Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Deonísio da Silva: O beijo de Judas

Nem mesmo Leonardo Da Vinci poupou o traídor, que representou o falso amigo agarrado ao caixa e ainda derrubando o saleiro sobre a mesa da Última Ceia

(Reprodução/Reprodução)

Um beijo passou a designar a traição desde que os apóstolos tomaram o companheiro, caixa da campanha de Jesus, como bode expiatório.

Carlos Vereza, um dos mais notáveis e criativos atores brasileiros, acaba de estrear Iscariotes: A outra Face, tomando como referência solar de seu já memorável monólogo, não o beijo de Judas, nem o Judas que passou da Religião à História, mas um Judas de todo original, que relembra o vento nas oliveiras a embalar seus mais antigos sonos de menino que queria adormecer.

Seu personagem emblemático deu muito o que sentir e pensar à plateia que lotou o Teatro Pedro II, em Petrópolis, na serra fluminense, para a estreia nacional, no passado 21 de abril.

Nos terríveis eventos que teve Judas como personagem decisivo, a Última Ceia dá expressão a cada um dos treze e este número reforçou a mística de número do azar, que judeus tinham trazido das crendices da Babilônia, uma vez que o Código de Hamurábi, no século XVII a.C.,  já pulava do artigo 12 para 14.

Todos os apóstolos falharam, a partir de Pedro, aquele que seria o primeiro Papa, que antes que o galo cantasse  negou o líder por três vezes na noite da prisão, na quinta-feira, depois que o candidato tinha sido aclamado rei no domingo anterior, o de ramos.

Desde então, ninguém poupou o traidor, nem mesmo Leonardo Da Vinci, que representou o falso amigo agarrado ao caixa e ainda derrubando o saleiro sobre a mesa da Última Ceia.

Assim, os símbolos da traição e do azar percorreram os séculos, até que em 2006 descobriu-se uma cópia do Evangelho de Judas, escrito em copta e logo transformado em estrela dos apócrifos.

É esta a versão abraçada por Carlos Vereza, não apenas como ator, mas também como autor do texto. Ele deslumbra os espectadores com um desempenho formidável, entre terno, arrebatador e trágico, preconizando, como fez questão de acrescentar depois da peça, que não quer fazer proselitismo nenhum, apenas dar a voz a Judas, a outro Judas, àquele Judas que pode ter sido o grande parceiro de Jesus na História da Salvação, pois que se dispôs a cumprir papel indispensável, que nenhum outro ser humano teve coragem de assumir.

Exegetas da Bíblia e da História já lidavam com a hipótese de que Judas tinha sido traído, ele nunca fora o traidor, daí seu desespero ao ver naufragar o projeto da tomada de poder.

Ao enforcar-se, abrindo o ventre sobre pedras quando se fez despencar do galho de uma árvore, Judas acrescentou um outro emblema à sua imagem de traidor, que é o de suicida.

Em nenhum momento no palco, Vereza faz qualquer vinculação explícita ao tema que toma conta do Brasil nos dias de hoje, mas, excelente ator que é, faz com que espectadores de todas as ideologias sintam e pensem sobre questões fundamentais.

A traição é uma delas. Com traições verdadeiras ou falsas, os delatores estão revelando ao distinto público que Judas pode não estar onde sempre esteve. E também pode ser que o descobrimento de quem seja o verdadeiro Judas demore muito mais tempo. O do Judas que dá étimo e mote a todos os significados pejorativos levou quase 2.000 anos, pois sua versão somente foi descoberta em 2006.

Confira aqui outros textos de Deonísio da Silva

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  1. Marly Camargo

    Judas nunca foi esse revolucionário que muitos historiadores tentam fazer crer.Assim como o Judas brasileiro nunca foi de esquerda.Judas Iscariotes-e os evangelhoes deixam muito claro-sempre foi um materialista de marca maior.O seu objetivo era grana e poder,assim como o judas brasileiro.Agora,arrependeu-se a ponto de cometer o suicídio.E isto, certamente, Deus deve ter levado em consideração.Creio firmemente que foi perdoado.

    Curtir

  2. Sonia Fausta Tavares Monteiro

    Depois de Judas Iscariotis, que teria traído Jesus por 30 moedas de prata , temos notícias de várias outras versões do traidor, sendo que os modernos Judas não se contentam com tão pouco; são bem mais gananciosos, e não fazem por menos do que milhões e até bilhões de reais , dólares, ou euros. Segundo a História, Judas teria se arrependido pelo que fez, e acabou por suicidar-se. Quanto às novas versões que temos por aqui, não é preciso tanto; basta que sejam devidamente punidos, e devolvam aos cofres públicos o que receberam pela traição ao próprio país!

    Curtir

  3. O JUDAS do GETISEMANI, é fichinha perante o JUDAS BRASILEIRO..

    Curtir