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Como o BNDES torrou R$ 42 milhões para não encontrar nada

Gustavo Montezano, presidente do banco estatal, explicou por que o custo da auditoria dos contratos da J&F, dos irmãos Batista, saltou para este valor

Por Machado da Costa Atualizado em 29 jan 2020, 20h03 - Publicado em 29 jan 2020, 12h40

“Como não teve nada de ilegal?”, autoquestionou-se Gustavo Montezano, presidente do BNDES, ao justificar a auditoria que o banco público fez nos contratos firmados com a holding J&F, dona do frigorífico JBS, de Joesley Batista. “Todo o esquema legal, que passa pelo que é decidido em Brasília, até o dinheiro usado para financiar campanhas políticas. Esse esquema todo foi legalizado. É difícil explicar isso para a população. O país legalizou a corrupção”, continuou. Montezano gastou todo o seu poder retórico para dizer, mais uma vez, que não conseguiu encontrar nenhuma irregularidade nos contratos. Em resumo, diz que os empréstimos não foram corretos, mas que a culpa não era do banco e sim de uma estrutura arquitetada pelo grupo político que estava no poder e que criou um conjunto de regras que permitiram os descalabros contratuais feitos pela instituição. A caixa-preta do BNDES nunca existiu.

Montezano convocou uma coletiva de imprensa, nesta quarta-feira, 29, para tentar explicar por que uma auditoria passou de 19,6 milhões de reais para 42,7 milhões de reais em pouco tempo e não encontrou nada. Isso aconteceu, segundo ele, porque houve um esforço inesgotável para passar a limpo esses contratos. Ilegalidade, em sua visão, não há. A questão por trás de tudo isso está no campo da ética. “O fato é que não foi encontrada nenhuma irregularidade”, afirmou. “Se, no futuro, surgir outra operação ou questionamento como esse, a gente virá a público”, disse o presidente do BNDES.

Firmado em 2017 pelo então presidente Paulo Rabello de Castro, o contrato para a realização de uma auditoria foi orçado em cerca de 12 milhões de reais. O pedido foi feito pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, na apuração de trambiques realizados pelas empresas dos irmãos Batista em território americano. Esse era o valor máximo previsto pelo banco junto ao escritório americano de gastos com as investigações. Em fevereiro de 2018, contudo, o valor subira para 19,6 milhões de reais. Em julho de 2019, ainda na gestão de Joaquim Levy, já alcançara 40,4 milhões. Montezano diz, que em seu comando, um aditivo de apenas 2,3 milhões de reais foi aprovado.

Bolsonaro assumiu o governo afirmando que iria “abrir a caixa-preta” do BNDES, em referência ao que ele via como supostas irregularidades na concessão de empréstimos pela instituição. Segundo Montezano, os custos da auditoria contratada pelo banco tiveram de ser reajustados com base no crescimento das informações levantadas, e também com dados da Operação Bullish, da Polícia Federal, e da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o BNDES, que foi instalada no Congresso Nacional.

No total, a auditoria analisou oito operações entre o banco público e a J&F, com os empréstimos do banco público à holding, totalizando, em valores atualizados, 20,1 bilhões de reais, entre os anos de 2005 a 2018, valor próximo do montante total desembolsado pelo BNDES para grandes empresas em 2019, que gira entre 25 e 26 bilhões de reais.

(Com Reuters)

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