correta não é de hoje; a americana ainda vive a particularidade de ter apoiado a guerra do Iraque e se arrependido depois — também está sob o signo da culpa;
— o confronto político em Honduras é um eco falso de ditaduras militares que chegaram a ser tipicamente latino-americanas, e tal semelhança tem impedido uma avaliação objetiva do que se deu no país. Fui o primeiro jornalista no mundo — sim, no mundo — a recorrer à Constituição do país antes de sair gritando feito um Bâmbi desarvorado: “Fogo, fogo na floresta!”.

Isso tudo ajuda a compor essa “maioria”? Ajuda, sim. E nada disso nega o fato óbvio de que foi Manuel Zelayra quem tentou dar um golpe, o que ele confirma em entrevista publicada hoje pela Folha, embora, claro, diga que estava apenas a fazer a vontade do “povo”. Ora, ora, leitor: então a imprensa mundial decide ignorar a agenda bolivariana explicitada por Chávez e as óbvias agressões da Venezuela e da Nicarágua à soberania hondurenha, e devo silenciar a respeito, integrando essa maioria feliz que parece acreditar que só militares dão golpes de estado?

Não! De jeito nenhum! A maioria que se dane! EUA e Europa gritam contra o que chamam “golpe” porque acham — sem levar em conta a Constituição do país — que alguém eleito não pode ser deposto “pelas armas” (Zelaya foi derrubado, na verdade, pela Justiça e pelo Congresso). Os países da Alba e o Brasil (sim, o Brasil) esperneiam porque temem que Honduras seja o marco inicial da resistência a esses bandoleiros que tentam se eternizar no poder, sempre pelos mesmos métodos. Agora é Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, que pretende mexer nas leis para cuidar da própria reeleição — o orelhudo também diz aceitar a “saída Putin”: o país passaria a ser parlamentarista, e Ortega seria o primeiro ministro.

Eu não acho, MESMO!!!, que depor um presidente e metê-lo num avião seja a melhor maneira de preservar a democracia do assalto chavista. Mas sei que a democracia precisa, então, buscar alguma maneira de se proteger desses ataques. Não é mais possível aceitar que bandoleiros recorram ao voto para matar o regime democrático, como já se fez na Venezuela, na Bolívia e no Equador.

Não estou sozinho, não, leitor. Estou com os fatos.

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