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Maílson da Nóbrega Por Coluna Blog do economista Maílson da Nóbrega: política, economia e história

O desconforto com o novo diretor-executivo do Banco Mundial

Paulo Guedes pode estar se curvando crescentemente às indicações e pressões políticas

Por Maílson da Nóbrega - 19 Jun 2020, 18h14

A indicação do ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub para o cargo de diretor-executivo do Banco Mundial tem muito de ineditismo. Pela primeira vez, o nome foi escolhido pelo presidente da República e não pelo ministro que representa o Brasil no Board de Governadores do banco. O representante atual é o ministro da Economia, mas essa já foi atribuição de ministros da Fazenda ou do Planejamento. Outra novidade é o uso do cargo para premiar um ex-ministro que se conduziu de forma incompetente na pasta da Educação, inclusive pela dificuldade de escrever bem o português correto.

Historicamente, nas indicações para o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, o Brasil primou por escolher pessoas detentoras de elevadas credenciais para o cargo. Esse padrão também foi seguido pelos governos do PT. Dilma Rousseff indicou para o cargo o economista Otaviano Canuto, dotado de invejável currículo.

Muitos dos indicados se destacaram no cargo ou depois de exercê-los. Alexandre Kafka, por mais de três décadas no FMI, tornou-se economista respeitado em todo o mundo. Foi professor da Georgetown University. Pedro Malan e Paulo César Ximenes assumiram cargos relevantes depois de completarem seus mandatos no Banco Mundial. Malan tornou-se presidente do Banco Central e ministro da Fazenda; Ximenes foi presidente do Banco Central e do Banco do Brasil.

Weintraub vai completar o mandato, que vence em outubro deste ano. Poderá ser reconduzido para um novo mandato de dois anos. Sua indicação deverá ser aceita pelo Board, por sua condição de ex-ministro da Educação e de indicado formalmente pelo Brasil. Ele é economista graduado pela FEA/USP. Sua experiência no mercado financeiro limitou-se ao exercício de cargos de economista-chefe da Tesouraria e de diretor de Corretora, ambos no Banco Votorantim.

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A decisão sobre a aceitação de Weintraub no cargo tende a ser mera formalidade. Seu nome deve ser apoiado pelo governo americano, que detém 30% do capital votante do banco. O cargo não é relevante para o processo decisório, pois a estrutura do Banco Mundial atribui papel determinante ao staff, isto é, às equipes técnicas que conduzem os estudos e as avaliações de crédito.

Restará, tudo indica, o desconforto por sua indicação. Por exemplo, Weintraub vai conviver com o diretor-executivo que representa a China, que certamente está informado de suas deselegantes atitudes contra os chineses, imitando ironicamente seu modo de falar, com base no personagem Cebolinha, de Maurício de Souza, e de suas declarações agressivas contra a China. Conviverá também com o diretor-executivo francês, que se recordará da maneira descortês com que ele se referiu ao presidente Macron e à sua esposa. Mas dificilmente passará disso.

No Brasil, o desconforto pode traduzir-se na percepção de que Paulo Guedes se curva crescentemente às indicações e pressões políticas. Primeiro na escolha para a presidência do Banco do Nordeste e agora para a diretoria-executiva do Banco Mundial.

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