Direita e esquerda

Esta é do arco da velha. Comento porque traduz um certo espírito que anda por aí. Em sua coluna na Folha desta terça, Janio de Freitas resolveu alargar os horizontes da teoria política. Escreve ele: “Quem está com viagem aérea prevista para amanhã, acautele-se ainda mais. Além de chuva, névoa, cindactas, infraeros, anacs e controladores, […]

Esta é do arco da velha. Comento porque traduz um certo espírito que anda por aí. Em sua coluna na Folha desta terça, Janio de Freitas resolveu alargar os horizontes da teoria política. Escreve ele: “Quem está com viagem aérea prevista para amanhã, acautele-se ainda mais. Além de chuva, névoa, cindactas, infraeros, anacs e controladores, a Polícia Federal estará em greve parcial. Operação tartaruga nos aeroportos, como se os cidadãos comuns fossem responsáveis pelos vencimentos de policiais. Até que são, mas por pagá-los com os impostos. As greves e manifestações que só prejudicam as pessoas comuns são uma forma abominável de direitismo.”

Talvez não se devesse dar importância à frase de Janio, escrita num momento de irreflexão, quero crer. Mas será só ele? Não será esse o espírito dominante ainda em boa parte das redações? O simples nominalismo, independentemente do conteúdo, não seria ainda o norte de boa parte do que se noticia sobre política? Ora, desde quando uma greve é feita para não “prejudicar pessoas”? Mesmo aquelas que trouxeram à luz o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, tomadas pelo PT como marcos da redemocratização do país, traziam ou não a ameaça do prejuízo? Só os patrões reclamavam? Quando metroviários, motoristas de ônibus ou policiais federais decretam greve, é à direita que devemos imputar a responsabilidade? O que será que Janio entende por “direitismo”?

Os termos “direita” e “esquerda”, vocês sabem, são herança da Assembléia Francesa, da revolução. Saiba Janio de Freitas que as características do estado moderno que reconhecemos como democráticas são herança, vejam só, dos postulados dos que estavam à direita naquela Assembléia. A esquerda nos legou o jacobinismo, a ação direta, os tribunais de exceção, a eliminação física do adversário não como forma de responder ao inimigo — isso sempre houve —, mas de fazer política. A morte como ideologia é uma cria genuína da esquerda.

A suposição de que tudo aquilo que prejudica as pessoas é “direitismo” leva à ilação óbvia de que tudo o que as beneficia é, então, “esquerdismo”. Ainda aqui, por mais estúpidas e simplórias que as afirmações se mostrem, não está revelado todo o caráter deletério dessa dicotomia bocó. Pode-se inverter a relação interna de cada um dos postulados: o direitista é aquele que age com o fito de prejudicar as pessoas, e o esquerdista, de beneficiá-las. Donde se conclui que os esquerdistas têm um mérito intrínseco. Quando eventualmente praticam o mal, é porque estão sendo “direitistas”. Não resisto à tentação de perguntar o básico a Janio de Freitas: Stálin, Mao Tse-Tung e Pol Pot eram de direita ou de esquerda? E Churchill?

O PT, embora chamado Partido de Trabalhadores, fez-se no cadinho dessa ligeireza teórica da imprensa e, acreditem, da academia. Ainda que estejamos falando de dois setores, vá lá, minoritários no Brasil, são formadores de opinião; têm o poder de passar adiante os seus valores como sinal de civilização, requinte intelectual, caminho a ser seguido. Durante mais de 20 anos, Lula foi o intocável desse jornalismo que divide o mundo entre os que são essencialmente maus, pouco importa o que façam (a direita), e os que são essencialmente bons, independentemente de sua ações: quando “eles” acham que seus amigos erram, então lhes atribuem “direitismo”.

O caso do Banco Central é bastante eloqüente. O que Zé Dirceu, a esquerda econômica petista, os jornalistas petistas — e até aquele analfabeto (des)funcional que esfolei aqui outro dia — afirmam sobre o banco? Que ele é um enclave “de direita” num governo de esquerda, como se Henrique Meirelles comandasse uma turma que atua contra os interesses objetivos do lulo-petismo.

Santo Deus! Na esquerda midiática e acadêmica, a única coisa superior à má fé é a burrice. Lula deve nada menos do que a sua reeleição ao Banco Central. Mas aqueles que alimentam a pretensão ridícula de lhe ditar bulas e cartas apontam grandes conspirações e complôs da instituição. Pergunte ao Zangado e ao Atchim qual é a única área do governo Lula que reprovam. E os anões não hesitarão: o BC. Porque ele seria “de direita”. Mas a política “de direita”do BC serve objetivamente ao projeto de poder de que partido? Desisti há muito tempo de esperar dessa gente um juízo lógico, ainda que fosse para discordar.

Mas, então, o que eu considero “direita” e “esquerda” — sempre supondo que estamos tratando de forças políticas comprometidas com a democracia? No que concerne à política, um direitista é aquele que não aceita, fora do âmbito pertinente, sacrificar a legalidade em nome da igualdade ou da justiça social. Porque considera que tal sacrifício é gerador de mais injustiça e de mais desigualdade. E o esquerdista é o que aceita, com alguma freqüência, tal sacrifício, na suposição de que o conflito entre a realidade e a ordem legal faz a sociedade avançar — é a forma que neles tomou uma crendice: a dialética.

Eu aceito esse sacrifício? Não. Não se for fora do ambiente próprio à mudança de uma ordem legal: o Parlamento, o Poder Legislativo. É ali, e só ali, que leis devem ser sacrificadas e criadas. E isso nos devolve à direita da Assembléia Francesa, que queria pôr um fim ao despotismo, mas segundo regras — que acabaram triunfando. Isso, então, faz de mim um conservador, um “direitista”. Reparem, no entanto, que, como o meu direitismo tem regras, ele exclui o despotismo, as variantes do fascismo, o militarismo bocó latino-americano e congêneres. Já o esquerdismo “deles” não exclui facínoras. Por que não? Porque, quando lembrados do horror, ou dizem que se tratava de um desvio “direitista” ou que aquilo não era o verdadeiro socialismo.

Uau! Se, para fazer o socialismo falso, foi preciso matar 200 milhões, quantos mortos teriam sido necessários para fabricar o legítimo?

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  1. Comentado por:

    Anônimo

    Carlos M., insurgir pode significar ir contra alguma coisa que o agrida, como uma agressão por motivação racial, por exemplo.Insurgir de forma gratuíta e ferir alguém, cadeia. O problema é que tentam ideologizar a questão racial, como a social, criando um maniqueísmo estúpido. Mas que mal pergunte, sobre as críticas ao BC: onde é que guardam suas poupanças, sob quais remunerações, sob quais regras, gerenciadas por quem? Só pode ser sob a égide de algum banco social, voltado para o interese dos desvalidos sem ministérios, sem estatais, sem ajudas de custo, sem cargos dentro das porteiras fechadas… Lógico.

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  2. Comentado por:

    Maria Helena

    Comunismo só costuma trazer isso aí: discórdia. E muita raiva, muito ódio, radicalismo, desespero, fanatismo, subserviência… No resto, aquilo que parece salutar – esmola, por exemplo – pode levar à exacerbação da pobreza, pela multiplicação irremediável do número de pobres. Só entendo de economia doméstica, mas acredito que o certo é administrar riquezas e fazer com que o maior número possível de pessoas usufrua delas. Administrar pobreza, além de fácil, é perigoso: corre-se o risco de nivelar todos por baixo.

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  3. Comentado por:

    Anônimo

    Stálin, Pol Pot, Mao, Lênin e Fidel foram (e são) ditadores de esquerda. Churchill era um político conservador de direita. Hitler, Mussolini, Franco, Videla, Pinochet foram ditadores de direita. Direitismo não garante apreço pela democracia. Os jaconinos criaram o Terror, mas também é verdade que se dependesse da Gironda estaríamos ainda na monarquia

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  4. Comentado por:

    Jp

    O equívoco da esquerda
    A esquerda – ou parte dela – se recusa a acreditar em Lula quando ele diz que jamais foi de esquerda. Ou quando ele diz coisas capazes de eriçar os pelos até dos que se classificam apenas como liberais.Depois de almoçar ontem com oficiais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, Lula encampou um dos mais caros argumentos da direita, fardada ou não.Ao falar superficialmente sobre as ditaduras que se multiplicaram na América Latina durante os anos 60 e 70, ele afirmou que a nossa não foi tão violenta como a chilena e algumas outras.Não foi para quem cara pálida?Pode não ter sido para ele, preso duas vezes, e protegido na época pela notoriedade que alcançou como líder sindical. De resto, o regime tinha esperança de que ele servisse para dividir a esquerda – e de alguma maneira serviu, sim.É fato que a ditadura chilena matou ou fez desaparecerem três mil adversários – enquanto por aqui os mortos e desaparecidos somam pouco mais de 500.Mas ditadura é ditadura. É um regime que suprime a liberdade e que se fudamenta no terror. É algo, pois, abominável.Cabe aos acadêmicos estudar a natureza das ditaduras e fazer distinção entre elas. A um político democrata, ainda por cima investido da condição de presidente da República, só cabe deplorar qualquer tipo de ditadura. Sem meias palavras. Sem concessões.Quem Fidel perseguiu, prendeu ou fuzilou em Cuba sofreu o mesmo martírio de quem foi vítima de Pinochet ou dos generais brasileiros do ciclo de 64.As consequências do eclipse da liberdade se abateram igualmente sobre os poucos milhões de cubanos que vivem naquela minúscula ilha e sobre os muitos milhões de brasileiros que vivem neste país continental.Lula líder sindical foi uma invenção dele mesmo e dos operários do ABC paulista que lutaram nos anos 80 por melhores condições de vida – nada muito além disso.Lula líder de esquerda foi uma invenção da esquerda brasileira ou de parte dela que hoje se arrepende de tê-lo inventado.Gostar de pobres e se apiedar deles não garante o rótulo de esquerda a ninguém. Sem chances reais de alcançar o poder, a esquerda tupiniquim imaginou cavalgar Lula para um dia chegar lá. Ele chegou. Ela, não.Ela vive das migalhas que Lula lhe oferece.

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