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O dia em que pais souberam, enfim, o que filhos fazem no Linkedin

Pais não entendem quando filhos falam que vão fazer um 'call' ou que trabalham em 'sales solutions'. VEJA foi ao Linkedin para ver se eles aprenderam

Por Teo Cury - Atualizado em 7 nov 2016, 19h37 - Publicado em 7 nov 2016, 18h39

“A única coisa que eu sei é que ele trabalha no Linkedin, que é como se fosse um Facebook de emprego”, diz, meio sem jeito, Marta Iglesias, de 62 anos. A professora de pintura e corretora de imóveis é mãe de Fernando Thompson, de 35 anos, que trabalha na área comercial para a América Latina, na qual é responsável por prospectar clientes para o Linkedin. “Eu vendo plataforma de tecnologia”, explica, mais uma vez, para a mãe, que é cadastrada na rede social profissional.

A poucos metros dali, a médica Solange Bevilacqua, de 64 anos, admite não saber ao certo o que o filho faz na empresa. “Mãe, eu já te expliquei várias vezes e você ainda veio conhecer aqui ano passado”, retruca, com humor, João Bevilacqua, de 30 anos. Ele é sales operation. Em português claro, é o responsável pela estratégia de planejamento de equipes de vendas do Linkedin em toda a América Latina. Para a mãe, o ofício do filho ainda é uma novidade. “Quando eu vim para cá e disse que trabalharia no Linkedin ela disse: ‘você vai receber por isso?’”, lembra.

Na última sexta-feira, o Linkedin organizou o Bring In Your Parents Day (BIYP), evento que tem como objetivo encurtar a distância entre as gerações e mostrar aos pais dos funcionários um pouco da profissão dos filhos. O BIYP é realizado anualmente em quinze países onde a rede social tem sede. É o dia em que os pais descobrem (ou, no caso de reincidentes, redescobrem) o que, afinal, seus filhos fazem na “rede social de empregos”, que tem pouco mais de treze anos de existência, 467 milhões de usuários no mundo, sendo 27 milhões no Brasil, e 12.000 novos perfis criados por dia.

Um estudo encomendado pelo Linkedin mostra que metade dos pais (49%) não conseguiria realizar o trabalho dos filhos por um dia e a principal razão é porque mais de dois terços (70%) não entendem o que os filhos fazem para pagar as contas. Entre as profissões menos entendidas pelos pais estão a de designer de interface de usuário, atuário, cientista de dados, gerente de mídias sociais, subeditor, produtor de rádio, sociólogo, corretor de investimento, desenvolvedor de software e designer de moda.

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“Está muito claro que os pais se orgulham do trabalho dos filhos ainda que não entendam completamente o que eles fazem em suas profissões. Nós nos sentimos muito felizes em poder conectar esses pais com o trabalho dos filhos incentivando empresas no mundo todo a abrir suas portas para eles”, afirma Alexandre Ullmann, diretor de recursos humanos da rede no Brasil. Quase 60 pais, como Marta e Solange, acordaram cedo e foram acompanhar um dia de trabalho dos filhos no escritório brasileiro do Linkedin, em São Paulo.

Fazer um call nos Jardins

Assim como em outros países, a decoração do escritório tem como tema a arquitetura e as características da cidade em que está localizado. O escritório paulistano tem salas de reuniões batizadas com nomes de bairros da cidade (Itaim, Pacaembu e outros), e paredes de tijolos aparentes, como nos velhos galpões industrias de bairros como a Mooca. “Estou indo logo mais para os Jardins, vou fazer um call”, anunciou, apressada, uma funcionária com bloquinho e caneta em mãos. A sala em que vai fazer o telefonema fica no Baixo Augusta, um corredor inspirado na região famosa pela vida noturna bastante agitada. Na réplica, as paredes têm as pedras portuguesas da calçada paulistana, neons gritantes e cartazes lambe-lambe, comuns na Vila Madalena. O Baixo Augusta liga a área de marketing à biblioteca criada pelos funcionários.

Já o auditório leva o nome de Pacaembu. Quando as persianas abaixam para que uma apresentação comece, quem está sentado nas cadeiras se sente no estádio. Em todas elas, as estampas fazem referência às arquibancadas do estádio de mesmo nome. Para completar, o carpete é da cor da grama de um campo de futebol. Espalhadas pelo escritório há placas de ruas que o separam por áreas de atuação. Sales solutions indica a placa onde estão as baias da equipe responsável por vender ferramentas para recrutadores. Perto dali, a área Ibirapuera foi construída para o lazer dos funcionários. O carpete verde-limão imitando a grama do parque, os dois balanços presos ao teto, o banco em forma de tronco de árvore e o violão encostado na parede servem para relaxar os funcionários, que são movidos por metas.

A Unilever é uma das empresas que mais usa o LinkedIn para contratação. Joana Rudiger, gerente de talentos da Unilever Brasil, explica que a companhia usa a rede social para recrutar seus funcionários porque a ferramenta aproxima a empresa dos candidatos. “As vagas da Unilever são anunciadas e o time de recrutadores entra em contato com os candidatos via LinkedIn. Por meio de seus perfis, os recrutadores já podem ver as informações a respeito daquele candidato, sem que enviem currículos”, diz.

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Iogurte e pingue pongue

Na copa, há quatro geladeiras recheadas de sucos, refrigerantes, iogurtes e saladas de fruta para os funcionários se servirem a qualquer momento, eletrodomésticos, máquinas de café e duas mesas, uma de pebolim e uma de pingue pongue. Costurando as mesas da cozinha, uma funcionária passeia no patinete da empresa.

Os pais que chegam parecem gostar bastante da estrutura. “Parece que você está em outro planeta”, diz, encantando, Roberto Menegatti, pai de Juliana. A arquiteta aposentada Judy Schechtmann, de 62 anos, considera a decoração e a disposição do andar “muito conceituados”. “Não é sentado na frente do computador que vão vir boas ideias”, acredita. Dona Judy é mãe de Rafael Burg, executivo de contas das empresas. “Meu filho seleciona as pessoas indicadas para determinada empresa”, explica. Ela parece já ter feito a lição de casa. “Sempre que eu vejo alguém desempregado, eu falo: ‘Vai fazer o perfil no Linkedin’.”

Quando indagados por amigos, os pais de Juliana Felippe, seu Márcio e dona Lenora, explicam que a filha “liga candidatos a empresas”. “Ela ensina empresas a usarem as ferramentas do Linkedin”, completa Lenora, que veio com o marido do Rio de Janeiro para passar a manhã com a filha.

Dos 59 pais presentes, apenas onze tinham conta no LinkedIn, que foi comprada em junho deste ano pela Microsoft por 26,2 bilhões de dólares. O total de mãos erguidas é compatível com o estudo sobre a relação entre os pais e o emprego dos filhos que atuam na empresa.

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Para Regina Giannetti, de 52 anos, o primogênito trabalha com divulgação das ações do Linkedin, mas admite não conhecer as minúcias do cargo do estagiário. “Na verdade, trabalho com a área de comunicação interna e externa, responsabilidade social, relação com a imprensa e suporte ao usuário, além de campanhas, consumer e trade”, diferencia Pedro Giannetti, de 22 anos. O levantamento da empresa também mostra que 46% dos pais se sentem confusos com as palavras utilizadas por seus filhos para falar de trabalho. A reação de Regina à fala do filho comprovou o estudo.

Mas Maria Aparecida Menegatti, de 58 anos, mãe de Juliana, não leva a dúvida para casa e resolve as perguntas na internet. “Quando ela disse que vinha para cá, procurei saber o que era a empresa e todos os termos. Entrei no Google, né?”

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