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Mendonça de Barros: Corte da Selic não tem importância no curto prazo

Risco à vida humana torna o pânico atual muito maior que crises anteriores meramente econômicas; desafios dos governos são de dimensão assustadoras

Por Luiz Carlos Mendonça de Barros* - 18 mar 2020, 19h40

A decisão desta quarta-feira, 18, do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, de reduzir a taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic, em 0,5 ponto percentual, não terá a menor importância de curto prazo e ficará perdida no pânico na economia. Vivemos uma crise econômica mundial de dimensão e características nunca vivida por nós brasileiros. As medidas que estão sendo implementadas no mundo todo para enfrentar a pandemia na saúde criada pelo coronavírus vão provocar – simultaneamente nas economias nacionais – um choque negativo de demanda e de oferta. 

Isso quer dizer que vai haver uma redução na oferta de bens e serviços por causa do fechamento de empresas e bloqueio do sistema de transporte e movimentação de bens, e também uma queda abrupta na demanda por causa da interrupção ou redução do pagamento de salários dos funcionários e pela redução da chamada riqueza financeira dos cidadãos. Somente durante as duas guerras mundiais que estes efeitos sobre a economia global ocorreram na dimensão que vamos sentir nos próximos meses. 

Além dos efeitos deflacionários sobre a economia, na crise atual, com a queda vertiginosa das bolsas de valores no mundo todo, vai ocorrer o que os economistas chamam de efeito riqueza sobre a atividade econômica. Os investidores perderam um valor em seus ativos financeiros medido em trilhões de dólares. O valor da riqueza financeira nos dias de hoje é infinitamente superior à que existia no mundo quando do colapso de Wall Street, em 1929, e anos seguintes. Uma outra característica da insegurança de agora são os riscos à vida humana envolvidos e que tornam o pânico que vivemos hoje muito maior e assustador do que nas crises meramente econômicas anteriores. Os desafios dos governos nos próximos meses são de dimensão assustadoras. 

Em primeiro lugar, terão que estabilizar a expansão da doença para trazer um pouco de segurança e tranquilidade para as populações mais afetadas. Paralelamente a esta batalha, terão que prover assistência financeira para as empresas que vão estar no centro da pandemia. Se isso não for feito com eficiência, a falência em setores importantes como transporte aéreo, serviços urbanos e outros pode gerar um aumento importante no nível do desemprego, com efeito direto sobre a renda das pessoas. No setor informal, também vamos ter de evitar importante queda no fluxo de renda dos trabalhadores. Apenas posteriormente a todas essas etapas é que as medidas de natureza econômica para lutar contra uma eventual depressão serão mais efetivas.

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*Economista e engenheiro, Luiz Carlos Mendonça de Barros foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

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