A invenção de Dan Brown por Umberto Eco e outras histórias
“Eu inventei Dan Brown”, diz o escritor Umberto Eco. A frase é boa e não pode ficar de fora do texto, deve pensar o jovem entrevistador Ben Naparstek, australiano de 24 anos que já colaborou para mais de 40 periódicos e hoje edita a revista The Monthly, em Melbourne. De fato, a declaração entra para o perfil do intelectual italiano que Naparstek publicaria pela primeira vez em 2007 e mais tarde, novamente, no livro Encontros com 40 Grandes Autores (tradução de Elisa Nazarian; Leya; 247 pág.; 39,90 reais), a partir deste mês no país.
A frase entra precedida de uma explicação. O autor do best-seller O Código da Vinci não é discípulo de Eco. E, se já pretendeu sê-lo, foi certamente rechaçado. “Ele é um dos personagens grotescos do meu romance que levam a sério um monte de material estúpido sobre ocultismo”, segue o escritor italiano, citando o livro Pêndulo de Foucault, projeto que brinca com teorias conspiratórias e que teve início com uma pesquisa entre 1.500 livros de ocultismo reunidos pelo autor. “Ele usou grande parte do material.”
Da breve estatura de seus 20 e poucos anos, Naparstek parece se sair bem diante de Eco e de outros grandes nomes presentes entre os 40 selecionados para o seu primeiro livro. Dividida em duas partes, uma de autores de ficção e outra de não-ficção, a obra reúne escritores como Toni Morrison, Noam Chomsky, Robert Fisk, Carlos Fuentes, José Saramago e Paul Auster.
De Saramago, por exemplo, o jovem australiano extrai declarações interessantes sobre o estilo – “Meu estilo começou em 1979, quando eu estava escrevendo Levantado do Chão. O mundo que eu descrevia era o Portugal rural, durante os primeiros dois terços do século passado – um mundo no qual a cultura de contar histórias predominava, e eram passadas de geração a geração, sem que se usasse a palavra escrita.”
E de Auster, para citarmos uma terceira entrevista, ouve um bonito elogio à imprevisibilidade da vida – a grande musa do americano. “Como é possível pensar o mundo sem considerar o imprevisto, o desconhecido, a sorte inesperada? Algumas vezes conseguimos realizar planos, mas muitas vezes isso não acontece, algo interfere. É aí que as histórias começam.”
Maria Carolina Maia
Tags: Umberto Eco; Paul Auster; José Saramago; Leya; Ben Naparstek


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10 Comentários
Berthold
-02/04/2012 às 12:55
Compare: Eco é um vinho de qualidade e Brown é cerveja, muito mais gente bebe cerveja. Ambos são escritores bons, cada um na sua…e não podemos tirar de Brown o mérito de ter feito tanta gente ler e se interessar por conhecimento e chegar até Eco, gente que desconhecia totalmente o tema. Vejo pessoas que nunca tinham se interessado por religião, de repente, estudando cristianismo, catolicismo, etc.
Um viva aos dois, pois fazem muita gente entrar pela primeira vez em uma livraria. E um viva para Ben Naparstek também.
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Ricardo
-09/03/2012 às 10:26
Dan Brown é sem dúvida excelente entretenimento literário, mas não necessariamente boa literatura (e, penso eu, nem pretende ser). Há uma diferença. É como o cinema de autor e o cinema comercial. Não são comparáveis uma vez que jogam em campeonatos diferentes e satisfazem necessidades diferentes dos seus espectadores. Eu gosto e leio Saramago e Dan Brown, Paulo Coelho e Kafka, etc etc, mas sei que estou a ler coisas completamente diferentes e que produzem em mim efeitos diferentes. E está muito bem assim.
escritor10
-23/01/2011 às 10:45
Devido à minha pouca idade, ainda não me habituei as obras de Toni Morrison, Noam Chomsky, Robert Fisk, Carlos Fuentes, José Saramago e Paul Auster. Mas posso dizer que realmente Umberto Eco merece mérito.
Acho que é um dos linguístas e semiólogos mais atuantes do mundo. Suas obras tem concisão, coesão e ainda dizem a fonte dos seus argumentos. Indubitavelmente mais completo que Dan Brown.
Obs: Nada contra Dan Brown, li 3 livros seus, só não me agrado muito com esses novos thrillers corridos que simplesmente lançam as frases que não estimulam a reflexão do leitor. Prefiro os livros que você precisa reler sempre para aprender algo novo.
hugo spqr
-12/01/2011 às 6:12
É impressionante a sociedade. Tanta hipocrisia e corporativismo. Dan Brown é um grande escritor… Aí sempre vem aqueles babacas reacionários e chauvinistas, os SANTOS GRAAIS da literatura critica-lo.Esses são os mesmos que criticaram as obras de Dante e Dostoiévski em suas determinadas épocas.Sempre a mesma corja sordida…
Fernando Melo
-21/05/2010 às 16:17
Interessante este post. Dan Brown foi criado por Umberto Eco. Por força da curiosidade li Dan Brown, e por coincidência estou lendo o Pêndulo de Foulcault. Sou extremamente suspeito para falar (ou escrever, no caso, já que sou fanático por Eco), mas a diferença na densidade é incrível. Em Eco as coisas aparecem com lógica e razão de ser. Em Dan Brown as suposições vagas imperam. Mas quem sou eu para criticá-lo e nem acho que ele merece crítica, já que literatura também é diversão e é assim que Brown deve ser encarado.
JD
-09/05/2010 às 4:01
So de ver os nomes de Noam Chomsky e Robert Fisk – dois dos maiores picaretas do mundo “intelectual” atual – eu ate perco a vontade de ler. O que de novo se consegue sobre esses dois que possa interessar – ou assustar/revoltar – alguem? Chomsky ja admitiu em debate com Buckley que mentiu propositalmente (coisa que faz em todos os seus livros…) sobre a guerra do Vietna p/ defender suas ideias politicas e Fisk… bom, esse mostra que eh um mentiroso s/ nenhum pudor em todas as suas diatribes anti “sionistas” na imprensa britanica.
Parece que a ideia do entrevistador foi juntar o maior numero de imbecis – e talvez por isso mesmo polemicos – do mundo academico para conseguir um monte de declaracoes bombasticas e estupidas. So isso explica Chomsky, Fisk, Saramago…
eduardo luis
-07/05/2010 às 21:32
Dan Brown é aquilo que na minha terra chamam de zé mané.
Carlos
-07/05/2010 às 20:23
Se Dan Brown é bom escritor eu não sei, mas gosto muito de ler seus livros,
Envolvente do início ao fim, não interessa se é ocultismo, besteirol ou etc …
e pelo visto muita genta pensa como eu, já que vende muito, e isso incomoda bastante os
escritores e leitores “intelectuais” .
SILENE
-07/05/2010 às 18:18
Olá! sou,silene.Na minha opinião a escrita ela sempre teve um sentido transformador, desde a pré-história.Quando escrevo busco algo a mais.Se vivemos num mundo complexo, a escrita não pode ser diferente, pois dá um sentido à vida. Ela captura os dramas humanos e sociais.É AÍ QUE AS HISTÓRIAS COMECAM. Bem…err…bem, expressa-os numa obra e os devolve para essa mesma sociedade, que muitas vezes não aceita essa interpretação. O desafio do escritor é descobrir qual é a linguagem certa, no momento certo. Acredito, este escritor citado não ignorau os vários tipos de comunicação.
brasigois Felicio
-07/05/2010 às 18:00
Paul Auster tem razão: sendo tudo o que vemos neste mundo em eterna mudança mero reflexo de nossas débeis portas da percepção, só se pode contar com o imprevisto, habitantes que somos da realidade líquida, em um mar de ilusões.