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Denise Godinho

18/03/2012

às 14:17 \ Livros da Semana

Livro narra a primeira vez do cinema nacional

Coisas Eróticas sendo exibido no Cine Windsor (Bruno Graziano/Divulgação)

 

Não se trata de nenhum primor da cinematografia brasileira, mas é, sem dúvida, um filme que mudou a trajetória do cinema nacional. No início de abril, prestes a completar trinta anos, o filme que introduziu o país no tórrido mercado pornográfico ganha uma biografia. Coisas Eróticas – A História Jamais Contada da Primeira Vez do Cinema Nacional (Panda Books, 200 páginas, 35,90 reais), dos jornalistas Denise Godinho e Hugo Moura, mostra como o longa Coisas Eróticas, do italiano radicado em São Paulo Raffaele Rossi (1938-2007), sepultou a pornochanchada – e de quebra a Boca do Lixo paulistana – e ainda pôs o Brasil no caminho de ser um dos maiores produtores mundiais de pornografia.

Corria o ano de 1979 quando Raffaele Rossi leu na extinta revista Manchete que um filme japonês com cenas de sexo explícito rumava para o Brasil. Era Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima, que conseguiria uma brecha na censura militar para ser exibido no Masp, durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, então com dois anos de vida. De tino comercial aguçado, o antigo vendedor de equipamentos cinematográficos para as produções da Boca do Lixo, serviço que realizava nos anos 1960, enxergou ali um produto capaz de fazer dinheiro.

Rossi, no entanto, se decepcionou com o que viu. Japonês fazendo sexo, comentaria depois da sessão, não tinha graça nenhuma. Foi então que decidiu: faria um filme de sexo brasileiro, mostrando o sexo da maneira como os brasileiros gostavam e faziam. ”Segundo ele, as cenas de sexo de Império dos Sentidos não excitavam e chegavam a beirar o escatológico”, diz trecho do livro lançado agora pela Panda Books. “Muito pelo contrário, sexo deveria ser excitante.”

Para realizar a empreitada, Rossi cooptou amigos e convenceu atores a protagonizar as primeiras transas cinematográficas nacionais. É sintomático que a atriz Zaira Bueno, a quem o diretor não conseguiu convencer a transar em Coisas Eróticas, não faça nenhuma menção ao filme no blog que mantém. O passo mais ousado do diretor de O Homem Lobo (1971) e Boneca Cobiçada (1981) seria uma pornochanchada piorada — até então, os longas brasileiros mostravam um mamilo ou outro, nunca os dois juntos — e tosca, dividida em três atos ou histórias preenchidas por  imagens de masturbação, sexo oral, swing e homossexualismo. E apesar disso (ou por isso mesmo) um sucesso comercial: por semanas, o filme provocaria filas em frente ao Cine Windsor, no centro de São Paulo, que chegou a receber 3.000 pessoas por dia.

Ao todo, Coisas Eróticas teve um público oficial de 4,7 milhões de espectadores, mesma bilheteria de Carandiru e Se Eu Fosse Você, hits da chamada retomada do cinema nacional. Mas, entre ingressos não computados e cópias piratas, é possível que o longa tenha alcançado uma plateia semelhante à de Tropa de Elite 2, por volta dos 11 milhões de espectadores.

O boom do filme teria o efeito de um divisor de águas. A partir daí, os exibidores do centro paulistano passariam a priorizar filmes de sexo explícito, induzindo os cineastas da Boca do Lixo ainda não persuadidos do custo-benefício a investir em produções do gênero, liberado a partir do precedente obtido por Coisas Eróticas junto à censura. Era o fim da pornochanchada e da Boca do Lixo, que, bem ou mal, ainda oferecia opções de filmes brasileiros para um público mais amplo que o machario dominante nas sessões pornô.

O livro — A vitória de Coisas Eróticas junto à censura é, aliás, uma das melhores passagens do livro dos jornalistas Denise Godinho e Hugo Moura. A dupla fez um trabalho de apuração competente e reconstruiu com um texto saboroso os acontecimentos de antes, durante e após o lançamento do filme, aproveitando com sabedoria o rico pano de fundo histórico. No caso da relação entre Coisas Eróticas e a censura federal, os autores não se limitaram a contar que o filme primeiro sofreu uma série de cortes e depois foi liberado na íntegra, para maiores de 18 anos, por um censor de cabeça aberta, o historiador de arte Assir Pereira, que defendia a classificação dos filmes por idade e horário, em vez de um veto total. O livro conta algo curioso e pouco explorado por obras sobre a ditadura: como funcionava a formação dos censores.

“O primeiro curso para censor federal foi realizado de 8 de julho a 16 de novembro de 1968. A intenção era aumentar o número de censores capacitados na Polícia Federal. Intitulado Curso Intensivo de Treinamento de Censor Federal na Academia Nacional de Polícia, formou a primeira leva de censores pré-Ato Institucional nº 5, credenciados em 30 de dezembro de 1968. Tornava-se obrigatório que, durante o curso, os integrantes se graduassem em uma universidade. Sendo assim, aqueles que já tinham um diploma seriam imediatamente nomeados”, conta o livro.

“Assir Pereira, o tímido rapaz de 23 anos nascido no interior de São Paulo, em Valinhos, entrou no curso em Brasília somente em 1979. A essa altura, o curso já estava aprimorado, sendo ministrado por professores da Universidade de Brasília e da Universidade Católica Federal de Minas Gerais. (…) A grade curricular era de quinhentas horas divididas em 14 matérias: introdução à sociologia, psicologia evolutiva e social, legislação especializada, história da arte, história e técnica de teatro, introdução à ciência política, técnica de cinema, filosofia da arte, técnica de televisão, literatura brasileira, comunicação em sociedade, ética brasileira, técnica operacional e segurança nacional.”

Erros – O brilho do livro só é ofuscado pela quantidade de erros — de edição e de revisão — que carrega. É possível encontrar, lado a lado em páginas vizinhas, informações díspares, como nas páginas 138 e 139. Na primeira, diz-se que Raffaele Rossi, que como quase todos os envolvidos com Coisas Eróticas terminou a vida sem dinheiro e de maneira melancólica, foi deixado pela segunda esposa em 15 de janeiro de 1992. Na segunda, conta-se que Raffaele, que queimou todo o dinheiro faturado em viagens, festas e um time de futebol de salão, se separou de Renata Candu em 15 de julho de 1982 — data impossível, já que a crise que levaria ao fim do casamento teria um desfecho dez anos após a estreia de Coisas Eróticas.

Em outro deslize, a página 50 diz que o ator Oásis Minniti — que se tornaria o rei do sexo explícito, dando até aula da matéria — bateu o carro em outubro de 1981, piorando a sua já difícil situação financeira, e que isso o teria levado a aceitar o convite para participar de Coisas Eróticas, gravando, conforme a página 53, suas cenas em maio de 1981. Uma pena erros encontrar assim em um trabalho de qualidade como este.

Maria Carolina Maia

 

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