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O avanço dos preços aos produtores impactará mais o consumidor?

Apesar da alta nos alimentos, inflação oficial está controlada; entretanto, o IGP-DI, que mede preço no atacado e construção civil, disparou

Por Alexandre Manoel * - Atualizado em 9 set 2020, 09h54 - Publicado em 9 set 2020, 09h47

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), utilizado pelo Banco Central (BC) para medir a inflação oficial ao consumidor, subiu 0,24% no mês de agosto e acumula alta de 2,44% em 12 meses. Já o Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI), que capta preponderantemente a inflação ao produtor nos preços por atacado e na construção civil, apresentou alta de 3,87% em agosto e de 15,23% em 12 meses. Essa discrepância entre o IPCA e o IGP-DI tem chamado atenção dos analistas econômicos, especialmente pelo fato de o IPCA ser o medidor oficial do poder de compra do consumidor brasileiro, enquanto o IGP-DI representar a evolução de custos de produção de bens e serviços. Logo, a dúvida que paira é a seguinte:  esse avanço da inflação nos preços ao produtor impactará os consumidores?

Essa pergunta não possui resposta trivial. Porém, podem-se elencar respostas de curto, médio e longo prazo. No curto prazo,  pode-se afirmar que a maior variação do IGP-DI (decorrente da vultosa depreciação do real, sobretudo) já vem afetando o consumidor, especialmente por meio do aumento dos preços dos alimentos, em consequência da diminuição da oferta interna de produtos, deslocados para a exportação, em virtude da maior competitividade externa. 

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Nos últimos meses, a carestia dos alimentos pode ser inferida tanto pelo indicador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de Inflação por Faixa de Renda, que tem apontado aceleração inflacionária para todas as classes de renda pesquisadas, quanto pelos pedidos públicos do presidente Jair Bolsonaro a donos de supermercado.

Alexandre Manoel, economista do Ipea Divulgação/Divulgação

Contudo, em decorrência da baixa participação dos alimentos na composição do IPCA (cerca de 14%), tal carestia não tem impactado fortemente o termômetro oficial da inflação brasileira ao consumidor. Ademais, devido à pandemia, isolamento social e consequente recessão no período recente, os preços dos serviços têm se mostrado estáveis, impedindo maior transmissão do IGP-DI para o IPCA. Essa dinâmica econômica tem ajudado o BC na condução da política monetária, ao possibilitar sistemáticas quedas nas taxas de juros, sem deixar de atentar para o cumprimento da meta de inflação. 

No médio prazo, nos meses subsequentes, com a retomada da economia aos níveis anteriores à pandemia, naturalmente haverá maior transmissão das substanciais variações de custos trazidas pelo IGP-DI para o IPCA, o que chamará o BC a se mover. Aqui jaz o grande dilema de coordenação com o qual se deparará BC, Ministério da Economia e Palácio do Planalto.

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Se houver coordenação entre esses três órgãos, com o governo apresentando um plano de consolidação fiscal crível, recuperando a perda de  credibilidade recente da política fiscal (explicitada nos maiores prêmios de risco para carregar títulos mais longos do Tesouro Nacional e consequente redução do prazo médio de endividamento), o BC poderá continuar com sua política monetária expansionista, contribuindo para a recuperação econômica no pós-pandemia. Com isso, será mais provável haver um cenário de longo prazo em que prevalecem menor expectativa de inflação, juros menores e maior crescimento. 

Por outro lado, se não houver coordenação entre os referidos órgãos, com o governo continuando a defender um Projeto de Lei Orçamentária Anual em que não se informa, com clareza, como será atendida a demanda do Palácio do Planalto por um novo programa social (com redução de despesa obrigatória ou com aumento de carga tributária, por exemplo), então a credibilidade da política fiscal continuará a diminuir. Neste caso, o BC será obrigado a implantar política monetária contracionista, abortando perspectivas de maior crescimento no longo prazo.

Por fim, destaque-se que, mesmo em uma economia com grande capacidade ociosa, é sempre possível produzir inflação, quando as expectativas em relação à sustentabilidade da dívida pública estão desancoradas. O Brasil possui vários exemplos de estagnação com inflação (estagflação); todos esperamos ter aprendido com eles.  

* Alexandre Manoel é economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e ex-secretário dos Ministérios da Fazenda e da Economia

 

 

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