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Radar Econômico Por Josette Goulart Análises e bastidores exclusivos sobre o mundo dos negócios e das finanças. Com Diego Gimenes.

Milena Nascimento: na moda, nos chamam porque querem o selo antirracista

Estilista de 23 anos que protestou contra a São Paulo Fashion Week na passarela da própria São Paulo Fashion Week quer vestir o baile funk

Por Josette Goulart Atualizado em 17 abr 2022, 14h57 - Publicado em 17 abr 2022, 10h00

Milena Nascimento é uma jovem estilista de 23 anos que revolucionou a última edição da São Paulo Fashion Week. Ela transformou o desfile da sua marca Mile Lab em um grande protesto contra a própria São Paulo Fashion Week. “Enquanto a gente grita pra nós mesmos “não desista”, eu sei que vocês só querem o seu selo antirracista”, disse ela quando adentrou a passarela. A organização do evento não percebeu que o protesto era contra eles. Não fez nada e nem vai fazer. Não interferimos nas coleções, e demos o espaço, me disse a assessoria de imprensa. O desfile da Mile Lab aconteceu no mesmo dia em que diversas outras marcas de estilistas negros tomaram as passarelas da Fashion Week. Era o dia da Consciência Negra. As marcas para o desfile foram selecionadas pelo projeto Sankofa, que ajuda a moda da periferia. 

Mas afinal se a Mile Lab já tinha o espaço, tinha os modelos para o desfile, por que protestar? Porque a Mile Lab não tinha o básico: o dinheiro para botar a coleção na rua. Eles não têm o básico: a condição de permanecer neste mundo. A Mile Lab só precisava de 40 mil reais para fazer a coleção. Uma dinheirama para quem na pandemia teve que sobreviver da doação de cestas básicas. Uma dinheirama para quem ainda costurava numa velha máquina de costura. Milena chegou a cogitar em não participar da SPFW, mas ela entendeu que não poderia deixar de ocupar aquele espaço para protestar. Chegou a cogitar em botar modelos nus na passarela. Descobriu que era mais caro do que fazer as roupas. Acabou que juntou a poesia do Breno Luan, a fotografia do Vinicius Marques, o marketing do Ítalo Augusto, e toda sua equipe. E teve ainda o Miltão das pipas que fez 200 pipas para que eles montassem a coleção e dessem o visual arrasador na passarela. Mas apesar de toda essa união, uma decisão ela já tomou: não vai participar da próxima edição porque o esquema continua exatamente o mesmo. A SPFW não fez um telefonema, segundo ela, não botou uma nota no Instagram. Não viu o que aconteceu. Enquanto isso, a Mile Lab ganhou o Prêmio Casa Rio Gerações como marca revelação da SPFW. Recentemente ganhou as páginas da revista Vogue.

E desistir da SPFW não significa de jeito nenhum que Milena desistiu da moda. Ela quer fazer um evento de moda lá mesmo no Grajaú, onde mora e costura. E sem nenhum nome em inglês no meio do evento. Ela pretende fazer uma segunda coleção da Fluxo Milenar, que foi a que ela apresentou na Fashion Week e que reproduziu apenas 1% do que ela havia planejado para a ocasião. A Mile Lab quer ainda se tornar na marca preferida dos bailes funks. A Mile Lab quer ter seu próprio espaço físico para não só vender as roupas, mas também para costurar, para dar aulas, para fazer projetos audiovisuais, para falar de poesia. E é na poesia que ela se inspira. Seu espírito revolucionário e politizado foi moldado nas rodas de saraus, nos slans do Grajaú, onde a poesia é quem conta história. 

É difícil para quem vive aqui dessa lado da ponte, como dizemos aqui em São Paulo, entender o mundo do lado de lá. E Milena gentilmente nos explica como é ir, por exemplo, a um baile funk: “é como se a gente tivesse se preparando para uma guerra, só que com nossas melhores roupas”. O baile funk é o lazer da periferia, é a identidade deles, é a vida deles. Grandes grifes estão enraizadas por lá, mas as próprias marcas não percebem isso. É na periferia que a Oakley, por exemplo, reina. Não à toa, é a marca dos sonhos de Milena para fazer um colab. Algumas marcas já perceberam que precisam estar naquele mundo. Não à toa, a Nike fez o primeiro jabá com a estilista há umas três semanas, quando ela exibiu o boné que ganhou da marca nas suas redes sociais. Milena é uma jovem pronta para fazer e acontecer e neste papo de domingo ela nos convida a refletir em como a periferia está mudando, está mais empreendedora, está mais coletiva. A periferia não quer mais ser símbolo de escassez. E ainda perguntei a ela se o funk não é machista. Vem ler o que ela respondeu.

Quero começar pela São Paulo Fashion Week. Como foi isso de fazer uma manifestação contra a SPFW dentro da própria SPFW? Aquilo foi basicamente o nosso plano Z, do alfabeto inteiro. Era o último plano e acabou se tornando o primeiro. A gente sabia do peso que estar na São Paulo Fashion Week teria no nosso currículo, para nossa história e tudo mais. Só que pelo fato de eu já ter trabalhado na São Paulo Fashion Week como camareira, que é posição que minha mãe assume hoje em dia, eu já sabia ali de certa forma como que funcionava aquele espaço, aquele ambiente, as pessoas que ocupavam aquele lugar. Então eu fui meio que preparada, com o pé no chão. Pisando em ovos. Porque ali é um ambiente totalmente fora da minha realidade. Eu não criei muita expectativa em estar naquele lugar, mas sabia do peso e a importância que tinha. Mas basicamente o que fez a gente tomar aquela atitude, de se manifestar, de protestar, foi essa falta de respeito. Porque na minha cabeça não faz sentido você querer colocar marcas pretas, profissionais pretos em um ambiente que você não prepara para receber aquela pessoa e nem garantir a permanência dela ali. É meio que trazer essa pauta de diversidade, de pluralidade, só que muito de fachada. Coisa de rede social. A gente tinha uma grande coleção para ser apresentada. Só que não tinha investimento, não tinha apoio. Não teve como a gente tirar aquilo do papel. Tanto que eu até cheguei a desistir do desfile. Mas aí achei que dava para gente estar ali sim, só que a gente precisava expor o que estávamos passando. A Fluxo Milenar (coleção da Mile Lab) era para falar de celebração, falar de baile, de festa, do otimismo, desse futuro que a gente almeja. Mas o processo lá nos backstages é desrespeitoso e doloroso. Foi um processo muito difícil em fazer tudo isso acontecer. Então acabou que o que foi para a passarela em questão de roupa mesmo, de looks, não foi um por cento do que a gente tinha planejado.

Mas mesmo assim funcionou e o desfile de vocês foi o mais comentado, chamado até de revolucionário por algumas publicações. Alguém precisava falar o que acontecia de fato naquele ambiente, naquele espaço, o que acontecia por trás das cortinas. E infelizmente a gente precisou pegar essa responsabilidade. Batendo no peito também com muito orgulho de ter levado a nossa verdade, o nosso propósito e não ter deixado esse setor da moda engolir a gente. E de certa forma acabar higienizando o nosso trabalho. A gente foi e conseguiu entregar o que a gente precisava: a nossa verdade. Mas nos retiramos desse lugar também. 

Como assim? É que a gente não vai mais participar da São Paulo Fashion Week. Continuamos dentro do projeto Sankofa, temos mais uma temporada, mas não vamos mais para a SPFW. Não vou levar os meus para um lugar se a gente não tiver garantias que a gente vai se manter lá. Em questão de investimento, em questão de apoio mesmo, de recurso. Porque sem isso não tem como fazer nada. Não adianta eles darem a passarela e tipo se vira. E quando acaba você tem dez minutos pra sair dali.  Então conversei com meu pessoal, a gente decidiu que realmente não ia fazer sentido pra gente ter feito tudo isso pra depois se lascar de novo. Agora queremos fazer uma semana de moda no Grajaú.

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A organização do evento falou com vocês depois do protesto? Não. Não teve nenhum retorno por parte deles. Eu esperava nem que fosse uma nota no Instagram, uma mensagem, uma ligação, mas não teve absolutamente nada. 

Você conta que precisavam de 40 mil reais para conseguir fazer a coleção e não conseguiram. Algumas empresas se interessaram em patrocinar, mas não perceberam que vocês não tinham os 60 dias que eles queriam para desembolsar o dinheiro. Então quando tudo deu errado. Como veio a ideia de se manifestar? Quando a gente recebeu esse não desse possível apoiador, eu já estava totalmente desmotivada. E pensei, a gente não tem tempo, eu não tinha mais saúde mental. E conversando com meu pai, ele querendo arrumar vários jeitos, de ir atrás disso, disso, daquilo. Aí eu falei que se fosse para entrar naquela passarela seria pra fazer um protesto e colocar todo mundo pelado porque não tem dinheiro para fazer a roupa. Só que também ia ser muito dinheiro envolvido ali para pagar modelos que ficassem pelados. Veio a ideia de fazer o básico. Uns tops, umas sainhas aqui, um shortinho ali, tentar dar uma brincada. Tivemos duas ou três semanas. Mas tudo foi movido pela raiva. Eu queria ter feito por amor, queria ter feito pelo gosto do que eu tenho, pelo prazer de vir de fazer o que eu faço, só que a raiva também é um sentimento e eu precisei olhar para ela. E graças a Deus consegui tirar alguma coisa boa dessa raiva. Porque querendo ou não eu acho que é um dos sentimentos que mais nos motiva a tomar uma atitude de revolta assim. E a gente usou da da arte, da poesia para conseguir se manifestar.

E como é que foi depois? Olha o depois foi foi uma loucura assim porque deu um boom muito grande. No dia do desfile tínhamos quatro mil seguidores, no dia seguinte eram 10 mil e não parava de subir. Então isso deu deu um choque muito grande na gente, a gente não esperava por isso. Mas também veio a pressão de aproveitar o hype. Ok, entendo, mas não. A gente tinha acabado de passar por meses de perrengue, de sofrimento, de choro, de dor e a gente precisava respirar. O que me aliviou muito foi ouvir da minha mãe pra eu não me preocupar com isso porque não foi um meme. Não foi uma coisa passageira. Mas que foi revolucionário e que isso vai ficar marcado ainda. Então isso de certa forma me acalmou que o que a gente fez ninguém vai tirar da gente. E aí o pós disso tudo foi vender roupa. Foi quando eu conseguir costurar e vender, o que deu um alívio financeiro. Mas o que mais fez valer a pena de tudo isso, foi ver que a gente furou a bolha do nosso território, do Grajaú, e conseguimos alcançar outras quebradas também, outras para além de São Paulo. De pessoas do norte, de Rondônia, do Acre, que se identificaram com a gente, com o que a gente fez. Falar que foi a primeira vez que eles se viram representados naquela passarela. Então, isso significa muito, isso tem um peso muito grande e fez valer a pena.

De onde surgiu esse espírito de se manifestar e protestar, essa consciência política? Eu comecei a me conhecer em um slam de poesia aqui do Grajaú e a partir de lá eu comecei a frequentar esses espaços culturais aqui dentro, os saraus. Então dentro desse espaço nada mais é do que uma resistência. Tem corpos pretos diversos e plurais falando sobre tantos sobre essa questão racial sobre essa questão social. Todas essas causas que a gente carrega e que muita das vezes a gente sofre, mas não tem essa essa consciência do que a gente está passando assim. Aquilo virou a chavezinha pra mim. E e aí aquilo começou a me estimular mais ainda a escrever porque antes eu já fazia poesia, mas nunca tinha ido no sarau, nunca tinha lido pra ninguém e aí eu vi que eu conseguia fazer essa poesia também através da roupa. Que eu eu poderia falar também  através da moda. Escolhi usar a moda como esse esse veículo de comunicação e resistência de fato. Até porque é um ambiente extremamente elitizado e as pessoas que acabam conseguindo adentrar esse espaço geralmente têm seu trabalho higienizado e acaba virando mais do mesmo. É difícil enquanto preta, enquanto favelada, ocupar um lugar como esse.

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E o que você já está planejando para este ano? O plano para este ano, posso estar sendo ambiciosa, é termos o nosso espaço físico. Porque até hoje o meu trabalho é na sala de casa. Já foi no meu quarto. Já morei num cômodo só. Então era tudo no mesmo ambiente e a gente quer muito almejar esse nosso lugar, que não seria uma loja física, a gente não pensa em ter uma loja física, mas um espaço que pudesse abrigar uma iniciativa sociocultural onde de repente teria uma sala de produção audiovisual, para a fotografia, para fazer nossas trilhas sonoras, ter o nosso ateliê e e o mais importante é que esses espaços não funcionem apenas pra manutenção da marca, mas que elas sejam também salas de aula. Que a gente consiga abrir oficinas, a gente consiga abrir cursos para as pessoas terem acesso a isso de uma forma que eu não tive na minha adolescência. A gente quer priorizar a questão dos adolescentes e de crianças, mas também das pessoas mais velhas, costureiras que não sabem precificar seu trabalho. Que ainda falta aquela questão de investir num bom acabamento. E a gente quer construir esse ecossistema, essa economia de fato criativa e solidária aqui dentro do Grajaú. 

E você está tendo alguma ajuda pra fazer isso? A gente está fazendo parte do Movimento Elle (revista Elle), em que eles nos acompanham por alguns meses e hoje foi a primeira mentoria individual. E é bom porque além da mentoria em si, do aconselhamento que a gente tem recebido, é uma oportunidade que a gente está encontrando de fazer contatos, de conseguir de repente ir atrás de um investidor, de um edital interessante que faça sentido para a gente. Ter o espaço físico era um plano para daqui dez anos, mas aí eu vi que na verdade é um propósito que a gente tem que é urgente. A gente precisa desse espaço, urgente. A comunidade precisa desse espaço. Então agora a gente está entrando no campo das ideias de montar estratégia, de escrever o projeto.

Você é uma frequentadora dos bailes funks. Conta um pouco pra gente que está aqui desse lado da ponte, o que a gente daqui não enxerga no que vocês fazem aí? Eu tô descobrindo também. Eu não era desde sempre uma frequentadora de baile, até porque quem começa a ir pra baile começa com 14, com 13, 12 anos de idade. E eu comecei muito tardiamente, estou começando a viver isso agora, mas eu acho que uma coisa que as pessoas precisam entender, e até mesmo as pessoas que frequentam o baile precisam entender, é o quanto o baile funk por si só é um espelho social muito, muito, muito forte. O que acontece ali, o que está sendo falado ali, o jeito que as pessoas se portam, o jeito que elas se preparam pra ir num baile. Porque é como se a gente tivesse se preparando para uma guerra só que com nossas melhores roupas, com nosso melhor estilo, mas a gente vai preparado sabendo que pode acontecer alguma coisa, que pode baixar a polícia, que a gente pode ser violentado. E é uma coisa muito louca porque a gente saindo de casa já sabendo disso meio que a gente sabe que a gente não tem nada a perder. Então o que acontece no sábado à noite no Grajaú é basicamente pessoas que não têm nada a perder querendo viver fato. A adrenalina é muito grande. Tem que ter disciplina e postura para ir num baile desses. Estar com pessoas de sua confiança. Como as pessoas literalmente não têm nada a perder ali, às vezes um tênis que você pisa ali, um cigarro que você encosta em alguém já é motivo de treta. Treta feia. Mas nesses espaços as pessoas precisam ter consciência do porquê que é daquela forma, entender que aquilo faz de fato parte da cultura dela e que ela precisa ter a consciência viva do que ela está fazendo ali, do que está sendo apresentado ali, do porquê que ela precisa dançar, do porquê que ela precisa falar, o que ela está falando ali cantando. Entendendo isso mesmo enquanto nossa identidade. E entender que isso independente do que as pessoas falam do outro lado da ponte, do quanto julgam, e o quanto empurrem a gente nesse lugar de uma marginalidade, que vai pra um lado muito pejorativo, de querer associar sempre à nossa identidade, à criminalidade, à violência, como se a gente fosse responsável por isso sabe.

Você acha que o funk é machista? Eu estava até refletindo sobre isso essa semana. Eu agradeço a pergunta. Eu amei. Porque sempre teve muito essa questão de que o funk desmoraliza a mulher. E mesmo no baile, eu fico prestando atenção nas letras. Fala muita putaria, mas eu quero entender que putaria é essa que eles estão falando. E hoje em dia tem essa questão de falar do sexo e tudo mais. Mas fala do sexo dos dois lados. Mulher também gosta de putaria. A gente sabe falar putaria também. E isso acaba respingando nos bailes. E eu acho que é esse lugar de tirar a gente dessa coisa de pureza, de santidade, que mulher é intocável. Não, às vezes a gente tá lá porque a gente gosta também de putaria. A gente quer sair pra beijar na boca. E tá tudo certo. Eu vejo muito essa diferença hoje em dia. Porque antes tinha letra que era insana. Que você dançava com a mão na consciência. Mas hoje eu vejo o quanto isso deu uma mudada. O contexto mudou. O corpo é dela, se ela quer, beleza. Se não quer, aí é outra história. Então, até nas letras, por mais que esteja falando de putaria está tendo essa mudança. E no baile, a gente só quer curtir. Não quer letra que fale de política. Mas ao mesmo tempo o baile é um tipo de resistência. A gente expor nosso corpo em um ambiente que deveria ser seguro pra gente, que é do lado da nossa casa, na rua da feira. As políticas públicas deveriam construir lugares de lazer na quebrada, mas isso não existe. Então a gente constrói os nossos próprios espaços e querendo ou não é na rua. E mesmo sendo ali do lado da nossa casa, a gente está sujeito à violência, à violência policial, dentre tantas outras coisas. À criminalidade. Então o fato de a gente já se expor nesse lugar assim e bater o pé de “vou pra dançar, eu vou pra celebrar”, sabendo dos riscos, já é uma resistência muito grande. Ir para o baile funk já é um manifesto político muito forte.

E qual é a moda que você já vê pra este ano surgindo nos bailes funks? Olha, meu, são em coisas muito simples. Antes a gente sofria muito com esse negócio de ficar toda linda, maravilhosa, mas preciso levar uma blusa de frio. Aí fica aquele negócio amarrado na cintura. Hoje as meninas pegam a blusa, dobram bem fininha e colocam na cintura como se fosse um cinto. Não atrapalha o look, não fica pendurado, feio, cheio de coisa. Tem um óculos da Oakley, que é redondinho, feito para esporte e não foi feito para um baile funk, mas a gente acaba fazendo reverter o valor daquele produto, daquele item, daquela peça. É transformar aquilo em uma coisa que realmente faça parte da nossa cultura. E hoje em dia eles simplesmente usam o óculos num olho só. Por estética. E isso explode. 

Por que a Oakley? Por que a Nike? Por que as grifes? Você mesmo quer ser uma grife. Acho que é uma questão de se eles podem, a gente também pode. Porque a periferia querendo ou não sempre foi jogada pra esse lugar da escassez. Da pobreza mesmo. Ter uma Lacoste, ter um Nike, um óculos da Oakley original, tem o peso da conquista. Eu posso. Explodiu com o funk ostentação, com a periferia ganhando poder de compra no governo Lula. Já que a sociedade é dessa forma, funciona dessa forma, você é o que você tem. Então eu também sou porque eu tenho isso aqui. Mas virou uma coisa tão orgânica que hoje em dia, não importa se você está usando Nike original ou paraguaio, ou está usando um um óculos que não é original, o importante é que aquilo agora já faz parte da nossa cultura. Faz parte da nossa estética, da construção, da nossa identidade. Eu queria fazer uma colab com a Oakley… que eu espero um dia conseguir porque eles são extremamente inacessíveis, só que eu sou teimosa…. Eu quero uma parceria com a Oakley. Porque tem até um um funk que fala isso. “Avisa pro dono da Oakley que foi a gente que deixou ele rico”. E o que falta é as marcas olharem pra quem está está fazendo esse rap para elas. Tudo bem que é você que costura. Tudo bem que é sua marca. Mas olha direito. A gente está aqui e não tem quem dê visibilidade ao que a gente está fazendo. Querendo ou não, as tendências aqui do Brasil partem da favela, partem da periferia. A Oakley não seria o que ela é, se não fosse a periferia. E tem muito uma questão de lógica também, por exemplo, dos tênis. Eu ficava me questionando muito, por que o povo fica chapando em tênis esportivo? Um Mizuno, um Nike tipo doze molas? Só que quando você vai prum baile e você vai passar a noite inteira pulando e dançando, você vai querer ficar confortável. Quando você vai fazer seu corre de sair da quebrada pra ir pro centro, trampar e aí não sei quantas horas de metrô, de trem, pega busão e pega balsa, você vai querer estar com tênis confortável. Porque às vezes não necessariamente você está fazendo esporte, mas você está correndo. E a gente está no corre o tempo inteiro. Então a gente quer estar minimamente confortável. E a Mile Lab quer isso, quer fazer roupa para a nossa identidade, nossa cultura. Quais são as dores, quais são as celebrações que essa pessoa quer passar e nós queremos estar aqui pra vestir tanto as batalhas quanto os sonhos dessas pessoas. A Mile Lab quer vestir o baile funk.

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