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A Força do Querer: não é fácil ser homem, Ivan!

Ivan é um um Diadorim que passa a viver no pior dos sertões: o mundo dos homens

A linguagem exuberante de Grande Sertão: Veredas, o clássico de Guimarães Rosa, esconde do leitor, pelo menos num primeiro momento, a descrição de um mundo hostil, implacável, calamitoso e absurdo.

O mundo dos homens.

Numa terra de jagunços que apontam os dentes da frente para botar medo no inimigo, não havia muito espaço para as consciências culpadas. Só Riobaldo, o narrador da história, é dado a alguma sensibilidade diante do que vê.

Céu alto e o adiado da lua. Com outros nossos padecimentos, os homens tramavam zuretados de fome – caça não achávamos – até que tombaram à bala um macaco vultoso, destrincharam, quartearam e estavam comendo. Provei (…) Por quanto – juro ao senhor – enquanto estavam ainda mais assando, e manducando, se soube, o corpudo não era bugio não, não achavam o rabo. Era homem humano, morador, um chamado José dos Alves!

Grande Sertão: Verdas, págs. 42-43

É nesse ambiente pré-civilizado que Riobaldo se apaixona por Diadorim.

Riobaldo não era homossexual, ao menos não se via como tal, já que andava com mulheres e nelas pensava durante a noite – Otacília, Rosa’Uarda, Nhorinhá -, mas sentia um irrefreável desejo de estar na companhia do amigo, de proteger e bem-querer o companheiro de armas.

Poucos jagunços eram mais destemidos do que Diadorim. Diante do hábito maligno de apontar os dentes, ele dizia que “para ser valente, não carece figurativos”. Se alguém zombasse de sua aparência delicada, puxava a faca e chamava o desaforado para um duelo, conforme as regras não escritas do mundo em que vivia.

Diante da coragem e da habilidade de Diadorim, Fulorêncio e Fancho-Bode tiveram que amarelar.

O amor de Riobaldo só crescia, mas era impossível que se consumasse naquelas circunstâncias. “De perto, senti a respiração dele, remissa e delicada. Eu aí gostava dele. Não fosse um, como eu, disse a Deus que esse ente eu abraçava e beijava”.

Lá pelo fim da história, descobrimos que Diadorim, na verdade, é Diadorina, uma mulher travestida em molambos de jagunço. Riobaldo nunca entendeu por que ela fez isso. Chegou a pensar que era por causa desse mundo hostil que ambos conheciam, uma moça disfarçada estaria mais segura, mas isso é bobagem se pensarmos nas enormes dificuldades que ela passou para se fazer respeitar.

Era uma menina que queria crescer e viver como menino, simples assim, complicado assim.

Seja como for, a descoberta é tardia para Riobaldo. Quando vê o corpo nu de Diadorina, vê um corpo morto na batalha final contra os hermógenes. Menino, menina, homem, mulher… qual a importância de um gênero diante da morte? Grande Sertão é a mais triste das histórias já escritas.

***

Pouca gente leu o Grande Sertão, mas parece que todo mundo está vendo os capítulos finais de A Força do Querer. Ivan é um Diadorim que assume a identidade masculina e por isso passa a viver no pior dos sertões: o mundo dos homens. É onde falta o diálogo e sobra a incompreensão.

“Quer usar o banheiro dos machos? Pois aqui tem que mijar em pé. Veado!”

E não adianta dissertar sobre as teorias de gênero para os Fanchos-Bode e os Fulorêncios da vida real. Eles jamais receberiam um transgênero de braços abertos. Assim, a única conclusão a que Ivan pode chegar é que não é fácil ser homem. Para ser aceito, infelizmente, é preciso demonstrar a determinação de Diadorim, única linguagem compreensível no nosso sertão.

Muitos telespectadores reclamam que a novela está difundindo o “modismo transgênero” pelo país afora. Que bela estratégia de divulgação! Mostrar o sofrimento do personagem e da sua família, com direito a uma gravidez arrevesada e mais uma surra de marmanjos covardes é mesmo um grande incentivo à juventude sempre acusada de ser influenciável.

Ivan, na verdade, humanizou a minoria dos transgêneros diante do grande público. Tudo o que tem a fazer, agora, é entrar no mundo dos homens com a cabeça erguida. Mas como conseguir isso?

Se Diadorim pudesse segurar a mão de Ivan, como segurou a de Riobaldo na cena da travessia, diria simplesmente:

– Carece de ter coragem…

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