J. R. Guzzo: O delito de ser livre

Na ofensiva contra a liberdade, fica cada vez mais difícil viver nos termos da Constituição, segundo a qual todo brasileiro, respeitada a lei, tem o direito de se conduzir como prefere

PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA DE VEJA

Não está fácil para ninguém, hoje em dia, cuidar da própria vida com um pouco de paz. É uma expectativa modesta, no fundo, quando se entende que esse sossego significa apenas poder contar com uma ou outra garantia básica. Trata-se de não ter em volta de si, cada vez mais, todo um sistema decidindo o que é melhor para você, e isso para “o seu próprio bem” — e que determina, também, o que é preciso pensar, dizer ou fazer diante de praticamente tudo. Seria um alívio, igualmente, viver em um mundo onde as coisas não estivessem divididas, como vai se tornando regra, apenas entre as obrigatórias e as proibidas. Ou, enfim, onde fosse possível a cada um simplesmente pensar e agir segundo a própria cabeça. Deveria valer, em todos esses casos, a Constituição em vigor, que dá a qualquer brasileiro o direito de se conduzir como prefere, bastando para tal respeitar o que diz a lei. Mas o fato é que o dia a dia do cidadão não está sendo assim. Existe hoje uma guerra não declarada, presente no debate político, nos meios de comunicação e até nos currículos escolares, contra quem quer se comportar de maneira independente — e o que está em jogo, aí, é a liberdade.

“Parece que odiamos viver em liberdade”, escreveu tempos atrás o sociólogo Bolívar Lamounier. Parece mesmo. A história começa com a pressão, cada dia maior, em favor da “intermediação do Estado” no máximo possível de aspectos da existência humana. De acordo com essa visão do universo, qualquer coisa, para ser lícita, tem de ter a permissão, a gerência ou o reconhecimento de algum tipo de autoridade pública, ou mesmo privada. É como se a sociedade tivesse a obrigação de aceitar que o governo tome a maioria das decisões para cada um de nós, da tomada elétrica de três pinos ao que os alunos devem aprender nas aulas de geografia. Funciona como uma espécie de mandamento religioso, sem a aplicação do qual nada pode ser bom, legítimo ou permitido por lei. Na verdade, quando se ouvem as pregações mais rigorosas sobre o assunto, certas coisas nem deveriam existir, já que não são oficialmente “reconhecidas” pelo poder público. O ângulo reto, por exemplo, não tem existência legal no Brasil; não está regulamentado por lei e, portanto, não existe. Para muita gente boa, é mais ou menos por aí o caminho certo.

Vivemos um tempo no qual se pretende negar ao cidadão que não utiliza o transporte público o direito de escolher o tipo de carro que quer pagar, com o próprio dinheiro, para ir de um lugar a outro; tem de ser táxi, que é supervisionado pela prefeitura, e, portanto, é o único meio legal. É tido como grave delito social defender o livre acordo entre patrões e empregados a respeito de salários e outras questões; as partes, até quando querem exatamente a mesma coisa, não podem se entender “à margem da lei”. Um jornalista só poderá ser um jornalista se o Estado disser que ele é jornalista; sem isso, estará exercendo ilegalmente a profissão. É proibido vender um quilo de linguiça caseira sem licença do SIF. A liberdade de empreender, que se imaginava algo positivo, é vista como uma “teologia” que conduz ao “fascismo”.

A liberdade de prosperar, nessa mesma toada, recebe frequentes sentenças de condenação — ela levaria o indivíduo a trabalhar para ganhar mais dinheiro que os outros, e isso vai contra suas obrigações de colaborar para a construção de uma sociedade igualitária. As classes intelectuais em geral e as organizações sindicais em particular combatem abertamente a remuneração pelo talento, pelo mérito e pelo esforço individual, por acharem que essa modalidade de incentivo produz concentração de renda e desigualdade.

Este é um clima em que não é bom identificar-se como indivíduo. Nos tempos atuais, segundo o evangelho pregado mundo afora, é preciso ser “representativo” de alguma coisa: um grupo, uma classe social, um conjunto de posturas, um sistema de pontos de vista, de crenças ou de costumes, e por aí vai. Você não é você — é representante de algum tipo de “coletivo”. Também se trata de uma atmosfera em que é péssimo discordar. Considere-se a palavra “fascista”, por exemplo, usada a cada cinco minutos nos debates de hoje no Brasil: para se adequar à sua utilização corrente, deveria mudar de significado nos dicionários oficialmente aceitos. Atualmente quer dizer: “alguém que não concorda com você”, ou “algo de que você não gosta” — caso, naturalmente, você faça parte dessa nebulosa chamada “esquerda”, ou se considere alguém “moderno”. O mesmo acontece com “preconceito” — passou a ser qualquer posição diferente da sua. Em suma: é proibido acreditar naquilo que a pessoa acredita. É como se a humanidade estivesse de volta ao tempo da encíclica Mirari Vos, menos de 200 anos atrás, na qual se dizia que a liberdade de consciência era um “erro corrupto”, além da “maior e mais poderosa peste do mundo moderno”.

A origem mais aproximada disso tudo, para quem não é atraído por complicações, talvez seja simplesmente o seguinte: falta do que fazer. Num mundo cada vez mais carente de causas que valham realmente esse nome, passam a ser causas a criação de porcos orgânicos, a ampliação das terras indígenas ou a “identidade de gêneros”. (Ao que parece, é “fascista” alguém achar que tem direito a se identificar apenas como homem ou mulher.) Há, por cima de tudo, um vago incômodo contra a “injustiça social”, e desejos moles de acabar com o capitalismo — que, na falta de outra coisa, é identificado como a causa das injustiças e da desigualdade. Em vez dele, propõe-se a “intermediação do Estado” para resolver tudo o que está errado.

O problema é que os promotores dessas sensações (não chegam a ser crenças, nem mesmo opiniões) vivem invariavelmente no ambiente de abundância que o capitalismo criou pelo mundo afora — e só existem por causa dela. Tudo o que o homem produz vai ficando mais barato; cada vez mais gente tem acesso a mais coisas. Cinquenta anos atrás era preciso ser rico para ter um carro, ou entrar num restaurante. Hoje essas coisas estão disponíveis para milhões. Vive-se, em suma, em um mundo de sobras — um facilitador decisivo para quem quer se lamentar. A escassez leva ao trabalho. A sobra leva ao ócio — e uma das consequências diretas do ócio é a soma de despeito e inconformismo contra o sistema de liberdade econômica, que ganhou e ganha cada vez mais. É um contrassenso: na vida real o capitalismo é a única forma de organização social que dá chances aos pobres e cria a maior igualdade que dizem defender. O fato é que não existe nenhum caso de melhora de renda ou de bem-estar dos pobres em sistemas em que não há liberdade econômica. Mais: os pobres jamais avançam quando a economia capitalista passa momentos de dificuldade; só melhoram quando há crescimento, investimento privado e lucro. A ofensiva contra a liberdade nos leva de volta à teoria da Terra plana — a épocas da história que morreram e não podem mais voltar.

 

Comentários
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  1. Comentado por:

    Claudio Martins

    Boa tarde.
    Realmente o texto está primoroso pois escancara a situação patética na qual nos encontramos como sociedade organizada. Existem diversas ocasiões em que se pode começar de novo, mas essa não é uma delas pois a semente plantada a décadas atrás quando surgiu uma certa liderança sindical no Brasil, parece estar mais fundo do que se pode supor. Nossa sociedade parece estar caminhando a passos largos para uma bifurcação de escolhas. Bem ou mal.

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  2. Comentado por:

    JRG

    O COMENTÁRIO DO GUZZO VALE POR UM ARTIGO DE DUAS PÁGINAS, AMIGOS. AN
    Prezado RENATO RASIKO
    Muito obrigado por seu interesse no texto aqui comentado, e por suas considerações a respeito, todas elas pertinentes, articuladas, apoiadas na razão e iluminadas pela inteligência. Estou em perfeita concordância, basicamente, com cada um dos pontos levantados por você — creio, apenas, que num assunto como esse há mundo de coisas a considerar, que são diversas entre si mas não se excluem mutuamente. É a velha história: escrever sobre liberdade e capitalismo (como o ambiente da vida real em que a liberdade se desenvolve) é areia demais para o modesto caminhão de uma página de revista. O que fica de fora, obrigatoriamente, sempre acaba sendo mais do que aquilo que ficou dentro. Neste momento, e neste artigo específico, o que está escrito ali me pareceu razoável — não mais do que isso. Enfim, para responder à pergunta feita no final do seu comentário: não, definitivamente não concordo que a busca obsessiva de bens materiais deva ser uma prioridade na vida de um indivíduo, ou das sociedades. Na verdade, acho que isso não chega nem mesmo a ser algo de fato importante. Um abraço e, mais uma vez, meus agradecimentos.

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  3. Comentado por:

    Octávio

    Caro Guzzo, o que resta aos brasileiros de bem é constatar essas coisas e chupar o dedo. É isso. É um projeto de país que não deu certo e pronto. O Brasil não sairá disso nunca, a não ser que venhamos a ser varridos do mapa por tsunamis, terremotos e epidemias, tudo junto e misturado. Sobrará, pelo menos, um bom terreno.

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  4. Comentado por:

    Deia

    Resumo: a hipocrisia da ditadura do politicamente correto já encheu …

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  5. Comentado por:

    Gil

    Texto excelente e sempre lúcido como são os textos de J. R. Guzzo. Estamos realmente presenciando uma ofensiva contra a liberdade, e não podemos deixar-nos abater.

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  6. Comentado por:

    rosemary

    meu comentário não foi publicado.
    Renovo então a minha admiração por um texto que tão magnifica e definitivamente expressa o sentimento das pessoas
    pensantes que ainda restam no país.
    Não deixei de publicar nenhum comentário teu, Rosemary. Abraços

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  7. Comentado por:

    Valentina de Botas

    Augusto, gostaria de comentar as instigantes afirmações do leitor Renato Rasiko e a preciosa resposta do Guzzo. Renato, você afirma que “o capitalismo simplesmente ignora o ser humano e suas necessidades essenciais que não são o carro novo, a casa própria, o cheque especial, o cartão de crédito, as compras no shopping e as férias em Miami”. É verdade, mas o capitalismo não é um ideário que pretendeu substituir “a evolução da consciência e o alimento do espírito”. A maior autoridade em capitalismo, Adam Smith, afirmou que um padeiro fará o melhor pão que puder e tentará superar o concorrente – isso é mercado, que não se confunde com capitalismo – não por ser um sujeito legal em busca da evolução da consciência, mas porque fazer pão é o modo de o padeiro ganhar a vida e, quanto maior a concorrência ou exigente a clientela, mais ele se empenhará. Contudo, esse pragmatismo essencial não obriga nosso padeiro a fazer pães sem buscar a evolução da consciência e o alimento do espírito. Tal dinâmica não determina que o padeiro pratique seu ofício sem amor no coração nem sabote o bem-estar dele, da família e da comunidade de que participa. Fazer pães dentro das recomendações sanitárias, cobrando por um preço que garanta o lucro e que seja acessível, pagando todos os impostos e remunerando decentemente os funcionários constituem a porção, digamos, “humana” do capitalismo. A não humana é… qual? Nenhuma. Tudo é humano. E satisfazer as necessidades de sobrevivência material responde ao pó que somos. Logo, o que aprisiona o ser humano à matéria não é o capitalismo nem o mercado, pois a miséria espiritual nossa e a consciência restrita já foram testemunhadas por Jesus e Buda (para usar os modelos que você citou) entre os seres humanos de então, tudo muito antes do capitalismo e do “mercado manipulador”. A cobiça e o consumismo são pré-capitalistas: nasceram no coração do homem. Há, hoje, formas incontáveis para a busca que, concordo, é essencial na nossa existência atormentada por necessidades básicas de sobrevivência e dúvidas metafísicas que talvez jamais sejam respondidas: desde a sua área de atuação profissional, Renato, passando por religiões e filosofias, até sistemas esotéricos e mais um monte de coisas, existe um “mercado” com ofertas que prometem colocar o “consumidor” no caminho do “essencial”. Desculpe o excesso de aspas, mas tento destacar apenas que, até nessas e para essas dimensões da vida, há um mercado e, que nos limites da honestidade, isso é mais do que bom – é imprescindível. O mesmo se aplica ao “outro” mercado. E o mercado, Renato – seja aquele que oferece o pão nosso de cada dia para o corpo, seja o que oferece o pão espiritual ou a evolução das consciências para o bem-estar do homem – só se realiza no ambiente da liberdade pactuada entre direitos e deveres (a liberdade possível); esse ambiente só se mostrou possível numa economia de mercado; e esta só vigora no capitalismo. Para que tal arranjo civilizador funcione (e creio que é também a essa ideia de liberdade que o artigo do Guzzo alude) de modo a permitir que as pessoas trabalhem e, então, alimentem-se física e espiritualmente, as políticas públicas não têm de forma alguma que se ocupar com a evolução da consciência de ninguém, mas com a garantia de que o mercado se guie por uma legislação justa sem engessá-lo no cumprimento de sua única e suficiente razão de existir: produzir pães.

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  8. Comentado por:

    Filho

    Como cristão evangélico(ainda tenho o direito de ser, por enquanto), eu poderia até discordar do artigo de Guzzo, pelo menos em alguns pontos, mas devo entender que ele não tem de pensar inteiramente como eu; por isto somos indivíduos, além do fato notório de que erros, não poucos, foram cometidos em nome da fé; ele cita alguns. Seu texto é lúcido, corajoso e transparente. Vivemos uma situação, no mínimo, curiosa. Alcançamos a liberdade democrática, mas estamos sendo presos por ela. “Presos pela liberdade”, isto é que estamos sendo, cada vez mais. Aí dirão que sou contra a democracia, etc. Não, respondo. Mas vejo que, hoje, cresce o “não pode” na nossa sociedade democrática. Não posso defender a família tradicional. Segundo um ministro do STF, esse tipo de família visa a reprodução da espécie, o outro tipo, visa o afeto. Então querem me dizer que minha família, tradicional, não tem afeto, somos dois porquinhos gerando leitõezinhos, filhos e netos. Sou casado há 44 anos. Nesse tempo, minha reprodução encheria uma fazenda, e precisaria de mais. Não posso entrar num shopping, pelo menos aqui, no Rio, com meu bonezinho, é proibido por lei estadual. De bonezinho, tenho cara de bandido, preciso provar o contrário. Não posso fazer uso do meu celular numa agência bancária, posso ser um bandido. Na entrada, naquela porta eletrônica, que faz suspeitos todos os que esquecem uma chave, ou uma simples moeda no bolso, posso ser constrangido a tirar tudo da bolsa e do bolso, na frente de todos, até provar a “inocência” dos meus objetos, sem a deles, a minha não vale. Não posso dar uma palmada no bumbum do meu filho, o senhor Lula proibiu, e o congresso democrático aprovou. E, na liberdade democrática da discussão da matéria dessa lei, o grande motivo, que emocionou os parlamentares, foi a história do menino Bernardo, no Rio Grande. Acho que imaginaram que, se eu der uma palmada no meu filho, o caminho seguinte, muito provável, invariável, é que vou matá-lo com uma injeção letal. Pra terminar, vejam que coisa interessante. Faz um tempo, ligamos da nossa igreja para a Comlurb, pedindo um serviço público de desratização na área do nosso templo. Eles fazem isto normalmente. Veio a pergunta do atendente: que igreja é. Dissemos que somos uma igreja evangélica. E a pronta resposta, cheia de igualdade: Pra igreja evangélica a gente não faz. E desligaram o telefone na nossa cara. Acho que nos confundiram com ratos. Com crença religiosa, ou não, verdade é que estamos caminhando, e a passos largos, para um controle mundial da cidadania. Não somos mais donos de nós mesmos, e cada vez menos.

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