06/08/2011
às 9:27 \ Livros da SemanaO prazer de escutar
Ao resenhar um disco do compositor Max Richter no Pitchfork, o site de música alternativa mais lido do planeta, o jornalista Joe Tangari escreveu: “Hoje em dia, o local onde a música erudita e a música pop se encontra não é uma fronteira, mas sim uma ponte com trânsito em ambos os sentidos. Gosto de pensar no compositor Max Richter como alguém no meio desta ponte”. As palavras de Tangari se encaixariam com exatidão em qualquer tentativa de descrever o mais recente livro do crítico Alex Ross, que veio ao Brasil para lançar Escuta Só – Do Clássico ao Pop (tradução de Pedro Maia Soares, Companhia das Letras, 425 páginas, 49,50 reais).
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Alex Ross alcançou fama mundial ao realizar um feito imprevisível: lançou um extenso livro de não ficção sobre música erudita no século XX e se tornou um best-seller. O Resto É Ruído, publicado em 2009 no Brasil, traça um panorama cronológico dos diversos movimentos e vanguardas que abalaram o mundo no conturbado século marcado por duas guerras mundiais. Com uma linguagem jornalística límpida e acessível, Ross mesclou a biografia dos compositores com breves esboços do contexto histórico de cada época, tudo pontuado por rápidas lições de música. O Resto É Ruído forma, assim, um excelente guia de referências para leitores interessados em música erudita, mas não familiarizados com o jargão da área. O fato de o livro ser direcionado a leigos não impediu, entretanto, que várias passagens da obra fossem condenadas como “superficiais” por especialistas em música. No país, criticou-se em particular a menção apressada e insignificante ao brasileiro Heitor Villa-Lobos.
Na esteira do sucesso de O Resto É Ruído, surge Escuta Só — Do Clássico ao Pop, que compila ensaios e artigos do autor publicados na prestigiosa The New Yorker. Novamente, Ross emprega uma linguagem leve e bem-humorada, que mistura memória pessoal, jornalismo e pesquisa histórica. O primeiro capítulo, um ensaio-manifesto publicado anteriormente no Brasil na revista literária Serrote, define, de certo modo, os propósitos do livro: despertar o interesse de conhecer a música erudita no ouvinte de música pop e vice-versa. Neste afã, ele alterna artigos sobre bandas como Radiohead e regentes como Salonen e o venezuelano amalucado Dudamel.
Muitas das ressalvas feitas em relação a O Resto É Ruído também se aplicam aos capítulos mais “históricos” de Escuta Só: ao tentar traçar uma biografia-relâmpago de Mozart, Ross abre mão dos detalhes e seu texto perde densidade. Por outro lado, o estilo do autor se revela extremamente adequado em capítulos sobre temas contemporâneos, como a análise da empolgante cena musical da China nos dias de hoje, ou a reflexão sobre as perdas e ganhos dos avanços tecnológicos para o mundo da música. Neste último, intitulado Máquinas Infernais: Como as Gravações Mudaram a Música, a combinação entre pesquisa histórica e reflexão ensaística do autor encontra o seu ápice. E não são raros os momentos nos quais Ross se arrisca a fazer uma declaração polêmica. Falando sobre a morte de Kurt Cobain, por exemplo, opina que o rock não é o meio adequado para passar uma mensagem política. Para ele, “as canções populares se tornam propriedade dos fãs e ficam marcadas pelas circunstâncias de seu consumo, não de sua criação. Uma audiência não procurada pode marcar a música de maneira indelével, como os Beatles descobriram quando Charles Mason adotou Helter Skelter”.
Ao desviar o olhar para a música popular, Ross não analisa fenômenos de massa como Justin Bieber ou Lady Gaga, e sim os nomes mais destacados da música alternativa, como Radiohead, Björk e Sonic Youth. Ou seja: artistas pop com um pé no mundo da música erudita. Nestes textos, às vezes parece que o autor se deixa levar por certo deslumbramento de estar acompanhando popstars na estrada e escreve em um tom tão laudatório sobre Radiohead que parece endeusá-los. Ainda assim, tal encanto não parece fora de lugar na prosa de Ross: em seu projeto de redigir artigos acessíveis sobre música, permitir que certo deslumbramento transpareça reforça o lado “pé no chão” do autor. Incapaz (e desinteressado) de trabalhar com uma objetividade jornalística completa, Ross caminha pelo mesmo terreno ocupado por nós, leitores, como um amigo empolgado recomendando discos.
No final das contas, Escuta Só – Do Clássico ao Pop cumpre o que propõe. Sua acessibilidade pode resvalar, em algumas ocasiões, na banalidade, e os especialistas provavelmente apontarão cada uma das suas falhas. Para o público-alvo de ouvintes sem formação na área, no entanto, o livro apresentará uma saborosa jornada por um universo musical multifacetado. Escuta Só é uma celebração do prazer de ouvir música, e Ross transmite com entusiasmo essa paixão.
Antônio Xerxenesky
Tags: Alex Ross, Companhia das Letras, Escuta Só


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