Blogs e Colunistas

08/02/2012

às 19:08 \ Eventos

Jennifer Egan, de ‘A Visita Cruel do Tempo’, vem para a Flip

A autora americana Jennifer Egan confirmou participação na 10ª edição da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre 4 e 8 de julho. A escritora, que vem pela primeira vez ao evento, é vencedora do prêmio Pulitzer de 2011, na categoria de ficção pelo livro A Visita Cruel do Tempo. Publicada em janeiro no Brasil pela Intrínseca, a obra conta a história de personagens em diferentes alturas de vida. O livro será adaptado para a televisão pela HBO.

Jennifer também é autora de The Invisible Circus (1999), adaptado para o cinema e protagonizado pela atriz Cameron Diaz, em 2001. Além de escritora reconhecida, a americana é premiada pelo seu trabalho como jornalista, com trabalhos nas revistas The New Yorker Harper’s Magazine e no jornal The New York Times.

Para a edição deste ano da Flip, com curadoria do jornalista Miguel Conde, já estão confirmados o escritor espanhol Enrique Vila-Matas, o britânico Ian McEwan e o americano Jonathan Franzen, o espanhol Javier Cercas e a cubana Zoé Valdés.

04/02/2012

às 8:57 \ Livros da Semana

Animais estranhos

O que significa, hoje em dia, “literatura experimental”? Depois das vanguardas e dos experimentos radicais do modernismo, como Finnegan’s Wake, de James Joyce, e das principais obras pós-modernistas, como O arco-íris da gravidade, de Thomas Pynchon, sobrou algo para se inventar? Se, por um lado, os conceitos de inovação e originalidade parecem palavras antiquadas, por outro, ainda precisamos de algum termo como “experimental” para definir a estranha ficção praticada pelo prolífico mexicano Mario Bellatin.

Autor de mais de vinte livros (a maioria publicada em um espaço de menos de duas décadas), Bellatin se tornou conhecido do público brasileiro desde sua aparição irreverente na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2009. A Cosac Naify lança agora Cães Heróis (128 páginas, 37 reais), mais uma peça esquisita na bibliografia do mexicano. O livro já chama a atenção pela aparência: trata-se de uma obra sem capa, com os cadernos costurados – um livro mutilado.

Nesta novela – embora até o termo novela pareça excessivo para um texto tão breve, que, se estivesse em uma antologia, poderia muito bem ser considerado um conto longo – Bellatin narra o cotidiano de um homem imóvel e recluso que treina (e comanda) trinta cachorros da raça pastor belga malinois. O inválido mora em uma casa junto com a mãe, a irmã e uma pessoa que atua tanto como enfermeiro do homem imóvel quanto como treinador dos cachorros. Nenhum dos personagens tem nome, e são definidos conforme sua relação com o homem paralisado.

A principal chave de leitura de Cães Heróis está no subtítulo do livro: “Tratado sobre o futuro da América Latina visto através de um homem imóvel e seus trinta pastores belgas malinois”. O homem imóvel possui um mapa do continente latino-americano onde está marcado, em vermelho, os lugares em que a criação de cachorros daquela raça são mais avançados. A partir desse dado, a novela pode ser lida como uma curiosa metáfora para os regimes totalitários. Apesar de sua fraqueza corporal, que se estende até a voz, frágil e quase incompreensível, o homem imóvel tem completo controle sobre os animais. A soberania silenciosa do inválido também é exercida em relação ao resto da família, pois a mãe e a irmã estão presas a um trabalho kafkiano de separação de sacolas plásticas, um afazer que realizam sem sequer saber o propósito de sua ocupação.

A prosa de Bellatin tem uma secura única que se tornou sua marca registrada. Desprovida de qualquer emoção, o autor mexicano narra e descreve cenas como uma câmera estática. O livro, por sua vez, é um compilado de pequenos eventos e descrições. A novela é como uma granada que explodiu em centenas de pedaços, e o leitor necessita juntar os cacos em uma tentativa de reconstrução que está fadada ao fracasso. Este recurso, todavia, foi melhor utilizado em Flores, de 2009, uma obra que parece menos fechada em si mesma. Cães Heróis, por outro lado, é uma novela críptica e hermética. Sua trama pode ser reduzida a uma simples, porém esquisita, metáfora sobre a ditadura. Entretanto, tal reducionismo não dá conta dos mecanismos narrativos que se agitam no texto. Bellatin, como demonstrou no inédito Lecciones a una liebre muerta, é uma máquina de engenhar histórias. Suas tramas se espalham no espaço, abrindo-se para muitas interpretações, implorando para serem descobertas por um leitor com coragem de decifrá-las.

Antônio Xerxenesky

28/01/2012

às 9:04 \ Livros da Semana

Só por precaução

Melhor prevenir do que remediar, pois vai que… Foi pensando assim que o jornalista americano Neil Strauss, 38 anos, começou a se preparar para o pior, pois vai que acontece outro 11 de Setembro ou um novo furacão como o Katrina… Foram mais de três anos experimentando os mais variados tipos de treinamentos até se transformar num sobrevivencialista, alguém precavido para praticamente qualquer tipo de problema natural, econômico ou mesmo político. Strauss aprendeu coisas como fazer uma arma utilizando um cartão de crédito, escapar do porta-malas de um carro mesmo estando algemado lá dentro, matar um animal para comer ou construir um abrigo aquecido com folhagens e galhos para passar a noite, além de ter conseguido, só por precaução, uma segunda cidadania. A ideia era ter um refúgio e também outro passaporte com alguma credibilidade para o caso de precisar fugir. O resultado de tanta obstinação – ou paranoia – está em Emergência – Este Livro Vai Salvar Sua Vida (tradução de Bruno Casotti, BestSeller, 400 páginas, 44,90 reais), um autorretrato que não deixa de ser simbólico para uma nação mergulhada na paranoia desde os ataques terroristas de 2001.

Clique aqui para ver a página 371 e aqui para a 372 do livro.

O leitor não deve esperar encontrar aqui um manual de como agir em situações críticas. O livro é mais um apanhado sobre a cultura sobrevivencialista e a narração de como o próprio autor se transformou num adepto dessa cultura depois dos atentados em Nova York. Os primeiros contatos de Strauss com sobrevicencialistas deu-se na virada do milênio, quando fazia uma reportagem sobre grupos que acreditavam num apocalipse marcado para aquele réveillon. “Fazemos piadas daqueles que mais tememos nos tornar”, repete ele ao longo do livro. Menos de dois anos depois, logo após o 11 de Setembro, ele se viu com um kit que continha desde fósforos à prova d’água a um vaso sanitário de papelão. A corrida ensandecida pela segunda cidadania veio com a reeleição de George W. Bush, em 2004, ao lado do terrorismo outra fonte de medo para boa parte dos americanos. “Senti-me alienado da maioria do país, preocupado com os danos que mais quatro anos do mesmo governo poderiam causar”, descreve ele. Mas foi o furacão Katrina, que devastou Nova Orleans em 2005, que de fato alterou sua rotina. “Foi isso que destruiu o que restava de autoilusão sobre meu país. (…) Eu me senti como no dia em que derrotei meu pai na queda de braço pela primeira vez. Naquele momento, percebi que ele já não podia me proteger. Eu é que tinha que cuidar de mim”.

Strauss é um crítico de música reconhecido – escreve regularmente para a revista Rolling Stone – e é autor de quase uma dezena de livros, entre eles, o best-seller O Jogo – A Bíblia da Sedução (publicado no Brasil em 2008 pela BestSeller), em que conta como passou de nerd a mestre da paquera, e a inenarrável biografia da banda Mötley Crüe (The Dirt ou A Sujeira, em tradução livre). É difícil imaginá-lo dormindo no quintal entre folhas do jardim e tentando encontrar água com um destilador solar. “Eu estava em pânico com a situação do meu país e do mundo. Sentia muito medo quando decidi fazer todos esses treinamentos. Quando terminei, o medo era bem menor”, disse ele a VEJA Meus Livros. “Eu nasci em uma grande cidade e aprendi sobre música e cultura. Mas meu pai não me ensinou as mais básicas habilidades humanas. Eu tive que aprender a ser um homem”, completou. Entre essas habilidades, está a de matar um animal para comer. Uma das partes mais surreais do livro é quando um homem chamado Mad Dog, encarregado de ensinar-lhe a sacrificar um animal, ordena que ele corte o pescoço de uma cabra. “’Não antropomorfize sua presa’, vociferou Mad Dog. ‘Estou tentando não me apegar a ela’, falei. ‘Por isso não lhe dei um nome’. ‘Eu dei’, interrompeu Katie (sua namorada). ‘Batizei-a de Bettie’”.

De modo geral, o livro é interessante por retratar o zeitgeist, “o espírito do tempo” americano, um certo medo que paira no ar desde o 11 de Setembro. “Alguns de meus amigos estão fazendo os mesmos cursos de sobrevivência que fiz. Como a economia piorou por aqui, isso se tornou normal. Tenho amigos que estão até criando galinhas em casa”, contou. Com uma visão um tanto romântica, ele acredita que o movimento Ocupe Wall Street – aquele que no final do ano ganhou projeção mundial, apesar de reunir apenas duas centenas de pessoas numa pequena praça em Nova York – seria o resultado da tomada de consciência pelos americanos de que eles são responsáveis por si próprios. “Os americanos finalmente despertaram para o fato de que eles devem cuidar de si mesmos e estar alertas para qualquer eventualidade. O governo não pode fazer nada. Nenhum governo pode”, disse ele.

Paranoia exaustiva – Strauss não teve medo do ridículo, contou todas as suas angústias e riu de si mesmo ao longo do livro, que está dividido em cinco partes e tem quase setenta pequenos capítulos com títulos bem divertidos, entre os quais Por que Engravidar uma Brasileira Pode Salvar sua vida. Ao contrário do que disse a crítica do New York Times – jornal para o qual Strauss trabalhou alguns anos atrás –, ele é um personagem interessante. Como poderia não conseguir prender a atenção alguém com uma certa dose de maluquice e contradição? Strauss diz amar seu país, mas quer estar preparado se tiver que deixá-lo; mora em Los Angeles, uma das maiores cidades dos Estados Unidos, mas faz cursos para aprender a sobreviver no meio do mato; tem uma casa confortável, mas passa noites no quintal. O livro tem também boas tiradas, pitadas de ironia e bom humor e algumas páginas de quadrinhos bem desenhado. Mas o leitor mais exigente pode se cansar na metade do livro, mesmo com um personagem carismático. São tantos os cursos e as práticas que talvez só um aficionado por sobrevivencialismo aprecie o texto até o final. Strauss aproveita ainda para mostrar que realmente se transformou em um sedutor e conta como sua namorada era “apaixonante, perspicaz e bem-humorada”, além de dar alguns detalhes, digamos, picantes, desnecessários para o contexto.

Quanto ao fato de ensinar truques que poderiam ser usados por alguém que queira burlar a segurança – afinal, “as ferramentas de que precisamos para nos proteger são quase idênticas àquelas que as outras pessoas usam para nos matar” –, Strauss afirmou que não teve problemas com as autoridades americanas. “Cheguei a pensar que a editora poderia parar a impressão do livro por ele conter algumas informações controversas, como dicas para se construir uma bomba. Mas espero que o livro caia nas mãos de pessoas com boas intenções”, disse. Recentemente, Strauss recebeu um artigo que falava sobre alguém pego em um avião portando uma arma feita com um cartão de crédito. Se aprendeu com o livro ou não, ele não sabe, mas alguém poderia tentar descobrir. Só por precaução.

Simone Costa

19/01/2012

às 18:28 \ mercado

Luciana Villas-Boas deixa Record por agência literária

Após 16 anos como diretora editorial da Record, Luciana Villas-Boas deixou o cargo para abrir a Villas-Boas & Moss Agência e Consultoria Literária, nos Estados Unidos. Ela vai mudar de país para se casar com um advogado americano – que também será seu sócio na nova empreitada.  Luciana deve agenciar os autores do Grupo Record no exterior. “Nossos autores são vendidos lá fora como exóticos ou coitadinhos por serem de um país subdesenvolvido. Tenho certeza de que a Luciana será capaz de mudar esse cenário”, diz Sergio Machado, presidente do Grupo Record.

De acordo com ele, ainda não há definição sobre quem irá substituir Luciana na função. Há a possibilidade de que a responsabilidade do cargo seja dividida entre um grupo de profissionais, mas a informação, que circula no mercado, não é confirmada por Machado. “A editora vive um outro momento, bem diferente de quando a Luciana chegou. Sentimos a necessidade de reestruturar para dar mais frescor ao trabalho”, diz Machado.

No ano passado, a Record perdeu os direitos autorais de Carlos Drummond de Andrade para a Companhia das Letras. O episódio teria causado uma crise no grupo, acentuada por outra perda importante ocorrida em 2007, quando a mesma Companhia das Letras arrebatou o baiano Jorge Amado da concorrente.

Oficialmente, o Grupo Record nega que a saída de Luciana esteja relacionada a essas perdas. “A decisão é pessoal”, diz Machado.

Mariana Zylberkhan

18/01/2012

às 22:02 \ Eventos

Enrique Vila-Matas volta à Flip em 2012

O autor espanhol Enrique Vila-Matas confirmou participação na décima edição da Feira Literária de Paraty (Flip), que este ano acontece entre 4 e 8 de julho. É a segunda vez que o autor vem ao evento, do qual foi uma das estrelas em  de 2005 ele participou. Como a festa completa dez anos em 2012, o curador Miguel Conde quis reeditar passagens das edições anteriores. Além de Vila-Matas, está confirmada a vinda do escritor britânico Ian McEwan e do americano Jonathan Franzen.

Neste ano, Vila-Matas irá aproveitar a viagem ao Brasil para lançar o livro Aire Dylan, romance que se desenvolve no Mercado Municipal de São Paulo. O livro sai pela editora Cosac-Naify. Conhecido por abordar a literatura em seus livros e transformar escritores em protagonistas de romance, Vila-Matas, em Aire Dylan, dá voz a um escritor arrependido de tudo que já fez na vida, que decide abandonar o ofício. Até se deparar com um grupo de jovens fundadores de uma sociedade secreta. O encontro inusitado o convence a voltar à escrita.

14/01/2012

às 9:05 \ Livros da Semana

‘Perdição’: em novo romance, contista Luiz Vilela perde força

O escritor mineiro Luiz Vilela

O escritor mineiro Luiz Vilela é conhecido, antes de tudo, por ser um contista especializado em diálogos. A fama de Vilela neste quesito é tão grande que as narrativas breves do autor viraram exemplos obrigatórios em oficinas literárias, quando o professor necessita ensinar os alunos a construir uma conversa entre personagens que soe natural. Não é difícil esquartejar o estilo do autor para descobrir alguns artifícios recorrentes. Apesar disso, o ouvido de Vilela para diálogos é tão assombroso e as falas de seus personagens (sejam eles cultos ou iletrados) soam tão plausíveis que, por mais que seu estilo possa ser imitado, dificilmente se conseguirá criar algo no mesmo nível.

Vilela não é inexperiente no território do romance e, no entanto, este não é seu habitat natural. Contista por natureza, o mineiro sempre se valeu da concisão. De certo modo, todas essas características continuam presentes em sua obra mais recente, Perdição (Record, 400 páginas, 39,90 reais). Embora se trate de uma narrativa longa, ela está dividida em pequenos capítulos, alguns deles contando histórias quase à parte, fechadas em si, como contos, e muitos desses capítulos são conduzidos inteiramente pelos diálogos.

O enredo, narrado por Ramon, um jornalista que trabalha em um pequeno jornal diário de uma cidade do interior de Minas Gerais, gira em torno de Leonardo, pescador e amigo de infância de Ramon. Leo, como é chamado, passa por um período de vacas magras – ou melhor, de peixes magros. Pressente que a pesca não será mais suficiente para a sua subsistência, ainda mais com a chegada da filial de uma grande corporação na cidade, o Disk-Peixe. É então que Leo decide, em uma história para lá de brasileira, aceitar o convite de um grupo de pastores para entrar em uma nova (e gananciosa) igreja que está sendo fundada no Rio de Janeiro pelo enigmático Mister Jones.

A história, que começa deveras interessante, logo afunda no previsível. Como era de se esperar, a entrada na seita não traz a menor alegria ao pescador, e ele é manipulado e corrompido. Por outro lado, acontecimentos marcantes, como o acidente da filha de Leo e a reação dele, são pouco explorados. Os longos diálogos de personagens coadjuvantes sobre suas crendices, no entanto, dominam vários capítulos do romance, e não adicionam muito à trama. Há vários capítulos que poderiam ser, se não cortados, bastante reduzidos, para assim diminuir a aparência “inflada” que o romance de Vilela apresenta.

Há um universo interessante e crível em Perdição, e o autor possui pleno domínio da técnica. Porém, o formato do romance longo talvez não seja ideal para o enredo que Vilela queria contar. Além disso, a fixação do narrador nos “causos” dos habitantes da cidadezinha faz predominar um tom anedótico, como se o livro fosse apenas isso: uma coleção de histórias de pouca relevância entremeada com a trajetória de ascensão e queda de Leo. O resultado final é um livro que vai progressivamente perdendo força, e cujo impacto final é pequeno. Muito distante dos contos breves do autor mineiro que desferiam um poderoso golpe no leitor.

Antônio Xerxenesky

08/01/2012

às 9:07 \ Livros da Semana

Leitura de verão: Otto Lara Resende por ele mesmo

Otto Lara Resende (1922-1992) desmentiu ao longo da vida uma de suas frases mais célebres, a que dizia que os mineiros são solidários apenas no câncer. O Rio É Tão Longe (Companhia das Letras, 416 páginas, 49 reais), livro que reúne cartas suas enviadas ao escritor Fernando Sabino entre 1944 e 1970 é, além de objeto de alto valor literário, uma prova inconteste de afeto e solidariedade intermitentes entre os dois – um nascido em São João Del Rey e o outro, em Belo Horizonte. Bom Dia para Nascer (Companhia das Letras, 456 páginas, 49 reais), uma coletânea de crônicas suas publicadas no jornal Folha de S. Paulo, também mostra a faceta humanista de Lara Resende. Além de seu talento para observador perspicaz do dia a dia do país.

Jornalista e escritor, a quem Nelson Rodrigues recomendou a companhia de um taquígrafo que anotasse suas frases para vendê-las, de tão lapidares e espirituosas, Otto Lara Resende formou com Sabino, Helio Pellegrino e Paulo Mendes Campos uma patota intelectual. “Os quatro cavaleiros do Apocalipse íntimo”, como os chamava Carlos Drummond de Andrade, eram onipresentes na segunda metade do século XX no Brasil.

Mas foi com Sabino, de quem foi amigo por mais de 50 anos, que se deu a relação mais próxima. Os dois até fundaram uma editora, a Do Autor, por onde Lara Resende publicou algumas de suas obras mais conhecidas, como o romance O Braço Direito e o livro de contos e novelas O Retrato na Gaveta.

A dedicação de Lara Resende às cartas e aos amigos era tanta que não raro se exasperava com a lentidão ou a ausência de respostas às suas cartas. “Estou convencido de que sou o último cidadão que ainda se dedica a este gênero obsoleto que é o epistolar”, reclama ele em uma das missivas. Respondidas ou não, as cartas continuavam sendo enviadas. Hoje, elas servem para compor o retrato dos protagonistas de uma época rica para o jornalismo e a literatura brasileira.

Taciturno e sombrio quando escrevia ficção, Lara Resende era bem humorado, à vontade e dado a chistes quando tratava com Sabino. Mesmo vivendo em um momento político delicado, a ditadura militar no Brasil, os dois se dedicam pouco ao assunto nas cartas. Lara Resende, quase nada fala da cultura de Lisboa e Bruxelas, onde foi adido cultural.

Preferia saber do amigo, falar dos aborrecimentos com o trabalho e compartilhar dificuldades na criação dos seus romances e contos. Como não foi capaz de fazê-lo em público, o jornalista se permite um momento de desforra quando, sem economizar palavrões, desanca Wilson Martins, o crítico literário mais respeitado de então, que demoliu seu romance O Braço Direito. Era este o seu lado de dentro.

Para o grande público, o Lara Resende que se apresentava era mais discreto, nem por isso menos divertido. Em crônicas diárias (são 266 em Bom Dia para Nascer), tratava de cotidianidades e debates leves, de literatura (tinha certeza da traição de Capitu a Bentinho, em Dom Casmurro), política, perfis de escritores, o verão carioca e dos amigos que aos poucos partiam. Sempre com frases curtas e exatas, dando a certeza de que Nelson Rodrigues estava certo em lhe recomendar um taquígrafo. Elas, as frases, agora estão à venda.

Rodrigo Levino

10/12/2011

às 8:55 \ Livros da Semana

Sopros de vida

Como em muitas cidades pequenas do interior, em Ventania só se parece ouvir o som do vento, que levanta uma poeira aqui, carrega umas folhas secas ali. Ventania ficou no esquecimento depois que a mina de ouro foi fechada. Até a estação ferroviária foi desativada. Mesmo sem trens, é lá que trabalha Philadelpho, o Delfos, um homem de 47 anos, chefe da estação – ainda que não haja o que chefiar –, que perdeu uma perna num acidente quando havia trens chegando e partindo. Delfos foi mutilado ao se jogar nos trilhos para tirar as pedras que o garoto Zé-elias havia botado ali. Mas isso é passado e ele já se acostumou a viver com uma perna só. O ano é 1961 e ele aproveita o marasmo da estação para escrever porque acredita que, se conseguir se transformar em um escritor, poderá conquistar a mulher que ama. É ele quem conduz o leitor por Ventania, terceiro romance de Alcione Araújo (Record, 322 páginas, 44,90 reais).

Delfos se interessou pela literatura há quatro anos, quando passou a frequentar a biblioteca improvisada que Lorena Krull montou. Ela é filha do engenheiro alemão que descobriu o veio de ouro na cidade. Morava na capital, mas, como o pai ficou doente, deixou os estudos e mudou-se para Ventania para cuidar dele. A biblioteca foi um sonho difícil de concretizar, ninguém queria apoiá-la. Nem o prefeito, que dizia que nunca havia lido um livro na vida — o que não o impediu de ser eleito.

Para Delfos, o gosto pela leitura trouxe a sensação de que a vida recomeçava. “Parti de uma estação sem trens e, sem uma perna, rodei o mundo”, diz ele. Em quatro anos, leu de tudo: Voltaire, Victor Hugo, Flaubert, talvez motivado pela paixão que sentiu por Lorena já na primeira vez em que entrou na biblioteca. É por Lorena que decide escrever. “Vendo-a pela lacuna entre Balzac e Proust, me vem à cabeça que a única chance de eu existir para ela seria eu ser escritor”, reflete ele ao observar a bibliotecária entre os livros de uma estante. Seus textos são motivados por ela. Mas, mais especificamente, são movidos pelo ciúme que ele sente quando garoto Zejosé se aproxima da musa.

Zejosé é irmão de Zé-elias, o menino que causou o acidente de Delfos na linha do trem. Ele é filho de Dasdores, uma mulher que vive enfurnada no quarto dizendo estar sempre doente. O pai, Ataliba, foi funcionário da mina de ouro, mas agora é dono de armazém. Zejosé tem 13 anos e vai muito mal na escola. Vive em más companhias, corre o risco de ser expulso do colégio e seu pai ameaça mandá-lo estudar na capital. A mãe implora para que ele vá à biblioteca de Lorena buscar um livro para ler. Contrariado, ele vai. Da estação, Delfos acompanha a chegada do garoto e seu primeiro encontro meio desastroso com Lorena. Apesar dos tropeços, o menino sai de lá com o primeiro livro que lerá na vida: Os Meninos da Rua Paulo, do escritor húngaro Ferenc Molnár (1878-1952). Não é só a literatura que entra em sua vida. Aos poucos, uma afinidade vai crescendo entre ele e Lorena, apesar da diferença de idade – ela tem 31 anos.

Seguindo os relatos de Delfos, o leitor acompanha o envolvimento dos dois e é apresentado a figuras curiosas que habitam a cidade: o avô de Zejosé, meteorologista, e seu filho Isauro, que preside o partido comunista de Ventania, formado por apenas outros dois integrantes. Também conhece as professoras do único colégio da cidade, as mesmas que querem expulsar Zejosé da instituição. Há ainda a empregada da casa do garoto, cuja filha, Durvalina, quer seduzi-lo a todo custo, e o carteiro Nicolau, que de tão gordo quase não consegue conduzir a bicicleta, mas é o treinador do novo time de futebol de Ventania. Outros personagens perpassam a história, que prende a atenção do leitor, preocupado com o destino de Zejosé.

Alcione Araújo, 66 anos, dramaturgo premiado, cronista, roterista de TV e de cinema, destacou em entrevistas que este é seu livro menos autobiográfico. Se não se inspirou em sua vida, criou em torno daquilo que é seu ofício: a escrita, transformando o livro numa verdadeira metaliteratura. São várias as citações de autores e os trechos de livros, sem falar na presença de um narrador que é um escritor diletante a quem o leitor acompanha como se realmente lesse as anotações de alguém, com direito a notas de rodapé. O livro apresenta um enredo contínuo, não dividido em capítulos. Soa realmente como se fosse o diário de Delfos. As notas de rodapé reforçam a ideia de que são anotações de alguém. Às vezes, são muitas em uma mesma página, o que torna a leitura cansativa, mas elas são importantes para lembrar que é Delfos quem está narrando, aproximando-o do leitor.

A cidade de Ventania é fictícia – não se trata do município com o mesmo nome no Paraná, nem a cidade de Alpinópolis, no sudoeste de Minas, que é chamada pelos moradores de Ventania. Mineiro radicado no Rio de Janeiro, Araújo construiu uma cidade que poderia estar em qualquer parte do centro-sul do país. Apesar de o livro afirmar que Ventania está próxima a Matipó, um município mineiro, não é possível identificar Minas na interação e nos diálogos entre os personagens, como acontece, por exemplo, com os textos de Adélia Prado, outra autora mineira contemporânea, que esboça em simples palavras a sonoridade do interior do estado. Mas, mesmo sem saber ao certo onde são essas paragens, o leitor pode ser seduzido pela história.

O que por vezes incomoda na leitura de Ventania, o livro, são os diálogos. Muitos não parecem naturais e estão recheados de lugares-comuns e provérbios, como “Deus não deu asa à cobra”, “Quando o gato sai, os ratos fazem a festa”, “Só tem pássaro na mão, e nenhum voando”, “Devo, não nego, pago quando puder”. Pode ser apenas um artifício do autor para caracterizar Delfos, já que o texto representa os seus primeiros rabiscos. Mas é possível encontrar belos trechos, como quando Lorena reflete sobre a sua vida, amarrada à doença do pai. “Embora não admita nem para si, a situação a incomoda. Vão-se os anos, e sua vida segue estacionada, à mercê da vida do pai, também estacionada. Como se fossem vegetais – ideia forasteira, que repele com força, mas que insiste por ser sua!” Ou ainda quando Lorena e Zejozé, depois de boas gargalhadas, retornam ao que estavam fazendo. “Sem a aura do desejo, volta a objetividade prosaica, como luz que acende no cinema ao romper a fita.”

Alcione Araújo já chegou a dizer que Ventania é um livro sobre o gosto pela leitura, mas que é, principalmente, uma história de pessoas que superaram dificuldades. O roteiro soa um pouco ingênuo, às vezes a autotransformação dos personagens acontece de forma brusca, mas é perfeito para quem gosta de finais felizes. A principal mudança ocorre com Zejozé, que é o personagem central e, com as devidas diferenças, faz lembrar Varguitas, criação semibiográfica do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa em Tia Julia e o Escrevinhador. Nesse livro de 1977, Varguitas, 18 anos, se apaixona por Julia, catorze anos mais velha e irmã da mulher de seu tio. Assim como Marito, Zejosé vai amadurecer com a ajuda de uma mulher. Se a princípio o leitor se incomoda não com a diferença de idade entre eles, mas com o fato de Zejosé ter apenas 13 anos, aos poucos chega à conclusão de que idade pode não ser assim tão importante.

Simone Costa

05/12/2011

às 11:25 \ mercado

Britânica Penguin compra 45% da Companhia das Letras

John Makinson, presidente mundial da Penguin, e Luiz Schwarcz, diretor da Companhia das Letras

Foi um namoro longo, mas enfim deu em casamento. A Penguin, editora britânica que pertence ao grupo Pearson, um gigante da área de educação, é agora dona de 45% da Companhia das Letras. Com a operação, um passo avançado em relação à parceria firmada pelas duas editoras para a edição de clássicos em setembro de 2009, a Companhia das Letras deve ampliar seus investimentos em digitalização de livros, com know-how da Penguin, e na área educacional, o forte da Pearson. Também se espera um número maior de traduções de brasileiros no exterior, embora esta não seja uma condição do contrato. A Penguin está presente em mais de dez países.

“Já temos posição na China e na Índia, só faltava o Brasil”, disse John Makinson, presidente mundial da Penguin, elencando mercados emergentes aos jornalistas reunidos pela Companhia das Letras em São Paulo, na manhã desta segunda-feira, para o anúncio da operação. “Na minha opinião, o Brasil é um dos mercados mais interessantes e modernos hoje. Acho que podemos aprender com o país a aproveitar oportunidades. Vamos também ajudar a Companhia das Letras a migrar para a área digital.”

Com as mudanças, acionistas menores deixaram de possuir participação na editora e, além de uma compensação financeira equivalente às ações que detinham, passam a figurar como executivos da nova empresa. Embora sigam, de modo geral, com as mesmas funções de antes. É o caso da editora Maria Emília Bender, que era sócia, com um pequeno número de ações, e agora será diretora operacional da área editorial da nova Companhia das Letras.

O fundador e diretor da editora, Luiz Schwarcz, e sua mulher, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, continuam com o mesmo percentual acionário que detinham antes, por volta de 38% da Companhia das Letras. O restante deve ficar com Fernando Moreira Salles, que segue sócio. A família Moreira Salles dividirá com a família  Schwarcz a holding a ser criada para a junção com a Penguin, ainda sem nome. Juntas, elas terão 55% — e o controle da editora. Os valores da operação não foram divulgados.

Uma vez por ano, um conselho formado por Luiz, Lilia, Fernando Moreira Salles e John Makinson, além do diretor-executivo financeiro mundial da Penguin, Coram Williams, se reunirá para discutir os rumos da empresa. Que, a princípio, segue se chamando Companhia das Letras.

Namoro longo – De acordo com o fundador e diretor da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, a proposta de casamento foi feita pela Penguin na Flip de 2010. Mas só em janeiro deste ano ele passou a considerar seriamente a junção. ”Nós já havíamos recebido diversas propostas de editoras estrangeiras, mas desta vez balançamos mesmo”, contou, após a coletiva, fazendo referência às investidas da Alfaguara e da Leya.

Entre os pontos que fizeram Schwarcz balançar, estava a possibilidade de negócios na área educacional, que surgirá com a junção. Negócios que extrapolam os livros. Segundo a antropóloga Lilia Schwarcz, que será responsável pela área educacional da nova Companhia das Letras, a editora deve produzir, por exemplo, cursos digitais. “No futuro, poderemos vender e-books e cursos digitais juntos.”

Criada em 1935 na Inglaterra, a Penguin pertence desde 1970 ao grupo Pearson, presente em mais de sessenta países com iniciativas como a Biblioteca Virtual Universitária, que oferece acesso a livros e estudos a 2 milhões de estudantes. No Brasil, onde desembarca agora, deve passar a contar com títulos da Companhia das Letras, entre ensaios e literatura. A Pearson também tem know-how em imprensa: é dona do jornal Financial Times e detém 50% da revista The Economist.

Desde o início da parceria entre Companhia das Letras e Penguin para a edição de livros clássicos, há pouco mais de dois anos, foram lançados no país 34 títulos, que tiveram juntos 80.000 exemplares vendidos. Lá fora, a Penguin lançou uma edição de Os Sertões, de Euclides da Cunha, e se prepara para lançar a obra de Jorge Amado, cujo centenário de nascimento é comemorado em 2012. Sozinha, a Companhia das Letras, que em 2011 completa 25 anos, contabiliza 3.500 títulos lançados, num total de 1.500 autores e 53 milhões de exemplares comercializados.

Maria Carolina Maia

04/12/2011

às 8:26 \ Livros da Semana, Quadrinhos

Corpos estranhos

Já faz muitos anos que os quadrinhos deixaram de ser território exclusivo de super-heróis e charges humorísticas. Com a popularização das chamadas graphic novels, as livrarias foram invadidas por volumosos livros em quadrinhos com tramas mais realistas e traços diferenciados – até mesmo experimentais. No Brasil, o fenômeno das graphic novels emplacou, de fato, há pouco tempo, com o surgimento de novos selos e editoras especializadas no gênero. É o caso da Quadrinhos na Cia. e da Barba Negra, selo da Leya que lança agora Lucille (544 páginas, 54,90 reais), quadrinho premiado do francês Ludovic Debeurme.

Debeurme, artista nascido em 1971, compõe em Lucille a trama de dois adolescentes desconfortáveis com sua vida solitária. Lucille e Arthur são jovens alienados da própria família, incapazes de manter um contato sincero com qualquer outro ser humano. Lucille sofre com um caso extremo de anorexia, enquanto Arthur precisa lidar com um pai alcóolatra e uma mãe relapsa. Um acidente trágico na vida de Arthur apenas piorará suas relações familiares.

Desde o início, fica claro que o enredo de Debeurme se inscreve naquilo que se costuma chamar de quadrinhos indies – rótulo que não mais se refere apenas a “independente” (o que assinalaria um meio de produção e publicação sem vínculos com grandes grupos editoriais), mas também a uma ligação com certa cultura alternativa. As famílias disfuncionais retratadas por Debeurme poderiam muito bem estar, por exemplo, em um filme de Todd Solondz, o cineasta responsável pelo tragicômico Felicidade. Nesse sentido, Lucille lembra muito outras graphic novels recentes, como Umbigo sem Fundo, de Dash Shaw, e Fun Home, de Alison Bechdel.

Mas o que, afinal, Lucille traz de novo e diferente para o gênero? Em primeiro lugar, o traço de Debeurme, com seus desenhos absurdamente simples, quase mínimos. Debeurme evita ao máximo criar cenários. Suas imagens estão destacadas do contexto, e parecem compostas de vários rabiscos curtos de caneta. As nuvens, por exemplo, são meros riscos horizontais, os mesmo riscos que são usados para representar ondas no mar e um assoalho de madeira. Em segundo lugar, há um completo abandono do lado “fofinho” da cultura dita indie. Os personagens não são figuras estranhas, mas simpáticas e legais como aqueles interpretados por Michael Cera em dezenas de filmes independentes, como Juno. Não, não há nada romântico na anorexia de Lucille ou na relação pai-filho abusiva da vida de Arthur.

Porém, Debeurme comete alguns deslizes em outros aspectos. Em uma das cenas, uma personagem encontra, acidentalmente, os pais fazendo sexo. Esse tipo de trauma freudiano usado para explicar a vida de uma personagem foi tão usado na ficção que já se tornou um clichê. O mesmo vale para algumas sequências de sonho – uma maneira banal de revelar o universo interno das pessoas. Por último, há uma mudança brusca no ritmo da narrativa nos capítulos finais, quando dezenas de eventos acontecem de forma apressada, diminuindo, assim, o impacto que poderiam ter no leitor se fossem melhores explorados.

Prós e contras somados, Lucille ainda é um exemplar interessante de graphic novel contemporânea. Pode-se arriscar dizer que os novos quadrinistas franceses, como Debeurme e Cyril Pedrosa, possuem uma sensibilidade muito peculiar, que alia crueza e lirismo. Esta mescla está claramente representada no mais recorrente símbolo em Lucille: seres humanos em corpos de abelhas, pessoas tão alheias do mundo que se consideram estrangeiras para si mesmas.

Antônio Xerxenesky


 

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