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Ao mexer na caderneta de poupança, Dilma mostra que é mais ousada que Lula

Antecessor cogitou tributar poupanças acima de R$ 50 mil, mas desistiu por temer seu alto custo político; presidente Dilma preferiu correr o risco para permitir a continuidade da queda da Selic

Por Da Redação - 4 Maio 2012, 15h48

Presidente Dilma escolheu a guerra contra os juros altos como marca de seu mandato

A decisão do governo de forçar a queda nas taxas de juros no país – contexto no qual se insere o anúncio na mudança dos rendimentos da caderneta de poupança na quinta-feira – faz parte de uma estratégia política para criar uma nova marca da gestão da presidente Dilma Rousseff no campo econômico. Segundo fontes do Palácio do Planalto, o alvo dos juros bancários – tema de grande apelo entre a classe média – passou a ser considerado na medida em que a meta de crescimento de 5% em 2012 ficou cada vez mais distante.

Além disso, os bancos passaram a ser vistos por Dilma como instituições que pouco colaboraram para a queda dos juros implantada pelo Banco Central desde agosto. “É uma briga que a presidente achou por bem comprar porque traria benefícios ao país no longo prazo”, disse uma das fontes. Nesta estratégia, era preciso resolver o problema da rentabilidade da poupança, que por ser fixa e atrativa, corria o risco de afetar a indústria de fundos – aplicações que, ao investirem em títulos do governo, são essenciais para rolar a dívida pública.

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Em última instância, a caderneta impunha uma amarra à própria continuidade da trajetória de queda da taxa básica de juros (a Selic). Ciente disso, a presidente decidiu reduzir a rentabilidade da poupança, mostrando-se, portanto, muito mais ousada que seu antecessor, que chegou a cogitar em 2009 a tributação do investimento, mas recuou ante seu elevado custo político.

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A ousadia da presidente nesta quinta-feira foi elogiada por especialistas. Nos próximos meses, ela possivelmente dará continuidade às cobranças para que os bancos privados reduzam o spread bancário – diferença entre o custo de captação e as taxas cobradas dos clientes finais – e deve continuar usando sua influência para induzir a Caixa Econômica Federal (CEF) e o Banco do Brasil (BB) a praticar juros menores.

A medida é correta, pois, ao estimular a concorrência, impõe no mercado uma nova dinâmica, em que os ganhos com volumes maiores de concessão passam a ser mais importantes que a rentabilidade de cada operação individual. O problema é que o Planalto poderia ser ainda mais agressivo se não ficasse apenas na estratégia de atacar os bancos. Afinal, cerca 70% do spread tem ligação com políticas do próprio governo. Em resumo, se Dilma quiser, ela pode verdadeiramente levar os juros a outro patamar – ainda mais baixo que só sua retórica e a ajuda dos bancos públicos poderá resultar.

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Outras marcas – Desde o final do ano passado, assessores do governo buscavam uma nova marca para a gestão Dilma. O Brasil Sem Miséria – símbolo inicial e que, segundo assessores não será abandonado – atingiu pouco a classe média e ainda trazia a forte memória do governo Lula e o Bolsa Família. No início do ano, a presidente discutiu com seus conselheiros dar maior status para a área de tecnologia e inovação, fazendo do programa Ciência Sem Fronteiras, que levará 100 mil estudantes ao exterior – uma marca do segundo ano de mandato, revelou um assessor.

Mas, além do alcance limitado do programa, pesquisas mostravam que está na economia o fator preponderante para o bem-estar da população e onde está calcada a aprovação recorde do governo, que bateu em 64% em abril, segundo pesquisa Datafolha.

Apoio do ex-presidente – Seu antecessor esteve entre os entusiastas da ideia de o governo usar seu capital político e alta aprovação para promover uma mudança estrutural na economia que abrisse espaço para os juros caírem – permitindo que Dilma cumprisse promessa de campanha feita no início de 2010, quando disse que gostaria de baixar a taxa real de juros básica para “perto de 3%, mas sem fazer mágica”.

A equipe da presidente tem explorado uma faceta revelada ainda na campanha presidencial, quando pesquisas identificaram que eleitores viam em Dilma uma mulher ousada e corajosa. Os bons resultados da imagem da presidente que “faxina” colaboradores envolvidos em denúncias, ou que não negocia no “toma lá, dá cá” do Congresso, deram o aval para que novas medidas de risco, como a mudança na poupança, entrassem nos planos.

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Mais ousada que Lula – A nova medida fez com que Dilma acabasse por modificar regras que seu antecessor desejou mexer, no final de governo, mas desistiu por achar o custo político muito alto – isto é, a presidente demonstra ter mais ousadia e coragem que o ex-presidente. Em 2009, já com Guido Mantega na Fazenda, Lula planejou enviar ao Congresso um projeto que taxava depósitos acima de 50 mil reais com Imposto de Renda. Desistiu, entre outros motivos, para garantir a eleição de Dilma.

Desta vez, a avaliação foi de que valia a pena pagar os custos políticos ou eleitorais de uma medida à primeira vista impopular. Contudo, o governo tomou mais precauções do que de costume. O núcleo econômico fechou a proposta, mas fez o anúncio a partir de encontros em que ouviu políticos, empresários e sindicalistas, além da imprensa.

Viu-se, nos últimos dois dias, a presidente tomar mais cuidados do que costuma ter ao escolher seus ministros, trocar líderes ou diretores de estatais: consultou integrantes de governo, chamou líderes aliados, fez um agrado aos sindicatos indicando Brizola Neto como ministro do Trabalho e buscou apoio do empresariado, historicamente crítico dos juros altos.

O ministro da Fazenda trabalhou em outra trincheira: chamou um número pequeno de jornalistas para explicar as medidas, em sinal de que o governo queria evitar a repercussão negativa ou “desinformada”, como classificou outra fonte do governo.

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(Com agência Reuters)

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