Cabral além do limite

Que coisa! Na terça, às 12h37, publiquei um post intitulado “Chega a ser chique morrer soterrado no Rio. Ou: A politização das águas”. A nova tragédia ainda não havia acontecido. Eu me referia, naquele texto (parte dele extraído do blog Flanela Paulistana), à maneira como a grande imprensa trata São Paulo e Rio quando ocorrem […]

Que coisa!

Na terça, às 12h37, publiquei um post intitulado “Chega a ser chique morrer soterrado no Rio. Ou: A politização das águas”. A nova tragédia ainda não havia acontecido. Eu me referia, naquele texto (parte dele extraído do blog Flanela Paulistana), à maneira como a grande imprensa trata São Paulo e Rio quando ocorrem catástrofes. Num caso, pau nas autoridades; no outro, plumas. Gilberto Kassab, que está na cidade e fala com a imprensa, leva porrada. Sérgio Cabral, em viagem ao exterior, é apresentando como um visionário. Já volto a esse ponto. Antes, algumas considerações.

Não! Eu não sou do tipo que, por princípio, culpa governantes quando ocorrem tragédias. Isso é coisa dos petralhas – se estiverem na oposição, é claro! No ano passado, São Paulo sofreu com 47 dias ininterruptos de temporais, a maior quantidade de água em seis décadas. Segundo boa parte do Partido da Imprensa Petista, especialmente a facção paulista, os responsáveis eram o tucano José Serra e o democrata Gilberto Kassab. Até que o Rio viesse abaixo. E aí todos descobriram, compungidos, que a natureza pode ser má…

Neste ano, por incrível que pareça, assistimos à mesma seqüência: chuvas em São Paulo, cacete impiedoso nas autoridades “demotucanas”, blogs de aluguel assanhadíssimos, já prevendo a volta do PT à Prefeitura… Até que o Rio se transformasse numa sepultura de lama. Aí os vigaristas se calaram: vinte cadáveres em São Paulo são um escândalo que beira o pedido de deposição do prefeito e do governador do Estado; 257 no Rio fazem de Cabral um herói. Duas dezenas de mortos assanham os críticos do governo paulista; quase três centenas deles, os apologistas do governo fluminense.

Já escrevi ontem à tarde um post a repeito: enquanto houver moradores em encostas ou na várzea de rios, as chuvas farão suas vítimas. Ou se rompe o círculo – e o circo – da irresponsabilidade e do populismo, que não reprime as ocupações irregulares, ou viveremos com a rotina macabra de mortos. Não há PAC de moradia ou pilantragem do gênero que dê conta dessa questão. Sigamos.

Uma coisa é censurar, e eu censuro, a politização da tragédia, que faz baixa exploração do sofrimento da população. Outra, muito diferente, é cobrar resposta das autoridades – e esse é um dos papéis da imprensa – e apontar suas eventuais irresponsabilidades. Ora, chega a ser inacreditável que o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), esteja em viagem de férias num período como esse. Querem uma previsão? Morrerão pessoas soterradas no Rio em janeiro ou fevereiro de 2012… Será que Cabral conseguiria desde já mudar os planos para os folguedos do ano que vem?

Prevenção
Assim como é certo que morrerão pessoas soterradas em 2012, era certo que morreriam também neste ano. Depois de tudo por que passou o Rio em 2010, o lugar de Sérgio Cabral seria o batente. Deveria ter-se articulado com o governo federal para montar um gabinete provisório de prevenção de catástrofes e socorro às vítimas. E teria de ser ele o grande comandante desse grupo.

Em vez disso, ficamos sabendo que ele telefonou para a presidente Dilma Rousseff – muito bem! – e pediu o auxílio da Marinha. É justo! As Forças Armadas têm mesmo de ajudar em situações assim. É um mandamento constitucional. Mas Cabral tem de se lembrar que o poder no Rio de Janeiro – e em todo o Brasil – é civil. Daqui a pouco, ele se torna uma vivandeira às avessas, sempre a solicitar dos soldados algum mantimento…

Desta vez, Cabral exagerou. Mas aparecerá como herói na TV daqui a pouco. E ainda distribuindo alguns pitos! Vamos fazer outra aposta?

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