Teju Cole: camadas de tragédia
Antes da entrevista começar, Teju Cole avisa que não quer ser filmado. O escritor, que conquistou a crítica dos Estados Unidos no ano passado com seu romance de estreia, Cidade Aberta, recém-lançado no Brasil pela Companhia das Letras, e se tornou uma boa aposta nos círculos literários, sabe que falar de seu trabalho é necessário para vendê-lo. Ainda mais quando se está começando. “Eu sou jovem”, diz o autor de 37 anos. “Mas também sou tímido.” Além da vergonha, Cole, que pensa longe, quer impor limites. Sabe que poderá ser assediado de forma crescente nos próximos anos e prefere estabelecer já seu espaço. Se ele pensa em se tornar um Thomas Pynchon, o misterioso autor americano que nunca dá entrevistas e de quem nem mesmo se conhece a cara? “Ah, quem me dera ser tão louco quanto ele”, ri. É assim, com franqueza e também com simpatia, com orgulho de seu trabalho e também com simplicidade, que Teju Cole fala como procurou captar a falta de compaixão humana em Cidade Aberta.
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“Este é um livro sobre o quanto é difícil sentir compaixão. Acredito que todos nós tentamos, de diferentes maneiras, fazer a coisa certa. E por razões psicológicas e de fraqueza pessoa, nós muitas vezes falhamos nessa tentativa e chegamos a ser brutais uns com os outros. Eu gosto de explorar essa imperfeição, porque é assim que as pessoas são de verdade, boas e más, não apenas boas ou apenas más”, conta, fazendo referencia a Julius, o protagonista de Cidade Aberta.
Título que muda de sentido muitas vezes ao longo da leitura, e que já na página 120 é citado para falar da rendição de Bruxelas durante a Segunda Guerra Mundial, Cidade Aberta faz referência a Nova York, cidade que teve no 11 de Setembro a última de suas grandes tragédias. Além da falta de compaixão, o romance fala das camadas de atrocidade que jazem sob a metrópole americana. “O livro foi uma tentativa de falar sobre como nós lidamos com acontecimentos atrozes como esse, enquanto a vida segue, porque a vida segue – as pessoas voltam ao trabalho, comem em restaurantes, fazem balada. A tragédia fica soterrada, e abaixo dela há outras camadas de tragédias também enterradas: escravidão, imigração, o destino dos nativos americanos, coisas dolorosas e de certo modo esquecidas”, diz Cole.
“Pensar nisso faz você olhar para a cidade de uma maneira nova. Não acho que o 11 de Setembro tenha mudado Nova York. Acho que acrescentou uma camada de tragédia à cidade. Acho que meu livro é intenso porque fala de um lugar intenso”, segue Cole, voltando a falar com orgulho e franqueza sobre o seu romance.
Romance que é, ainda, um livro sobre a distância entre as pessoas e as culturas. Todos esses conceitos, a fraqueza ou a ambigüidade humana, a fria relação de uma cidade com seus mortos e a incomunicabilidade são amarrados pelos relatos de Julius, um jovem nigeriano radicado em Nova York, onde faz residência em psiquiatria. Todos os dias depois do trabalho, Julius sai para caminhar pela cidade, e essas caminhadas são relatadas no livro como num diário, com um texto que flui e que leva com ele o leitor. “O caminhar de Julius é um paradoxo. Ele anda para se aproximar da cidade, de sua história. E ele também anda para fugir da própria vida, de suas fraquezas”, comenta Cole.
Filho de mãe alemã e pai africano, Julius não é um alter-ego de Cole, que nasceu nos EUA, de pais africanos, e foi criado na Nigéria. Mas tem pontos em comum com ele, como o gosto pelo escritor marroquino Tahar Ben Jelloun.
Outro escritor de que Cole gosta é o brasileiro Machado de Assis, de quem leu Memórias Póstumas de Brás Cubas. “Um gênio”, disse. Confira abaixo uma seleta de três perguntas para Teju Cole, que recebeu VEJA Meus Livros antes de cair na balada em Paraty, onde participou de uma mesa na Flip ao lado da argentina Paloma Vidal, nesta sexta.
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Você não fala diretamente do 11 de Setembro em Cidade Aberta. Mas a tragédia está lá, sempre presente, quando a história se passa na cidade de Nova York. De que maneira a tragédia afetou a cidade?
É isso mesmo, eu prefiro falar das coisas de maneira indireta. Uma das coisas mais importantes que você pode dizer sobre uma tragédia é o quanto ela é um elemento estranho, uma coisa que cria estranheza. Nova York mergulhou num clima muito esquisito depois do 11 de Setembro. Três mil pessoas morreram, pessoas que você podia conhecer. Eu acho muito difícil falar do 11 de Setembro. Mas Cidade Aberta foi uma tentativa de falar sobre como nós lidamos com acontecimentos atrozes como esse, enquanto a vida segue, porque a vida segue – as pessoas voltam ao trabalho, comem em restaurantes, fazem balada. A tragédia fica soterrada, e abaixo dela há outras camadas de tragédias também enterradas: escravidão, imigração, o destino dos nativos americanos, coisas que são dolorosas de diferentes modos e de certo modo esquecidas. Nova York é uma cidade assentada sobre uma série de atrocidades. Pensar nisso faz você olhar para a cidade de uma maneira nova. Então, não acho que o 11 de Setembro tenha mudado Nova York. Acho que acrescentou uma camada de tragédia à cidade. Acho que meu livro é muito intenso porque fala de um lugar intenso.
Em um trecho de Cidade Aberta, o protagonista, Julio, conhece uma européia que critica a hipocrisia americana. Você concorda com essa personagem?
Os Estados Unidos são um bom país, que me deu cidadania, me permite fazer meu trabalho, me dá liberdade. Mas, sim, é um país bastante hipócrita, especialmente pela cultura do escândalo. Eles adoram falar de liberdade, mas a liberdade que prometeram aos iraquianos representou a morte de milhares deles. Você anda nas ruas de Bagdá e pode ser atingido pela explosão de uma bomba, num mercado local. Isso não é liberdade.
Você votou em Obama? O que está achando do governo dele?
Sim, voltei nele. Sei que Obama não está realizando o governo com que sonhamos, mas acho que está fazendo o melhor que podemos ter agora. Um outro presidente, no lugar dele, teria feito muito pior nos últimos quatro anos. Obama tem levado a agenda da presidência para um sentido positivo. Eu vou votar nele novamente, até porque as alternativas são um desastre. Uns caras do tempo das cavernas.
Maria Carolina Maia
Tags: Cidade Aberta, Companhia das Letras, Flip, Flip 2012, Teju Cole




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