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Maílson da Nóbrega Por Coluna Blog do economista Maílson da Nóbrega: política, economia e história

Inflação do IPCA não assusta; vozes equivocadas, sim

Sistema de preços e mercado devem ajustar altas nos alimentos. Apelos patrióticos nunca integraram arsenal de combate à inflação

Por Maílson da Nóbrega - 9 set 2020, 14h39

A alta do IPCA de agosto, divulgado pelo IBGE nesta quarta-feira, 9, alcançou 0,24%, acumulando elevação de 2,44% em 12 meses. A aceleração deve manter-se em setembro, dada a continuidade de aumentos até aqui observados no item alimentação. Não é preocupante.

A maior alta ocorreu em alimentação no domicílio, que subiu 1,05%, o que reflete a forte elevação da respectiva demanda e de seus componentes estruturais. O isolamento social ditado pela pandemia aumentou o consumo de alimentos nas residências e diminuiu a frequência a restaurantes, cujos preços de seus serviços estagnaram ou caíram. 

Ao mesmo tempo, países importadores reforçaram os estoques estratégicos de alimentos, intensificando as compras externas. Isso acarretou expressiva elevação das exportações desses produtos para a China e outros países da Ásia. O mercado tende a ajustar em breve a situação. A alta dos preços cumprirá o seu papel de sinalizar a escassez. Do lado da oferta, haverá o incentivo a produzir mais em segmento de ciclo curto de colheita. Do lado da demanda, deve ocorrer redução do consumo. 

A sensação de inflação será maior do que a sugerida pelo IPCA, que considera a cesta de consumo calculada pela Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2017-2018. A pandemia mudou a cesta, dadas as alterações na demanda interna e externa. O auxílio emergencial aumentou o poder de compra de milhões de brasileiros, que passaram a consumir mais alimentos. Este ímpeto vai diminuir, mesmo se for criado o programa Renda Brasil.

Não existe, pois, risco de descontrole da inflação até porque estamos em recessão. O que preocupa são visões ultrapassadas ou equivocadas. A Associação de Procons e a OAB defenderam o controle das exportações para arrefecer os preços domésticos de alimentos. Há pressões do governo para que os supermercados reduzam seus preços. São cenas de um velho filme que não teve final feliz, como sabemos. No passado, ações como essas não impediram que o Brasil entrasse em hiperinflação.

Mais esquisito, em meio a essas demonstrações de nostalgia, foi a exortação do presidente Jair Bolsonaro aos supermercados, apelando para o patriotismo de empresários. Já se viu de tudo em artifícios para controlar a inflação, mas invocar a solidariedade dificilmente tem paralelo. Supermercados, como se sabe, constituem segmento caracterizado por forte concorrência, o que inibe a manipulação de preços. Além do mais, eles são mero intermediários entre fornecedores e consumidores. Reduzir margens com base em apelos patrióticos seria contrário às boas práticas de mercado e à sua sobrevivência.

Vozes do passado e visões equivocadas sobre o processo econômico, se vitoriosas, terminariam por prejudicar a agricultura, elo final das respectivas pressões. Justamente o setor que mais tem sustentado a atividade econômica e a solidez do balanço de pagamentos. Pode? Ainda bem que a ministra da Agricultura descartou a hipótese.

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