Clique e assine a partir de 9,90/mês

A luta do Banco Central para manter o dólar abaixo de R$ 6

Em um ano, BC teve de queimar quase 50 bilhões de dólares em reservas internacionais

Por Victor Irajá - Atualizado em 14 maio 2020, 12h58 - Publicado em 14 maio 2020, 12h52

“Se fizer muita besteira pode ir para esse nível. Se fizer muita coisa certa, ele pode descer”. A declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, num longínquo março tentava responder a ponderações do futuro sobre se a cotação do dólar ultrapassaria a marca dos 5 reais. Se o ministro estava certo, a moeda americana flertando com o patamar de 6 reais denota as besteiras feitas pelo governo federal. O ministro pode até estar tentando. Não bastasse o coronavírus, a incerteza envolvendo a continuidade da agenda de reformas e a belicosidade crescente entre o presidente Jair Bolsonaro e as instituições prepararam o terreno para que as cotações descambassem. As atenções voltadas ao Supremo Tribunal Federal (STF), na apreciação do ansiado vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, e as disputas envolvendo a União com governadores e prefeitos fazem os investidores torcerem o nariz para o Brasil e buscarem mercados seguros, como o da moeda americana. 

O cenário internacional, vale dizer, é péssimo para as economias emergentes. Nesta terça-feira, 13, o presidente do Federal Reserve (Fed), o Banco Central americano, Jerome Powell, relatou que a retomada econômica pode ser mais lenta do que se imaginava. Na Alemanha, após o afrouxamento das políticas de isolamento, os casos quase triplicaram em 24 horas. Mas o Brasil se supera. O real foi a moeda que mais se desvalorizou frente ao dólar desde o início da pandemia. Em relação à moeda brasileira, o dólar avançou 46% desde o início de janeiro. “O mundo inteiro está enfrentando uma crise mas, no Brasil, os problemas são sempre mais glamourosos. Temos todos os problemas envolvendo o coronavírus, mas também o problema político-econômico que estamos enfrentando. Essas demandas do nosso presidente, a briga com o STF e com o Congresso que continua. Esses são os fatores para essa disparada”, explica Mauriciano Cavalcante, diretor de câmbio da Ourominas. 

Apesar da orientação expressa da autoridade monetária, o Banco Central (BC), de que o câmbio em patamares mais elevados seria bom para o aumento das exportações do país, o BC vem reagindo para não perder o controle. Nesta quarta-feira, 14, a instituição realizou mais uma injeção de dólares na economia por meio de leilões de swap cambial, inundando o mercado com 2 bilhões de dólares em contratos futuros. Serviu para dar um alívio: depois da moeda ultrapassar o patamar de 5,97 reais, o dólar arrefeceu e flutua na casa dos 5,90 reais. Foi a quinta injeção de dólares na economia na semana. Anteriormente, o Banco Central já havia realizado quatro leilões até o pregão de terça-feira 13, injetando 1,8 bilhão de dólares nos mercados. “O Banco Central acha bom que a cotação suba, mas devagar. A moeda sobe pelas incertezas em relação às nossas políticas e as incertezas quanto ao aumento dos gastos públicos”, diz Carlos Thadeu de Freitas Gomes, ex-diretor do BC.

ASSINE VEJA

Quarentena em descompasso Falta de consenso entre as autoridades e comportamento de risco da população transforma o isolamento numa bagunça. Leia nesta edição
Clique e Assine

Nesta “boa vontade” com a alta da moeda, a instabilidade, de fato, é algo a ser combatida pela autoridade monetária. Os chamados “gatilhos psicológicos” também. E o patamar de 6 reais é o principal deles. Se o de 5 reais já foi batido há muito, o próximo é uma barreira que o BC irá segurar o quanto puder. No último ano, já torrou 50 bilhões de dólares das reservas internacionais por meio de leilões. O objetivo é suavizar a alta da moeda americana, mas, no limite, a autoridade monetária tem pouca influência sobre a cotação do dólar. A moeda americana sobe em todo o mundo. A diferença é que o real se desvaloriza em ritmo mais rápido. Numa comparação com 40 moedas relevantes para o comércio internacional, a brasileira é a que perdeu maior valor de mercado. Desde a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, a desvalorização já acumula quase 90%. Ao perder o patamar de 6 reais, o real começa a se aproximar perigosamente do maior valor já registrado na história, em 2002. À época, a cotação beijou o patamar de 4 reais, mas ao corrigir a cotação de acordo com as inflações de Brasil e Estados Unidos, a cotação real recorde do dólar é de  7,18 reais — apenas 20% acima dos 6 reais. Para uma moeda que perdeu metade de seu valor em um ano, derreter mais um quinto não parece algo tão distante.

Continua após a publicidade

Para além da crise política, as dúvidas quanto às políticas engendradas pelo Governo Federal para sair da crise também tiram o apetite do mercado internacional pelo Brasil. O presidente Bolsonaro passa sinais incertos quanto ao apoio de reformas e medidas emergenciais, enquanto flerta com o aumento do investimento público em obras de infraestrutura. A agenda de reformas, em risco, também tira o Brasil da mira por injeções de dinheiro estrangeiro. “As reformas tributária e administrativa vão passar no Congresso? O governo vai ter que gastar bem menos, e fica essa dúvida: esse governo vai querer gastar bem menos? Isso passa um sinal de desconfiança”, encerra Freitas Gomes. O ministro Guedes até tenta, com a defesa da aprovação de medidas para tornar o país mais atraente, e atrair investimentos a longo prazo, como aborda o plano Pró-Infra, para buscar investimento privado a longo prazo em setores cujas lacunas são gritantes. A Bolsonaro, resta se preocupar mais com o vírus do que com as instituições democráticas.

Publicidade