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27/11/2011

às 8:55 \ Sem categoria

Alain de Botton: a filosofia a serviço da vida

O filósofo Alain de Botton na escadaria da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro (foto: Orestes Locatel)

Ele se assume um escritor de autoajuda, e com orgulho. Diz fazer parte do renascimento do gênero, renegado ao limbo intelectual no século XIX, com o advento das universidades modernas, e dominado nas últimas décadas por mercenários vendedores de fórmulas milagrosas – e obviamente irreais. Para o filósofo suíço radicado em Londres Alain de Botton, o ser humano precisa mais do que nunca que alguém lhe diga como lidar com a vida e com o desespero: não com promessas de grandes conquistas, mas com a constatação de como somos infortunados e infelizes. E não só isso. Precisa aprender a viver em comunidade e que alguém lhe diga como se comportar. Precisa que a voz doce e grave de uma religião lhe faça agir como uma criança obediente. “Nós somos todos vulneráveis e infantis por dentro. E, como crianças, precisamos ser lembrados do que é bom para nós”, diz. São lições como essa que ele dá em Religião para Ateus (tradução de Vitor Paolozzi, Intrínseca, 272 páginas, 19,90 reais), livro recém-lançado no país e que Botton aproveitou para divulgar em sua passagem pelo Brasil – onde participou do seminário Fronteiras do Pensamento, na última semana, e tanto se admirou com a arquitetura do Rio como se chocou com as disparidades sociais e o urbanismo de São Paulo. “Algumas elites são refinadas em um nível tão alto como só podem ser em sociedades profundamente desiguais: São Paulo”, escreveu em seu perfil no Twitter, para desgosto dos paulistanos.

No livro, o último de uma vasta e bem vendida obra, o filósofo examina princípios de três religiões – Catolicismo, Judaísmo e Budismo – para pinçar lições de vida para seus leitores. Segundo ele, o padrão intelectual hoje dominante na sociedade empurra a muitos para a secularidade, em prejuízo de conceitos e ideias de origem religiosos benéficos à vida individual e coletiva. Visto com cautela por uns, incensado por outros, Alain de Botton discorre sobre como as religiões e a filosofia podem nos ajudar a viver, discurso presente tanto em seus livros como em suas entrevistas. Confira abaixo sua conversa com VEJA Meus Livros.

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No começo de Religião para Ateus, você diz que os ateus têm exagerado no intelectualismo e na racionalidade e que, para eles, ler um livro de autoajuda se tornou algo absurdo. O senhor é a favor dos livros de autoajuda?
O ponto de partida das religiões é que somos crianças e que precisamos de orientação. O mundo secular em geral se ofende com isso. Essa postura ofendida pressupõe que todos os adultos são maduros e devem odiar o didatismo, a orientação e a instrução moral. Mas é claro que somos crianças, grandes crianças que precisam de orientação, de guias que nos lembrem como devemos viver, embora o sistema de educação moderna negue isso, ao nos tratar como seres demasiadamente racionais, razoáveis e controlados. Nós somos muito mais desesperados do que o nosso sistema de educação reconhece. Todos estamos à beira do pânico e do terror quase todo o tempo – e a religião reconhece isso. Nós precisamos construir uma consciência semelhante a esta no mundo secular. Em meu livro, eu defendo que a fé em Deus não é plausível e, para mim e outros, é simplesmente impossível.

Como não ter fé e usufruir da sabedoria ofertada pelas religiões?
Eu sugiro que, se você abdicar da sua fé, vai se abrir para uma série de perigos particulares, nos quais não precisamos cair e aos quais temos que ficar alertas. Em primeiro lugar, tem o perigo do individualismo: o lugar do ser humano no centro de tudo. Em segundo, o perigo do perfeccionismo tecnológico, da crença na tecnologia e na ciência como remédio para todos os problemas humanos. Em terceiro lugar, sem Deus, corremos o risco de perder perspectiva e de ver o presente como tudo, de esquecer a brevidade do momento e de deixar de apreciar – no bom sentido – a minúscula natureza das nossas realizações. Por último, sem Deus, há o risco de a necessidade de empatia e ética seja negligenciada. Agora, é importante ressaltar que é bastante possível não acreditar em Deus e não perder de vista essas questões – da mesma forma como um crente pode ser um monstro. Eu simplesmente quero chamar atenção para algumas carências que surgem em nossa sociedade quando dispensamos Deus bruscamente. Nós podemos renunciar à fé, mas não devemos abdicar da simpatia, do cuidado do pensamento. Quanto à literatura de autoajuda, ela está na base desse mundo e eu a acho interessante.

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14/09/2011

às 16:44 \ Sem categoria

Prêmio Portugal Telecom de Literatura divulga finalistas

A lista de 10 finalistas da 9ª edição do Prêmio Portugal Telecom de Literatura foi divulgada nesta quarta. Entre as obras concorrentes, oito são brasileiras e duas, portuguesas. Ao todo, foram inscritos 371 títulos de autores brasileiros, sete de portugueses, um de uma autora moçambicana e um de um angolano.

O trio de vencedores será anunciado em novembro. Além de um troféu desenhado pelo artista plástico Paulo Von Poser, o primeiro colocado recebe 100.000 reais. O segundo e o terceiro recebem 35.000 e 15.000 reais, respectivamente.

O prêmio aceita inscrição de romances, contos poesias, crônicas, dramaturgia e autobiografia, desde que publicados no Brasil no ano anterior.A edição passada foi vencida pelo músico Chico Buarque, com o livro Leite Derramado.

Confira a lista de obras finalistas:

Passageiro do Fim do Dia – Rubens Figueiredo

As Três Vidas – João Tordo

Uma Viagem à Índia - Gonçalo M. Tavares

Ribamar – José Castello

Minha Guerra Alheia – Marina Colasanti

Em Trânsito – Alberto Martins

Cidade Livre – João Almino

Nada a Dizer – Elvira Vigna

Modelos Vivos – Ricardo Aleixo

O Homem Inacabado – Donizete Galvão

09/09/2011

às 7:30 \ Sem categoria

O lado angelical da dama dos vampiros

Sua fama se deve aos livros sobre vampiros. Mas, atualmente, Anne Rice se dedica a outros seres fantásticos. Ela tem na gaveta um livro sobre lobisomens e está concluindo uma trilogia sobre anjos, seres que, além de representar o novo filão do mercado literário, são de certo modo mais desafiadores para ela. “Como criar uma pessoa perfeitamente boa? É um grande desafio para um escritor. Especialmente porque as pessoas gostam de ver combates e não de situações calmas e bem resolvidas.” Quanto ao lobisomem, Anne tece outras teorias. “O lobisomem, quando se transforma, assume grande poder e tem de aprender a lidar com isso.” Para cada universo, uma cosmologia.

Durante sua passagem pelo Brasil para participar da Bienal do Livro do Rio, na última quarta-feira, a escritora promoveu o recém-lançado De Amor e Maldade, o segundo tomo da sua trilogia angelical. No próximo ano, Anne Rice põe no mercado seu livro sobre lobisomem. A seguir, a entrevista que a escritora concedeu ao blog VEJA Meus Livros.

Qual é a diferença entre escrever sobre vampiros e anjos? Os vampiros são criaturas trágicas, sempre envoltas na escuridão e em luta contra a dor que sentem. Em relação aos anjos, há sempre um clima leve. Afinal, eles são seres que vêm de Deus, que transmitem otimismo e a crença num futuro melhor. Nos meus próximos livros, eu gostaria de falar um pouco sobre como os anjos se posicionam perante os seres humanos, como eles podem ser tão bons. Isso é um grande desafio para um escritor. Como criar uma pessoa perfeitamente boa? É verdade que os vampiros são mais interessantes do que os personagens bondosos. E estou lidando com essa diferença neste momento. Eu quase tenho do que me arrepender. Sei que essa série será tão atraente quanto a dos vampiros, mas não está sendo fácil.

Os vampiros são mais próximos dos homens por serem criaturas falíveis? Sim, pelo fato de homens e vampiros estarem tentando corrigir seus erros. Os vampiros, porém, vivem a tragédia de beber sangue para continuar vivos. São obrigados a matar para sobreviver. Mas o que você faria se tivesse a chance de viver para sempre? É quase irresistível. Eu, provavelmente, me renderia a essa tentação, também. A imortalidade é um sonho.

Você acredita que seus leitores e a sociedade em geral estão preparados para entender personagens perfeitos como os anjos? É provável que os leitores se identifiquem menos com os personagens Toby e Darren, que são seres humanos, do que com o anjo – que, apesar de ter cometido erros no passado, agora se confronta com a sua perfeição. Essa é a coisa mais importante do livro. Não acho possível escrever um livro apenas sobre anjos, como fiz com os vampiros. Se escrever sobre anjos, inevitavelmente irei humanizá-los. Eles terão defeitos e desejos, o que não faz parte da vida de um anjo. Mas no terceiro livro eu quero falar mais sobre como é possível ser tão perfeitamente bom. É muito chato ser bom o tempo todo.

Há uma mensagem por trás de todo esse questionamento? Sim. Nós sofremos a cada minuto da vida para sermos pessoas melhores. E a vida em si é tão linda, tão interessante e atraente que, muitas vezes, nos perdemos nela. Esquecemos de que estamos aqui apenas para amar, aprender e servir. É disso que trato em todos os meus livros, sejam de vampiros ou de anjos: como atravessamos o oceano da vida? Questões cósmicas sobre a existência ou não existência de Deus ou do demônio povoam minha mente a todo tempo e eu tento colocá-las nos meus livros, por isso meus personagens fazem essas mesmas perguntas.

A senhora conseguiu alguma resposta após esses anos todos como escritora? A única conclusão a que cheguei até agora é que temos que nos esforçar para realizar o impossível, para sermos bondosos o tempo todo. Os vampiros também enfrentam isso e são heróis trágicos por saberem, no fundo, que o bem compensa.

Acredita que os anjos vão se tornar tão populares quanto os vampiros na literatura atual? Acho que os anjos já são bem populares. Há muitos livros sobre o tema e inclusive relatos de pessoas que dizem já os terem visto. Mas não acredito que chegue ao nível de popularidade dos vampiros, justamente porque não compartilham a escuridão inerente à natureza humana e, por isso, podem ser menos interessantes.

As pessoas preferem olhar para esse lado do mal dos vampiros? Acho que as pessoas gostam de ver combates e não de situações calmas e bem resolvidas.

Você é muito atuante em mídias sociais. O contato com os fãs influencia seu trabalho de alguma maneira? Eu amo o Facebook. Entro em contato com meus leitores todos os dias. Eu vejo isso como uma pausa no ofício de escrever. Acabei de terminar um livro sobre lobisomens. Através do Facebook, fiz uma série de perguntas aos leitores: o que vocês acham das histórias de lobisomem? O que falta? Recebi mais de 500 respostas, talvez mil, e adoro esse retorno.

Já falamos sobre vampiros e anjos. O que o lobisomem representa para você? Todos esses personagens vivem deslocados do resto da sociedade. Eles parecem humanos, mas não são. De certa forma, eles estão envolvidos com a raça humana, mas não fazem parte dela. Os lobisomens são diferentes dos vampiros, mas muito semelhantes ao mesmo tempo, por que ambos se transformam em outras criaturas, têm um tremendo poder de destruição e tentam controlar esse poder. No livro, eu também falo sobre as vantagens que eles podem tirar disso tudo.

Você vê mudanças na sua maneira de escrever ao longo desses anos? Sim. Eu tinha uma visão muito pessimista da vida quando comecei a escrever. Entrevista com o Vampiro é um livro muito sombrio que, basicamente, passa a mensagem que viver não vale a pena. Eu não acredito mais nisso. Uso meus personagens sobrenaturais para falar o que penso. Acredito que as pessoas são heroínas de suas próprias vidas.

O que contribuiu para essa mudança? Vivi algumas tragédias e perdas. Perdi uma filha (sua primeira filha, Michele, morreu de leucemia aos seis anos, em 1972) e recentemente o meu marido e o que aprendi a partir disso me tornou uma pessoa mais paciente e amável. Não que a dor tenha feito de mim uma pessoa mais sensível. Isso não ocorreu, o que é um grande desperdício a meu ver. Na verdade, o sofrimento, quando cessa de doer, é como um milagre. A vida volta a se movimentar de novo, o céu continua azul, e aí se tem a mensagem de que a vida continua a se renovar. Acho que a dor deve abrir o coração das pessoas. Espero transmitir isso através dos meus livros.

Qual o motivo para a literatura fantástica estar cada vez mais na moda? Eu vejo como um interesse gradual. As pessoas se cansaram de literatura realista. Durante muito tempo, um livro não era considerado sério se não tratasse do cotidiano da classe média americana e seus conflitos. Até quando os leitores aguentariam ler somente sobre isso? Daí se cria a voracidade pela fantasia entre os leitores. Personagens como vampiros, bruxas e lobisomens são expressões do ser humano.

Mariana Zylberkan

27/08/2011

às 10:30 \ Sem categoria

‘Alvo Noturno’, o mais – e menos – policial de Ricardo Piglia

Uma coisa é certa: Alvo Noturno (tradução de Heloisa Jahn, Companhia das Letras, 256 páginas, 45 reais), romance do argentino Ricardo Piglia que acaba de chegar ao Brasil, é o mais policial de todos os seus livros. Outra coisa é igualmente correta: a obra, recentemente agraciada com o Prêmio Hammet de romance noir, não é um livro policial.


Vídeo: Ricardo Piglia fala a VEJA Meus Livros sobre Alvo Noturno

Não se quer aqui entregar o final, mas basta citar o que se desenvolve antes dele para compreender. O livro tem início com a história de Tony Durán, um alto e belo porto-riquenho radicado nos Estados Unidos, de onde embarca para a Argentina após conhecer as irmãs Ada e Sofia. São as gêmeas e ruivas filhas do patriarca dos Belladona, clã que fundou e comanda um povoado na província de Buenos Aires.

O envolvimento de Tony com as gêmeas choca a cidade, que valoriza mais as próprias notas do que o noticiário do país, mergulhado numa ditadura militar – o período é 1970, época dileta de Piglia. O choque é logo substituído por outro, no entanto: poucos meses após desembarcar no povoado, Durán é assassinado no quarto do hotel onde está hospedado. O segurança noturno do lugar, um japonês que remete ao segurança do hotelzinho de A Cidade Ausente, é logo apontado como suspeito, pela grande amizade criada com o morto. Em seu quarto, encontram emoldurada uma foto de Tony seminu. Yoshio é preso, acusado de crime passional.

Mas, assim como a imagem que na cidade se tem do campo, visto como lugar pacato, tedioso e atrasado, e na verdade um composto de “camadas geológicas”, como anota Piglia, a história rompe a superfície e se desdobra. Um novo assassino, um crime contratado, um esquema de lavagem de dinheiro e de empresas, corrupção, intrigas familiares, sexo e drogas são componentes que surgem especialmente a partir do ponto em que o honesto mas amalucado detetive Croce cruza com o repórter Emilio Renzi, alter-ego do qual Piglia já revelou querer escrever uma biografia.

Enviado de Buenos Aires para cobrir a morte de um gringo no interior da província, Renzi demora um pouco a chegar. Sua entrada acontece por volta da página 40. Mas, quando chega, passa a rivalizar com o narrador – boa parte dos capítulos terminam com anotações do jornalista, destacadas em itálico – e com o investigador Croce pelo papel de protagonista da história. Seja qual for o narrador ou o protagonista do trecho, Piglia mantém o humor irônico que pontua todo o romance e compensa o fato de ele ser menor que, por exemplo, Respiração Artificial, do mesmo Piglia e do mesmo Renzi.

Compensa também, e muito, o fato de Alvo Noturno ser marcado por um clima noir em que as incertezas se acentuam – daí se ter menos um romance policial que um romance no sentido mais amplo, de possibilidades irrestritas. Clima detetivesco que é caro não apenas a Piglia, mas a toda uma tradição da literatura argentina, que sabe com ele brincar, não apenas incorporá-lo, dando à obra esse formato multifacetado.

O próprio título corrobora com a proposta. Alvo noturno, explica uma nota de rodapé no meio do livro – feito de notas com funções variadas, como a de complementar um dialogo com falas –, eram as lebres com que os motoristas do povoado tinham de tomar cuidado ao dirigir no escuro, e que os ingleses liquidaram sem problemas, na Guerra das Malvinas, por contar com um visor para enxergar à noite. A imagem da faceira da lebre e a oposição entre o local e o estrangeiro e entre quem vê e quem não vê na noite – noir – ajudam não a explicar o romance, mas a ampliá-lo em termos de saídas. Difícil é escolher uma só delas. Afinal, aqui nada é o que parece ser.

Maria Carolina Maia

11/07/2011

às 0:01 \ Sem categoria

Caryl Phillips: “mais difícil é dar voz aos personagens”

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Caryl Phillips, caribenho, professor na Universidade de Yale, é autor de três livros de não ficção e de sete romances. Premiado, veio à Flip para lançar A travessia do rio, pela editora Record. Nessa entrevista ele fala da sua paixão por poesia.

1-Ontem, na sua exposição, você falou que o autor tem de ter certa arrogância para escrever, por ele estará escrevendo sobre suas obsessões. A cultura negra africana é uma obsessão para você?

Não, porque eu fui criado na Inglaterra. Mas a cultura africana está presente em muitos países. O Brasil é um deles. O que me absorve é o que me toma mais é preconceito com a raça, o que sofrem os negros com isso. Eu tomei consciência quando fui para Oxford que a ração está diretamente ligada à classe social. E isso é complicado, gera descriminação. Isso, sim, me acompanha.

2-Nota-se em seus livros o cuidado primoroso com a linguagem. Como disse ontem, sua intenção á dar dignidade à linguagem. Como foi a sua formação nesse sentido, quais os autores que mais o influenciaram?

Desde pequeno gostava de ler e minha formação acadêmica foi em literatura inglesa. Os livros me ajudaram a amar a linguagem. Eu sempre li muita poesia, TS Eliot, Auden e outros. A prosa usa muitas palavras para expressar uma cena. A poesia não, a poesia é concisa. Gosto disso.

3-Como é o seu trabalho em televisão, rádio e teatro?

Fui trabalhar em rádio e televisão por duas razões: uma porque eu precisava arrumar um trabalho que me sustentasse; e o outro motivo é porque eu queria ter uma atuação mais social, falar de política e nesse sentido a televisão é mais imediata. Um romance demora no mínimo três anos para ser publicado. Fiz alguns documentários para a BBC ,de Londres.

4-Você disse que em Oxford teve a noção da importância da classe social. A sua escolha de morar nos Estados Unidos tem relação com isso?

Nova York é uma cidade diferente, liberal, doida. Ela congrega qualquer tipo de pessoa. Na Inglaterra, a presença da Rainha, a questão de sangue, da sucessão da realeza cria uma situação de segregação. Nos EUA o presidente foi eleito, você pode apresentar a sua cara em público, seja você quem for. Me sinto melhor assim.

5-Nesse seu livro houve um trabalho profundo de pesquisa histórica?

Veio depois de eu ter escrito. Minha primeira preocupação é colocar minha energia em achar a voz dos personagens. Isso é o mais difícil porque as pessoas são mais complicadas do que os fatos. Depois que eu dou alma aos personagens é que vou atrás da pesquisa, buscar as características sociais da época que se passa o livro.

6-Quais os autores de língua portuguesa que vc mais sente afinidade?

Clarice Lispector. Gosto de sua forma de escrever, mais interiorizada. A solidão é um sentimento muito presente na obra dela. Aprecio muito.

Por Lilian Fontes

09/07/2011

às 14:31 \ Sem categoria

Joe Sacco: “um trabalho muito intenso”


Com um trabalho ousado em história em quadrinhos, o jornalista Joe Sacco, que vive nos Estados Unidos, transpõe para a linguagem das graphic novels os conflitos na Palestina e nos Bálcãs. Nessa entrevista, falou de como é a sua forma de trabalhar.

Desde os anos 80 a indústria de quadrinhos mudou muito. Saiu das lojas de quadrinhos e encontrou um lugar nas livrarias. Agora é um material principal fonte de filmes e que está chegando a um público mais mainstream. O jornalismo também sofreu alterações com a internet. Você acha que seu sucesso é um resultado dessas mudanças?

Meu sucesso é decorrência de muito trabalho. Mas, de fato, a internet mudou a maneira de os jovens se relacionarem com a informação. Não posso falar o mesmo das pessoas de mais idade que já não tem muita simpatia com o meu trabalho.

Você se vê como o criador de um subgênero nos quadrinhos e jornalismo? Você teria uma teoria para descrever esse seu trabalho?

Eu estudei jornalismo e eu era apaixonado por comics. Não tenho teoria a respeito do meu trabalho. Tudo aconteceu acidentalmente. Usando as ferramentas que aprendi no jornalismo, eu fui desenvolvendo o meu trabalho. Para criar os personagens, eu vou ao lugar, faço entrevistas, tiro fotos para depois reproduzí-las na linguagem gráfica.

Você enfrenta a resistência de outros jornalistas e da comunidade em quadrinhos? Isso te incomoda?

Não, não.. Eles são jornalistas, trabalham com a notícia, não podem perder tempo em fazer um história como eu me proponho a fazer. E não sinto competição com os que fazem histórias em quadrinhos.

Patrick Cockburn, jornalista que cobre o Oriente Médio, disse sobre seu livro, Notas de rodapé em Gaza, em artigo para The New York Times:”a vivacidade e o ritmo de desenhos de Sacco, combinada com uma narrativa altamente informada, conseguem contar a história de forma brilhante. Na verdade , é difícil imaginar como qualquer outra forma de jornalismo pode fazer estes eventos tão interessantes”. Você concorda com ele? Fazer quadrinhos para contar histórias é uma forma que não se consegue em outras plataformas?

Bem, concordo com ele. Realmente, é difícil contar história sobre eventos tão desagradáveis. Você vê filme sobre esses assuntos na tela de um cinema, mas não tendo as imagens nas suas mãos. O leitor pode virar a página ao ver uma cena desagradável no meu livro, ou o contrário, se interessar em ver os detalhes do desenho.

Em edições especiais de seus livros podemos ver a precisão dos seus desenhos. Edifícos e as pessoas estão bem representadas. Como você escolhe os momentos e quão importante você considera os detalhes em suas histórias?

Eu sou jornalista, então, eu dou atenção as coisas que irão reproduzir a notícia, o aconteciemento. E eu vou ao local, fotografo, entrevisto as pessoas, procuro saber como era aquela rua antes do bombardeio. E depois detalho em desenho. É um trabalho muito intenso.
Por Lilian Fontes

11/01/2011

às 22:40 \ Sem categoria

Leya lança em março biografia de Sarney

Presidente da sessão, Presidente do Senado, senador José Sarney (PMDB-AP)

Os escândalos vividos na presidência do Senado em 2009 estarão na biografia que José Sarney ganha a partir de março, com a assinatura da jornalista Regina Echeverria e a marca da editora Leya. O livro, que ainda não tem título – uma das possibilidades é de que se chame simplesmente Sarney –, deve sair com uma tiragem entre 10.000 e 20.000 exemplares.

“A biografia é fruto de um trabalho exaustivo de pesquisa por parte da Regina, que está debruçada sobre este trabalho há anos. Eu diria que a biografia tenta dar conta de todas as questões que envolvem a vida de um político como o Sarney, que foi presidente da República e esteve ligado a denúncias de corrupção”, diz Pascoal Soto, diretor da multinacional Leya no Brasil. “Os escândalos aparecem inevitavelmente.”

Segundo Soto, apesar de ter dado seu aval à biografia, Sarney permitiu que a jornalista Regina Echeverria trabalhasse com liberdade. Deu a ela, inclusive, acesso ao livro de memórias que está escrevendo de próprio punho. O autor de Marimbondos de Fogo e membro da Academia Brasileira de Letras, aliás, também terá sua faceta literária abordada na obra de Regina.

Outro político, este ainda mais polêmico, terá biografia lançada pela leia neste primeiro trimestre: o ditador português António de Oliveira Salazar.

Maria Carolina Maia

10/12/2010

às 8:31 \ Sem categoria

Clarice, 90: a “boa rebelde” da literatura nacional

Dizer que Clarice Lispector (1920-1977), que nesta sexta-feira completaria 90 anos, foi uma escritora que conduziu a literatura brasileira a níveis de intimidade e profundidade pouco explorados no país não seria mentira. Mas pode-se dizer ainda mais dela. Para Nadia Batella Gotlib, autora de Clarice: uma Vida que se Conta (Edusp, 656 páginas), Clarice não era apenas uma autora dotada de “aguda percepção da condição humana”, mas também uma escritora capaz de romper com os gêneros tradicionais da ficção, legado que teria deixado. “Clarice praticava gêneros como a crônica, o conto e o romance, desmontando-os internamente. Sob esse aspecto, ela pode ser considerada, mesmo nos dias de hoje, entre escritores e escritoras, um dos grandes nomes da ‘boa rebeldia’ em nossa literatura”, diz Nadia, autora também do livro Clarice Fotobiografia (editora Imprensa Oficial, 668 páginas), em que analisa a escritora ucraniana crescida no Brasil a partir de suas imagens.

Um dos principais biógrafos de Clarice, Nadia vê a escritora como uma mulher que sofria de um provável deslocamento do mundo – talvez por integrar uma família de judeus imigrantes – e que transformava sua sensibilidade em livros densos, mas também capazes de conexão com as pessoas. Daí, Clarice ter sido traduzida para diversas línguas como o japonês, o russo e o polonês. “Essa forma sensível de ver o mundo pode ser encontrada já em seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, que ela publicou com 23 anos”, diz Nadia. “Sua literatura de alto nível correspondia às expectativas de um público vasto: ela escrevia para pessoas de todas as idades e sobre pessoas de todas as idades.”

Abaixo, Nadia Batella Gotlib fala sobre seu principal objeto de estudo, Clarice Lispector.
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Em entrevista a VEJA, o escritor argentino Ricardo Piglia disse que Clarice parece uma escritora de outro planeta, no sentido de que não se pode dizer facilmente que sua literatura é brasileira. A que se deve a universalidade da obra de Clarice?
De fato, a literatura de Clarice é universal porque traduz a condição humana, com seus vícios e virtudes. E com enorme competência narrativa: Clarice tem rara capacidade de registrar, em linguagem, com sutileza, densidade e ironia, detalhes que acabam traduzindo essa condição humana. Mas convém considerar que sua literatura é também datada e locada no Brasil. Macabéa (de A Hora da Estrela) remete ao povo judeu (macabeus), mas é uma alagoana pobre que tenta “melhorar de vida” no Rio de Janeiro. Essa situação é tipicamente brasileira. Sob esse aspecto, a literatura de Clarice constitui mais um capítulo da literatura brasileira depois do romance social dos anos 1930: com Clarice, o nordestino não só sai do sertão árido e seco, mas se retira do nordeste procurando sobreviver numa grande capital do sul do país.

O biógrafo Benjamin Moser (confira aqui entrevista com ele) desenvolveu uma tese sobre Clarice Lispector a partir de umestupro que sua mãe teria sofrido na Ucrânia. Moser diz que a mãe engravidou de Clarice na esperança de se salvar e que sua morte se tornou uma espécie de culpa que a escritora levaria consigo. Na sua opinião, a morte da mãe influenciou de alguma forma a obra de Clarice?
De fato, essa é a tese de Benjamin Moser, que, no entanto, não se apóia em registro documental. Segundo Elisa Lispector, irmã de Clarice que era considerada o “baú” da família, porque contou a saga dos Lispector da Ucrânia para o Brasil e cuidava dos documentos familiares, a mãe sofreu “trauma” – ela não especifica se no sentido físico ou psicológico ou ambos – devido a violência causada por bolcheviques russos. De fato, na época, a região da Ucrânia onde moravam os Lispector foi assolada por pogroms, perseguições aos judeus, aliás, provocadas por várias facções políticas, não só por bolcheviques. Ainda segundo Elisa, a mãe sofria de “hemiplegia”, que é a paralisia de metade do corpo ou de parte dele, causada por lesão cerebral. Clarice conviveu com a paralisia, que era progressiva, até os seus quase 10 anos, quando a mãe faleceu. E numa crônica conta que teria sido concebida para salvar a mãe e que a cura não aconteceu. É provável que tais fatos – a hemiplegia, a cura que não aconteceu e a morte da mãe, quando Clarice era criança – tenham marcado a escritora, tal como outros episódios, ao longo de sua vida, também podem tê-la influenciado a escrever como escreveu.

Em que medida a biografia de um escritor influi na sua obra e mais detidamente, como isso se dá no caso de Clarice Lispector?
É difícil determinar em que medida uma vida influencia uma obra. As experiências de vida aparecem, na obra, mesmo em textos autobiográficos, já misturadas com o imaginário do autor. Há invenção sempre. No caso de Clarice, por exemplo, o fato de pertencer a uma família judia emigrante pode tê-la feito sentir em constante “estado de exílio”, alguém que não pertence a lugar nenhum e vivencia uma espécie de estranhamento diante dos lugares e pessoas. Mas há que se considerar também que esse estranhamento pode ser, pelo menos em parte, manifestação de um modo “especial” de o artista “enxergar” o mundo, mediante uma desautomatização, por vezes, crítica, do que o rodeia, o que permite criar sentidos inusitados.

Clarice Lispector teria sido escritora se não tivesse vindo para o Brasil e conhecido o português?
Essa é uma pergunta que a própria Clarice se faz. E é um tipo de pergunta para a qual não se tem resposta precisa, apenas hipóteses.

Nas fotografias, é raro ver Clarice rindo. Ela era uma mulher séria ou compunha uma personagem para apresentar aos leitores?
Para fazer o livro Clarice Fotobiografia, vi centenas de fotos de Clarice só e em grupo. Mas não vi mais do que duas ou três em que Clarice aparece com “sorriso largo”. Nas demais, tal como sua personagem Ana, do conto “Amor”, nada mais que um sorriso de “meia satisfação”. Na única imagem ao vivo de que se tem notícia, a da entrevista de Clarice na TV Cultura, ela aparece séria demais, angustiada demais. Pena que seja esse o único registro gravado em som e imagem, pois seus amigos também dizem que ela era alegre e divertida. Mas uma das características de sua personalidade era a da mudança brusca de humor: em reuniões sociais, quando, de repente, resolvia sair e voltar para casa, nada havia que a fizesse mudar de ideia. O perigo é mitificar Clarice: atribuir a Clarice atitudes singulares, que, na realidade, também são nossas. Clarice percebeu isso e, em entrevista na TV Cultura, criticou pessoas que julgavam ser importante qualquer bobagem que ela dizia. Outro perigo é o de imaginar fatos “reais” referentes à sua vida, que surgem na tentativa de preencher lacunas. Nesse caso, Clarice é veemente. Numa crônica que leva o título de “Esclarecimentos. Explicação de uma vez por todas”, em que aborda justamente a questão do seu nascimento, afirma: “Não há simplesmente mistério que justifique mitos, lamento muito.”

Certa vez, a senhora disse que o olhar de Clarice tinha “um ar sedutor, instigante e um tom de desafio”.
Sim. Creio que tem. Se observar as fotos de Clarice criança verá que, em sua grande maioria, ela olha diretamente para a câmera, ou seja, para o fotógrafo. Não desvia o olhar. Essa marca persiste, ao longo da sua vida, até se transformar no olhar fulminante das fotos tiradas por Alair Gomes, no início dos anos 1960. Reconheço nesse olhar uma semelhança com o olhar de seu narrador que encara o “outro” (que pode ser inclusive cada um de nós, leitores) de modo direto, como se o enfrentasse, tal como uma personagem sua, que se encontra diante de um búfalo, na procura veemente de experimentar o ódio, num dos contos de Laços de Família.

Na data em que se comemoram os 90 anos de nascimento de Clarice Lispector, é inevitável examinar o legado que a escritora deixou. Qual, na sua opinião, é a sua herança?
Clarice trouxe para a literatura brasileira um novo modo de contar histórias, ao mergulhar no interior das personagens para acompanhar, a par e passo, cada detalhe, cada gesto dessa intimidade, com seus anseios, desejos, ódios, sensações, afetos, medos. E tudo isso a partir de uma estratégia narrativa muito esperta, de seduzir o leitor aos poucos, puxando sua atenção a partir do relato de fatos bem banais, de modo a lhe dar a sensação de que nada de importante estaria acontecendo ali, na história, mas, ao mesmo tempo, alimentando a sua inquietação com questionamentos instigantes e perturbadores, levando-o a uma nova “descoberta do mundo”. O interessante é que praticava tais gêneros desmontando-os internamente, minando o terreno da narrativa de conceitos e recursos que, de certa forma, colocavam em xeque o próprio gênero que praticava.

Maria Carolina Maia

09/12/2010

às 14:17 \ Eventos, Sem categoria

Designer de VEJA desvenda a origem da tipografia

Tipógrafos e Editores - O Período de criação, por Carol RozendoDesde criança, a designer Caroline Rozendo tem um interesse especial por livros. Não apenas pelas histórias que contam, mas também pela forma com que são produzidos. Tipógrafos e Editores – O Período de Criação (1450-1550), livro que lança pela editora Com Arte neste sábado, em São Paulo, é uma homenagem aos primeiros tipógrafos da história e às obras editadas, produzidas e impressas em suas oficinas.

“O livro é um levantamento sobre os personagens mais importantes do período de criação da tipografia, cujo princípio coincidiu com o renascimento europeu”, explica Caroline. “Os primeiros tipógrafos eram ao mesmo tempo intelectuais e técnicos, e geralmente se envolviam em todas as etapas da publicação, da correção do texto aos materiais de impressão. Quase todos os elementos do livro contemporâneo foram criados por eles, e suas experimentações transformaram a cultura ocidental num movimento análogo à revolução digital por que passamos hoje.”

Da Alemanha de Gutenberg à Inglaterra de William Caxton, são 16 capítulos dedicados aos primeiros tipógrafos e editores da Europa. Cada trecho é ilustrado por imagens de trabalhos que ficaram conhecidos por sua inovação, importância cultural ou beleza das letras e da paginação. Cláudio Rocha, especialista em tipografia e editor da revista Tupigrafia, escreve o prefácio.

O lançamento acontece neste sábado, das 15h30 às 18h30, na livraria Martins Fontes da avenida Paulista (número 509, próximo à estação Brigadeiro do Metrô).


Tipógrafos e Editores – o Período de Criação (1450-1550)
por Carol Rozendo
Editora Com-Arte, 128 páginas, 25 reais

Maria Carolina Maia

01/10/2010

às 12:18 \ Sem categoria

Edney Silvestre leva mais um: o Jabuti

A 52ª edição do Jabuti, o mais prestigioso prêmio literário do país, anunciou os vencedores de 2010. Foram premiados três livros em cada uma das 21 categorias, todos publicados no ano passado. Veja abaixo a lista dos livros vencedores nas categorias Romance, Contos e Crônicas, Poesia e Biografia – o prêmio agracia ainda tradutores, livros técnicos, médicos e jurídicos. A lista completa pode ser conferida no site oficial da premiação, que será entregue no próximo dia 4 de novembro. O jornalista e escritor Edney Silvestre, que em agosto havia conquistado o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante, foi o grande vencedor do Jabuti, conquistando a categoria Romance.

Romance

Se Eu Fechar os Olhos, Edney Silvestre (Record)

Leite Derramado, Chico Buarque (Companhia das Letras)

Os Espiões, Luis Fernando Veríssimo (Objetiva)

Contos e Crônicas

Eu Perguntei pro Velho se Ele Queria Morrer (e Outras Histórias de Amor), José Rezende Jr. (7Letras)

A Máquina de Revelar Destinos Não Cumpridos, Vário do Andaraí (Dimensão)

Paulicéia Dilacerada, Mario Chamie (Funpec)

Poesia

Passageira em Trânsito, Marina Colasanti (Record)

Sangradas Escrituras, Reynaldo Jardim Silveira (Star Print)

Lar, Armando Freitas Filho (Companhia das Letras)

Biografia

Nem Vem que Não Tem: Vida e Veneno de Wilson Simonal, Ricardo Alexandre (Globo)

Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão, Lira Neto (Companhia das Letras)

Euclides da Cunha: Uma Odisséia nos Trópicos, Frederic Armony (Ateliê Editorial)

4º Bendito, Maldito: uma Biografia de Plínio Marcos, Oswaldo Mendes (Leya)

Nota: as biografias de Padre Cícero e Euclides da Cunha empataram em segundo lugar


 

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