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Thereza Quintella: os indícios apontam para uma nova Guerra Fria

Embaixadora do Brasil em Moscou em meados dos anos 90, quando acabava a guerra fria, diz que espera estar enganada

Por Josette Goulart Atualizado em 6 mar 2022, 15h13 - Publicado em 6 mar 2022, 10h00

Thereza Quintella foi uma das mais importantes embaixadoras brasileiras e entre os diplomatas é uma das que conhecem a Rússia como poucos. Depois de uma longa carreira no Itamaraty, que se iniciou no fim dos anos 60, e já aposentada há pouco mais de dez anos, a embaixadora Thereza, no alto de seus 84 anos, torce para estar enganada. Sim, ela acredita que os indícios dão conta de que viveremos uma nova Guerra Fria. E é por isso que ela torce para estar enganada. Thereza foi embaixadora em Moscou por seis anos, logo após o fim da Guerra Fria. Quando chegou a Moscou, o país era governado por Boris Ieltsin e estava entregue aos Estados Unidos. A Rússia esperava que em algum momento os americanos proporcionassem ao país seu próprio Plano Marshall, o que nunca aconteceu. No último ano e meio da embaixadora na Rússia, Vladmir Putin assumiu como primeiro-ministro, que transformou a economia. Ela o encontrou algumas vezes e lhe chamou a atenção a frieza de seus olhos e a segurança e o conhecimento ao abordar as pautas das conversas. Ele era tido como um estrategista hábil e cauteloso, o que faz com que a embaixadora e outros observadores fiquem perplexos com a ação militar iniciada em solo ucraniano no último dia 24 de fevereiro. De qualquer forma, a embaixadora não vê como a Rússia pode não ter esperado severas sanções econômicas e seus efeitos. “Mas a Rússia também sabia que a outra parte se ressentiria dos efeitos das próprias sanções, e talvez tenha esperado que isso levasse o Ocidente a conduzir a Ucrânia à mesa de negociações”. 

A embaixadora Thereza também chama a atenção para o chanceler Serguei Lavrov que era considerado um dos melhores chanceleres do mundo e um experiente negociador. “Todo conflito armado, porém, revela um fracasso da diplomacia.”

A embaixadora foi uma pioneira no Itamaraty, abrindo caminho para muitas mulheres na diplomacia. Foi a primeira aluna do Instituto Rio Branco a alcançar o topo da carreira. Mesmo assim, ela ainda lamenta que na classe mais graduada da carreira de diplomata, a de embaixador, apenas 20% sejam mulheres. Em 2018, quase dez anos depois de aposentada, ela foi convida a ser paraninfa da turma Marielle Franco, que se formava naquele ano no Instituto Rio Branco. Em seu discurso, disse: “orgulho-me, particularmente, de que vocês se tenham lembrado de mim em associação com o nome de sua patrona, a vereadora Marielle Franco, jovem liderança parlamentar ceifada violentamente na força da mocidade”.

Este papo de domingo foi um pouco diferente, teve que ser feito por e-mail, porque a embaixadora está em Kuala Lumpur, visitando o filho, também diplomata. Uma entrevista por e-mail impede aquela troca entre jornalista e entrevistado, que nos aproxima e nos faz ir mais fundo nas respostas e mesmo nas perguntas. Impede a contestação imediata.. Mas nem por isso este papo de domingo está menos interessante. Vem ler.

A senhora conta que a determinada altura da sua carreira, pouco antes de ser designada como embaixadora na Rússia, recebeu a missão de ir aos países bálticos, recém independentes, estabelecer relações diplomáticas e proposta de representação. Como foi essa visita logo após o fim da Guerra Fria e o que a senhora viu naquela época naqueles países?  Essa visita aos países bálticos aconteceu no final de 1991, quando eu era embaixadora em Viena. Foi meu primeiro contato com o mundo pós-soviético. Do ponto de vista da minha missão, ela foi muito bem acolhida pelos três países, onde fui recebida pelos primeiros-ministros e pelos ministros de relações exteriores. Considerei essa missão tão importante, ela foi tão marcante para mim que, pela única vez na minha carreira, mantive durante essa viagem um diário profissional, para melhor poder informar Brasília a respeito. Como estou viajando no momento, não posso infelizmente recorrer a esse diário. Mas lembro de três fatos que me impressionaram. Primeiro, a satisfação com que as autoridades dos três países bálticos acolheram a iniciativa brasileira de estabelecer relações diplomáticas com eles. O segundo fato foi constatar as dificuldades de abastecimento que as populações desses países tinham sofrido. Isso se tornou patente para mim logo quando cheguei ao hotel na Lituânia, o primeiro dos três países que visitei, e encontrei na recepção do hotel um jornal de língua inglesa que anunciava a chegada de um navio com o primeiro carregamento de bananas em dez anos. O terceiro fato foi, também na Lituânia, ver vestígios da luta pela independência. O Parlamento continuava cercado de uma barreira protetora de sacos de areia.  

Quando chegou a Moscou, o que lhe chamou mais atenção logo na chegada? Duas coisas me impressionaram. As filas frente às agências bancárias, de pessoas que procuravam recuperar suas poupanças, ameaçadas por esquemas financeiros fraudulentos. E a frequência com que as pessoas, mesmo crianças, reconheciam na rua a bandeira do Brasil no carro da embaixada. Foi-me explicado que isso se devia à popularidade de Ayrton Senna, que havia falecido um ano antes. 

Como eram as relações da Rússia com os Estados Unidos?Cheguei à Rússia quando Boris Ieltsin ainda era presidente. Sua política era de alinhamento com os Estados Unidos, inclusive em foros internacionais. A Rússia tinha naquela época expectativa de forte apoio financeiro americano, nos moldes do Plano Marshall, e de inserção no mundo ocidental. Tão firme era esse alinhamento que o então ministro das Relações Exteriores, Andrei Kosirev, recebeu do povo russo a alcunha de “Mr.Yes”.    

Quando Putin assumiu como primeiro-ministro, tenho aqui na cronologia que a senhora ainda estava lá como embaixadora. Como a senhora o via? Era grande o contraste entre o enfermo e vacilante Ieltsin e a determinação de Putin. Vladimir Putin introduziu políticas econômicas e sociais que mudaram rapidamente a feição do país. Parti de Moscou um ano e meio depois de ele ter assumido o poder.

A senhora o encontrou? Como ele era? Participei de dois ou três eventos oficiais em que Putin esteve presente, e acompanhei  o Vice-Presidente Marco Maciel, que fora a Moscou  participar de reunião da Comissão de Alto Nível Brasil-Rússia, no encontro que tiveram. Impressionaram-me nessa visita a Putin a frieza de seus olhos e a segurança e o conhecimento que demonstrou ao abordar os temas da pauta de conversações. Para sua orientação, ele tinha em mãos uma pequena ficha, mas não a consultou. Ele gozava de conceito de estrategista hábil e cauteloso, o que explica a perplexidade com que foi recebida, por mim e muitos analistas, a ação militar em território ucraniano iniciada na semana passada.

Olhando agora sob a perspectiva da guerra, cruzando com a sua experiência na Rússia, como a senhora vê essa guerra e como vai se desenrolar? É possível saber quais são as pretensões de Vladmir Putin? Ele tem apoio? Pode avançar sobre outros países? Como muitos outros observadores, fui tomada de surpresa por essa ação militar. Não consigo vislumbrar que objetivos pragmáticos teve Putin para lançar-se nela. Alguns analistas entendem que ele pode estendê-la a outros países, ou anexar ao menos parte da Ucrânia. Um objetivo consistente de Putin tem sido obter aquilo que a Rússia demanda nos foros internacionais desde pelo menos a Conferência de Segurança de Munique de 2007, ou seja, a não-ampliação da OTAN, que considera uma ameaça à sua segurança. Os russos já se ressentiam da expansão a 19 membros, pelo ingresso de Hungria, Polônia e República Tcheca, em 1999, quando eu morava lá. Hoje, são 30 membros. Nos últimos anos, essa preocupação russa tem sido dirigida à não-inclusão de Geórgia e Ucrânia na OTAN. 

Quando a senhora chegou à Rússia, havia o Mr. Yes, que era o chanceler na época, e hoje temos o Mr. No. O que mudou neste tempo? O que mudou é que a Rússia hoje, embora potência inferior à China, se sente fortalecida e se tornou mais assertiva. A Rússia acredita ter sido levada a uma posição de isolamento pelo Ocidente e manifesta ressentimento por isso. Serguei Lavrov (o chanceler conhecido como Mr. Não), até recentemente, era considerado um dos melhores chanceleres do mundo e um experiente negociador. Todo conflito armado, porém, revela um fracasso da diplomacia.     

O mundo pode viver uma nova Guerra Fria? Espero estar enganada, mas os indícios são nesse sentido.

A senhora acredita que a China irá se envolver? A China, apesar do seu relacionamento próximo com a Rússia, não dá sinais de pretender envolver-se nesse conflito, a não ser como mediadora. 

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Quando a senhora foi embaixadora, o país vivia esse clima de censura e espionagem que temos hoje com Putin? No período em que trabalhei em Moscou, o mundo era diferente. Como mencionei, havia a expectativa russa de inserção no Ocidente. 

Durante sua fase na embaixada, o Brasil que tinha uma troca comercial de 200 milhões de dólares passou a comercializar 2 bilhões de dólares com a Rússia. Hoje somos dependentes de fertilizantes vindos de lá. O mundo todo começa a perceber o quão dependente é da Rússia em trigo, fertilizantes e petróleo. Vide os preços dessas commodities. A Rússia se preparou comercialmente já visando uma guerra de poder? Não vejo como a Rússia pode não ter esperado severas sanções econômicas, que eram previsíveis e anunciadas e que, diante das sanções, não ressentiria seus efeitos econômicos. Mas a Rússia também sabia que a outra parte se ressentiria dos efeitos das próprias sanções, e talvez tenha esperado que isso levasse o Ocidente a conduzir a Ucrânia à mesa de negociações. 

Como o Brasil vai sofrer diretamente com essa questão comercial? O setor mais sensível para o Brasil é o de fertilizantes, insumo essencial para o nosso agronegócio, para o qual não há alternativas de fornecimento imediato e suficiente.  

A senhora também tem grande experiência nas questões da Agência Internacional de Energia Atômica. A senhora conta que o primeiro contato com o tema combinou com sua primeira viagem ao exterior junto com Rubens Ricupero e vocês não entendiam nada do tema. Conta um pouco essa cronologia para a gente e como a questão nuclear evoluiu ao longo dos anos. De fato, minha primeira viagem a trabalho ao exterior, pouco depois de terminar o curso do Instituto Rio Branco, foi à Conferência anual da Agência Atômica em Viena. Isso foi em 1962, em plena Guerra Fria. Desde então, o tratamento do tema pelo Brasil evoluiu muito. O Brasil aderiu ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e, em fins de 1991, celebrou o Acordo Quadripartite com a Argentina, a ABACC e a Agência Atômica, que assinei em Viena pelo Brasil. Além de embaixadora na Áustria, fui também representante permanente junto à Agência Atômica e governadora pelo Brasil no órgão máximo da Agência, a Junta de Governadores. Os temas candentes naquele momento eram Iraque e Coréia do Norte.    

Vimos hoje (na sexta-feira) o ataque russo à maior usina da Europa. Poucos dias atrás o tema Chernobyl voltou à pauta. Com a sua experiência, a senhora vê o risco de uma guerra nuclear? O risco de uma guerra nuclear tem sido, desde a Guerra Fria, um grande fator de dissuasão. Não há ganhador possível em uma guerra nuclear. Ambas as partes, OTAN e Rússia, têm plena consciência disso. 

Queria falar nesta parte final da entrevista sobre as questões das mulheres diplomatas, um assunto que lhe é tão caro. Como a senhora vê a evolução do Itamaraty na questão da mulher diplomata? As estatísticas mostram que não tem havido evolução recente. Isso é preocupante. As mulheres continuam representando menos de 25% do total de diplomatas. Creio que, hoje, representam 23%. Na classe mais graduada, de embaixadores, as mulheres não passam de 20%. No governo Temer, houve períodos em que não havia nenhuma mulher nas funções mais elevadas no Itamaraty. Há um fato positivo recente que se pode salientar. Tem havido mais mulheres indicadas para chefias de missões diplomáticas em postos na Europa e na Ásia. Antes, elas vinham sendo sobretudo indicadas para postos de menos visibilidade. 

Queria que a senhora contasse a experiência mais marcante de machismo e como a senhora vê uma mudança, ou não, no enfrentamento destas questões. Um exemplo de machismo no Itamaraty é a dificuldade enfrentada pelas mulheres para ocupar funções de mais visibilidade, que lhes deem condições de mostrar capacidade profissional.

Tem algum ponto que não perguntei, mas que a senhora gostaria de falar? Quero dizer que, apesar das dificuldades, em momento algum eu me arrependi de ter escolhido essa profissão.

Quer ler outras edições do nosso papo de domingo? Aqui estão os links:

Dora Cavalcanti: desigualdade penal está até no telefone pós ou pré-pago

Rita Almeida: “Nova fronteira do preconceito é o público acima de 75 anos”

 

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