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Com retomada ainda distante, economistas seguem piorando previsões

Lógica da recuperação da economia passa pela volta da confiança, mas fatores como Lava-Jato e crise política impedem a melhora dos prognósticos

Por Luís Lima - 6 dez 2015, 17h23

“A única função das previsões econômicas é fazer a astrologia parecer respeitável”, dizia o economista canadense John Kenneth Galbraith. Os críticos da futurologia econômica revisitam a máxima de Galbraith sempre que desejam reafirmar o quanto os economistas falham quando tentam antever o futuro. No momento, o futuro que grande parte dos economistas enxerga para a economia não é nada animador: não apenas o ano de 2015 está perdido, com retração que ficará em torno de 3,5%, mas também 2016. Para os mais pessimistas – ou mais realistas, a depender do ponto de vista -, a recuperação só ocorrerá em 2018. E mais: as previsões, que já eram ruins no início de 2015, só fizeram piorar desde então. Erram os futurologistas, como dizia Galbraith? Dadas as condições atuais, a recuperação realmente não parece estar tão próxima.

As previsões ficaram piores porque também mais bicudo ficou o quadro geral. No início de 2015, esperava-se crescimento – sim, crescimento – para 2015. A projeção era de alta de 0,4% para o PIB, segundo a pesquisa Focus, realizada com 100 economistas pelo Banco Central semanalmente. Agora, até o governo – que, por dever de ofício, precisa ser otimista – prevê queda do produto interno bruto (PIB) superior a 3%. A dificuldade do governo de levar adiante no Congresso o projeto de ajuste fiscal, a crise política, a piora das contas públicas e o aprofundamento da Operação Lava Jato, que investiga casos de corrupção em contratos com a Petrobras, exigiram revisão das projeções. Só os desdobramentos Lava Jato engoliram 142,6 bilhões de reais da economia, o equivalente a 2,5% do PIB, segundo estudo da consultoria econômica GO Associados.

O quadro de incerteza leva as empresas a adiar investimentos e contratações, razão de as previsões terem piorado ao longo de 2015. “Quando a recessão começa, o desemprego não é imediato, assim como as contratações não ocorrem logo depois do início da retomada”, diz Hélio Zylberstajn, professor do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo. “Leva alguns meses para o empresário ter certeza de que a retomada é para valer – e essa certeza ainda está longe de acontecer.” As previsões mais frequentes no momento falam de taxa de desemprego em torno de 9% ao fim de 2015. O número é um contraste com o que se via há apenas doze meses, quando o desemprego era de menos de 5%. A taxa deve chegar a dois dígitos – as projeções ficam entre 10% e 12% – no primeiro semestre de 2016.

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De onde vêm essas projeções? De indicadores como a formação bruta de capital fixo. Esse indicador registra o quanto as empresas aumentam ou diminuem seus bens de capital, que é a infraestrutura de máquinas e equipamentos usados na fabricação de outros produtos. No acumulado entre janeiro e setembro, a formação bruta de capital fixo recuou 12,7%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em relação ao trimestre imediatamente anterior, a queda foi de 4%, e, na comparação com o mesmo período de 2014, o declínio foi de eloquentes 15%. Com menos demanda de consumo, as empresas diminuem sua estrutura de produção e cortam empregos. Depois, quando veem que a demanda está em recuperação, recompõem seu parque industrial e voltam a contratar. Todo esse processo leva tempo, como explica o professor Zylberstajn. Por isso os economistas têm adiado o momento para o início da recuperação em seus prognósticos.

As pedras no caminho do porta-bandeira – O ajuste fiscal era um ponto central nas previsões para a economia brasileira feitas no início de 2015. Os cortes de despesas e aumentos de impostos propostos pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, porta-bandeira do ajuste, eram medidas duras e impopulares, mas essenciais para o reequilíbrio das contas públicas e a recuperação da credibilidade no cenário externo. Mas Congresso e governo têm vivido às turras desde o início do ano – seja por convicção dos opositores, seja pela pressão da dita base aliada por cargos e vantagens. E, com os desentendimentos, até agora o ajuste fiscal não foi votado por completo. Resultado: A desconfiança com a capacidade do governo de conseguir aprovação para o ajuste cresceu. Essa desconfiança puxou a alta do dólar, que, por sua vez, alimentou a inflação. “Economia é muito expectativa e credibilidade”, diz Alexandre Espírito Santo, professor de finanças do Ibmec, no Rio de Janeiro. “Será que o governo vai conseguir o ajuste no ano que vem se não conseguiu fazer até agora? A resposta não é trivial.”

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A desconfiança externa com o quadro da economia brasileira costuma ser resumida pela avaliação feita pelas agências de classificação de risco. Em setembro, a Standard & Poor’s tirou o Brasil de sua lista de bons pagadores e pôs o país na lista de “grau especulativo”, na qual estão países e empresas considerados mais arriscados para os investidores. Moody’s e Fitch ainda mantêm o Brasil no patamar dos bons pagadores (ou investment grade). Ter boa nota na lista dessas agências não é questão de mera vaidade. Quanto mais altas as notas, menos o país e as empresas pagam para tomar empréstimos. Esses empréstimos, por sua vez, se transformam em mais investimentos e empregos. Rebaixamento significa fuga de dinheiro. “Mas a questão não está só com o investidor estrangeiro. O investidor doméstico também está desestimulado”, diz o economista Luiz Alberto Machado, conselheiro do Conselho Federal de Economia.

O governo pareceu ter conseguido dar passos adiante no Congresso quando, no fim de novembro, destravou a “pauta bomba”, formada por um conjunto de vetos da presidente Dilma Rousseff a medidas que aumentariam pesadamente os gastos do governo. Os vetos foram mantidos. Uma semana depois, a ironia: no mesmo dia em que conseguiu sua maior vitória no Congresso em muito tempo – a mudança da meta fiscal para 2015, que autoriza o governo a fechar 2015 com rombo de 119,9 bilhões de reais sem ser enquadrado na Lei de Responsabilidade Fiscal -, Dilma viu o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), acolher o processo de impeachment contra ela. Qualquer que seja o desdobramento desse processo, ele exigirá mais embate entre Planalto e Congresso, o que tende a adiar votações importantes para a retomada da economia brasileira. “A crise política levou à paralisia do Congresso, que é o oposto do que precisamos no momento: Um Congresso ágil na votação das reformas”, diz o professor Alexandre Espírito Santo, do Ibmec. “Estamos paralisados.” A piora das previsões, como se vê, não é mero pessimismo de quem insiste em desafiar a máxima de John Kenneth Galbraith.

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