Nerds já têm almanaque para chamar de seu

'Enciclonérdia' reúne referências obrigatórias a aficionados por conhecimento

“O falso nerd não dura uma semana dentro de uma turma autêntica. Ele pode até tentar, mas é pego no primeiro deslize.” A declaração é da escritora Rosana Rio, que assina com o irmão Luiz Flávio Fernandez a Enciclonérdia – Almanaque de Cultura Nerd (Panda Books, 248 páginas, 39,90 reais). O livro reúne as referências que todo nerd de verdade deve conhecer para não ser confundido com um ser humano normal. E não é fácil fazer parte dessa turma. É preciso dominar (ou ao menos pesquisar em doses obsessivas) assuntos tão diferentes quanto física quântica, cinema, HQs, seriados de TV, dispositivos eletrônicos e literatura, entre outros.

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Segundo os autores, o que distingue um nerd, mais que qualquer signo externo, como um tipo de roupa ou corte de cabelo, é a sede por conhecimento. “Eles são muito curiosos. Caso não conheçam algum assunto, correm para a internet ou uma biblioteca em busca de informações. Eles querem entender o mundo”, diz Rosana.

Duas razões motivaram os escritores a investir três anos na pesquisa da Enciclonérdia. A primeira: ambos são nerds de carteirinha. A segunda foi uma espécie de missão: despregar do nerd as costumeiras chacotas e também a pecha de ermitão que vive desconectado de seu tempo e das pessoas que o cercam. “O sucesso de muitos nerds, seja nos negócios ou na área de tecnologia, vem mudando a percepção que o mundo tem acerca de quem são eles e o que eles fazem. Eles são pessoas muito divertidas e capazes”, diz Luiz Flávio.

De fato, a visão sobre o seleto grupo (que a dupla de autores sempre identifica como eles) mudou. Em geral, atribui-se tal mudança ao sucesso descomunal de figuras como Bill Gates e Steve Jobs, criadores, respectivamente, das gigantes Microsoft e Apple – Mark Zuckerberg, um “nerd-master”, curiosamente não recebeu um verbete no livro. É uma espécie de revanche dos introspectivos CDFs (os nerds da pré-história) sobre os homens comuns. Sem chefiar equipes esportivas na escola ou conquistar todas as garotas do pedaço, eles se enfurnaram em suas garagens (uma imagem tipicamente nerd) e dali saíram com ideias e produtos que literalmente revolucionariam a maneira como seus contemporâneos vivem. “Steve Jobs figura, ao lado de Bill Gates, como a personificação do sucesso nerd”, diz o verbete do criador do iPhone e do iPad.

Jobs e Gates eram figurinhas marcadas para aparecer em um livro como a Enciclonérdia. O mesmo vale para verbetes como Star Wars, Sabre de luz, Google, Arquivo X. Mas os autores reinvindicam a inclusão de outros nomes menos óbvios no time, caso do grego Arquimedes (século III a.C.), misto de matemático, físico e inventor, do naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882), criador da teoria da evolução biológica sintetizada em A Origem das Espécies, e até do escritor brasileiro Monteiro Lobato (1882-1948), descrito como um “nerd pioneiro”. Lobato nerd?

Eis as razões apresentadas pela Enciclonérdia: Lobato dominava vários idiomas, verteu para o português obras clássicas e de aventura da literatura mundial, revolucionou o mercado editorial nacional e quis procurar petróleo no Brasil, um empreendimento improvável na década de 1940. Mas aqui está, segundo o livro, a prova definitiva da nerdice do escritor: ele usava as iniciais “JBML” (José Bento Monteiro Lobato). “Todo nerd que se preza tem um nick”, diz o texto. “Essas grandes figuras do passado fazem parte do time porque eram aficionados por conhecimento. Só não eram identificados pelo termo ‘nerd'”, diz Rosana.

A estrutura da obra lembra muito a dos recentes almanaques sobre curiosidades de décadas recentes, que lhes conferem uma aura nostálgica e cult. Os verbetes são englobados em 15 categorias, como brinquedos, cartuns, ciência e tecnologia, literatura, filmes e assim por diante. “A lista cresceu tanto que precisamos dar um basta”, afirma Rosana. O projeto agora deve migrar para o mundo digital, com a criação de um site e até aplicativos para tablets e smartphones. Mais nerd, impossível.

Recentemente, simpatizantes da causa ao redor do mundo adotaram 25 de maio como Dia do Orgulho Nerd. Originalmente, a data era conhecida como Dia da Toalha, uma homenagem ao livro Guia do Mochileiro das Galaxias, do inglês Douglas Adams, que elege a peça como item fundamental para os viajantes espaciais. A obra é um clássico nerd, recheado de piadas científicas. Virou verbete da Enciclonérdia, é claro. No dia de comemoração, os autênticos nerds devem, onde quer que estejam, portar uma toalha como símbolo de simpatia a um modo de vida. Agora, podem também carregar o seu próprio almanaque.