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YouTube é denunciado por coletar dados de crianças com fins comerciais

A denúncia foi feita por 23 grupos de defesa dos direitos das crianças à Comissão Federal de Comércio, nos Estados Unidos

Um grupo de organizações de defesa das crianças apresentou nesta segunda-feira, 9, às autoridades dos Estados Unidos uma denúncia que exige que o Google seja punido pela coleta ilegal, com fins comerciais, de dados pessoais de crianças através do site YouTube.

A coalizão, formada por 23 grupos de defesa dos direitos das crianças, denunciou à Comissão Federal de Comércio (FTC, na sigla em inglês) que o Google recolhe informações pessoais de menores de 13 anos — incluindo a localização, identificadores de dispositivo e números de telefone — e os rastreia sem consentimento.

“O Google, proprietário do YouTube, obtém lucros consideráveis recolhendo informações pessoais de crianças que usam o YouTube (…) para seguir a pista do usuário ao longo do tempo”, escreveram os denunciantes na queixa formal, à qual a Agência Efe teve acesso.

O diretor-executivo do Centro para a Democracia Digital (CDD), Jeff Chester, que faz parte da coalizão, acusou o Google de coletar essas informações “sem primeiro proporcionar um aviso direto aos pais e obter seu consentimento”, tal como estabelece a Lei de Proteção da Privacidade Online para Crianças (Coppa, na sigla em inglês).

A demanda alega que o YouTube, utilizado nos EUA por cerca de 80% das crianças com entre 6 e 12 anos, segundo estudos recentes, usa esses dados para dirigir os anúncios aos menores através de sua plataforma e assim obter rendimentos econômicos.

“Está na hora de a Comissão Federal de Comércio responsabilizar o Google por sua coleta ilegal de dados e práticas propagandistas”, disse Chester no documento.

O motor de busca mais famoso da internet se defendeu das acusações alegando que a plataforma YouTube é somente para maiores de 13 anos, uma justificativa que os denunciantes não veem com bons olhos. “Durante anos, o Google renunciou à sua responsabilidade para com as crianças e as famílias ao afirmar que o YouTube, um site infestado de desenhos animados populares, canções e rimas infantis, não é para menores de 13 anos”, diz a denúncia.

De fato, o Google tem um aplicativo dedicado exclusivamente às crianças chamado YouTube Kids, que foi lançado em 2015 e desenvolvido para exibir conteúdo e anúncios apropriados às crianças. “Assim como o Facebook, o Google concentrou seus enormes recursos para gerar lucros ao invés de proteger a privacidade”, denunciou Chester na nota divulgada através de seu site.

A demanda apresentada à FTC, de 59 páginas, indica que o YouTube “tem conhecimento real de que muitas crianças estão em sua rede, como comprovam as declarações públicas de seus executivos e a criação do aplicativo YouTube Kids“, entre outras.

“O Google tem a responsabilidade de cumprir com a Coppa e garantir que as crianças possam ver de forma segura os programas desenhados e promovidos para elas. Essas práticas apresentam sérias preocupações que justificam a atenção da FTC”, acrescentaram os querelantes.

Este escândalo tecnológico veio à tona um dia antes de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, comparecer ao Congresso para responder aos legisladores sobre o polêmico vazamento de dados de milhões de usuários da rede social para a firma de consultoria política Cambridge Analytica.

Nesse caso específico, o Facebook reconheceu seus erros e, desde então, Zuckerberg e outros diretores tiveram que prestar esclarecimentos à imprensa em várias ocasiões sobre mudanças futuras em suas políticas referentes à transparência e à privacidade dos usuários e em relação às chamadas fake news (notícias falsas, em inglês).

Procurado por VEJA, o Google afirmou que proteger crianças e famílias sempre foi uma das principais prioridades da empresa. “Leremos a reclamação cuidadosamente e avaliaremos se há coisas que podemos fazer para melhorar. Como o YouTube não é para crianças, investimos significativamente na criação do YouTube Kids, app para oferecer uma alternativa projetada especificamente para crianças”.