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“Nosso app não trabalha apenas com traduções. Mas com relações entre pessoas”

É o que diz Ronaldo Tenório, criador do Hand Talk, eleito como um dos melhores aplicativos sociais do mundo, e que permite o diálogo entre surdos e ouvintes.

Os alagoanos Ronaldo Tenório, Carlos Wanderlan e Thadeu Luz criaram em 2012 o Hand Talk, aplicativo de smartphone e tablet que faz a tradução digital e automática para libras, a linguagem de sinais. Ele é dedicado, obviamente, a auxiliar a comunicação entre surdos e ouvintes.

Um ano após o lançamento, o programa foi selecionado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como melhor app social do mundo, no prêmio WSA-mobile. E, em 2014, a empresa foi eleita pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como uma das dezesseis startups mais inovadoras da América Latina.

Como ainda foca apenas na tradução para o português, a ferramenta visa atingir um público bem específico: os 9,7 milhões de surdos brasileiros (sendo que 70% declaram ter dificuldade em compreender o idioma comum). Por esse viés social, no ano passado o Ministério da Educação incluiu o aplicativo em todos os tablets distribuídos na rede pública de ensino.

Além do app gratuito, a startup ainda realiza serviços pagos: tornam sites mais amigáveis aos surdos (traduzem para libras o conteúdo já publicado na página) e conduzem outros projetos na área, como totens em shoppings ou em eventos, adaptados para passar informações aos deficientes auditivos.

Em entrevista ao site de VEJA, Ronaldo Tenório, de 29 anos, conta mais sobre o Hand Talk.

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Como surgiu a ideia? Foi em 2008, durante um trabalho de faculdade. Eu cursava publicidade e o objetivo era criar um projeto que ajudasse na comunicação entre pessoas. Escolhi uma proposta para ajudar deficientes auditivos porque percebi que existia um grande empecilho para surdos e ouvintes se relacionarem e, apesar de morarem no mesmo país, eles evidentemente se comunicam de formas completamente diferentes. Procurei surdos e conversei com eles sobre isso, mas achavam impossível criar uma plataforma que resolvesse a questão em definitivo, estabelecendo contato entre qualquer pessoa com qualquer surdo. Naquela época, ninguém falava de aplicativos. Essa ideia ficou guardada em minha cabeça e, em 2012, eu, e meus sócios Carlos e Tadeu, a transformamos em realidade.

Tiveram o apoio de surdos durante o desenvolvimento? Sim, e muito. Fizemos pesquisas e entramos em contato com deficientes para mostrar o projeto. Até hoje realizamos encontros constantes, na nossa sede, para avaliarem o Hand Talk. Dentro do aplicativo temos uma área de sugestões. O contato é essencial, pois precisamos entender essa realidade, inicialmente distante da nossa. Hoje, há ainda surdos, professores e intérpretes de libras trabalhando conosco. Além disso, eu e os outros fundadores aprendemos a língua quando começamos a desenvolver o aplicativo, e hoje a usamos dentro da empresa, para treinar.

De que maneira acontece a tradução? Existem três opções. Na ferramenta de texto, basta digitar ou colar as palavras no campo determinado para ver a tradução. Também é possível realizar o mesmo por áudio, clicando no ícone do microfone e aguardando para ver a tradução do intérprete virtual. Outra opção é fotografar ou escolher alguma foto com texto legível, recortar esse trecho e ver o significado.

Há projetos de outras línguas para o Hand Talk? Atualmente, só fazemos a tradução do português para libras, mas temos a ideia de incluir outros idiomas, tanto de língua de sinais, quanto os falados. Afinal, são cerca de 300 milhões de deficientes auditivos no planeta. É um problema global, não local.

Por que há tão poucos tradutores digitais para deficientes auditivos? É um problema desconhecido e, por isso, pouco abordado. Quase todas as pessoas com quem eu converso acham que os surdos leem normalmente. Não é verdade. A libras tem uma estrutura muito diferente do português.

Facilitar a comunicação entre surdos e ouvintes é um bom negócio ou uma boa ação social? Uma vez, recebi uma mensagem de um pai falando que, depois de usar o Hand Talk, conseguiu se aproximar do filho, porque antes eles tinham dificuldade de comunicar. Não trabalhamos simplesmente com traduções. Mas ajudando nas relações interpessoais. É isso o que nos move.