Exclusivo: A busca da Amazon pelo papel digital

VEJA visitou o reservado laboratório da Amazon onde se estuda como as inovações contemporâneas impactam a forma de ler e escrever e se projetam equipamentos para o futuro, que já não dura muito tempo. É uma evolução em marcha ininterrupta no próprio presente

Nosso padrão de excelência é o papel. Queremos imitá-­lo”, diz o inglês Chris Green, vice-presidente de design industrial da Amazon, ao falar de seu trabalho no Lab126, o laboratório da companhia, onde se estuda como os dispositivos eletrônicos estão transformando a forma como lemos e escrevemos na era digital. Ao mesmo tempo em que pronuncia sua máxima, Green exibe um papel em formato A4 na mesa, dobrado como se fosse um envelope. Ao abri-lo, estão lá todos os componentes do mais recente modelo do e-reader da marca Kindle, o Voyage: chips, a bateria, um modem. Explica Green: “A estrutura tem de caber no A4 para nos motivar não só a atingir a finura de um papel, como a simulá-lo. Afinal, é um objeto quase sem peso, durável e adaptável a diferentes tipos de luz e ambiente. Queremos atingir essas mesmas características, adicionando as vantagens proporcionadas pelas novas tecnologias”. Quais seriam os benefícios disso? O principal deles é ter no bolso, em um aparelho de 180 gramas, uma biblioteca digital com capacidade de armazenar milhares de obras. A obsessão da Amazon é que um dia caibam nele todos os 38 milhões de títulos do acervo da Biblioteca do Congresso americano, a maior do planeta, além de revistas, jornais e outros tipos de conteúdo. Ah, claro – e é mais do que um alento poder ler tudo isso deitado na cama, segurando o aparelho com uma só mão, virando páginas com o polegar e tendo uma luz de tela adaptada para o escuro, para não incomodar alguém que possa estar dormindo bem ali ao lado.

Não se trata de sonho. Parte desse futuro já existe no presente. Noutras palavras, o futuro não dura muito tempo. Para o que ainda lhe escapa, a Amazon corre contra o relógio digital. E investe um valor jamais revelado. Mas dá para estimá-lo: é gigantesco. O Lab126 – o número faz referência à primeira e à última letras do alfabeto – ocupa um prédio de sete andares em Sunnyvale. Está no Vale do Silício, a pouco mais de 1  350 quilômetros da sede da empresa, em Seattle. No laboratório, quase tudo é tratado com sigilo. Lá não podem entrar nem funcionários da companhia que pertençam a outras divisões. Trabalham no Lab126 engenheiros, designers, médicos e pesquisadores de inúmeras áreas, que realizam experiências com voluntários e testam os dispositivos de leitura digital. Para tanto, eles se apoiam no uso de máquinas de alta tecnologia, capazes de radiografar minuciosamente hábitos de leitura – para, depois, adaptar o que descobrem aos modelos de e-reader da Amazon.

“Divido essa parte do laboratório em três campos: o mecânico, o ambiental e o eletrônico”, explica o inglês Patrick Tang, vice-presidente da companhia, responsável pela coordenação dos testes de produtos como o Kindle, a central de entretenimento Echo (um totem que opera como um assistente virtual que responde a comandos de voz) e o tablet Fire (um fracasso, cujas vendas foram abaixo da expectativa). As experiências são realizadas em uma série de salas repletas de inusitados aparelhos, como o que é dotado de um fino bastão que simula a pressão do dedo humano para checar quanto, e até quando, um dos gadgets da marca aguenta ser “clicado”. “Não se trata apenas de comprovar se o que fabricamos é resistente”, garante Tang. “Adaptamos o que criamos às demandas de usuários”, completa.

A essa frente, soma-se o empenho de outro setor do Lab126, onde se realizam as experiências com leitores. “Basicamente reunimos pessoas para ler, muito e de diversas formas, conteúdos variados, em uma sala confortável”, diz o americano Charlie Tritschler, vice-presidente responsável por gerenciar os produtos da Amazon. Os voluntários são monitorados por meio de câmeras e sensores ocultos. Detecta-se desde como os indivíduos fazem para virar as páginas em um livro até a maneira como movimentam seus olhos e suas mãos.

Foi nessa sala de leitura que a Amazon descobriu, por exemplo, que pessoas (destras ou canhotas) trocam de mão um livro, ou um dispositivo de leitura, a cada dois minutos – embora nas pesquisas rotineiras jurassem que só o seguravam com a mão de maior habilidade, ou com ambas. Isso levou a empresa a posicionar botões de troca de páginas em ambas as laterais do Kindle. Contudo, a tecla cuja função é passar páginas para a frente é bem maior que a de voltar. Por quê? Em 80% das vezes, os leitores querem ir adiante com o livro, não retroceder. Baseada nesse tipo de achado, a Amazon desenvolveu recursos para suprir o que querem os usuários. Por exemplo, a ferramenta virtual X-Ray, pela qual, ao pressionar com o dedo o nome do personagem de uma obra que se está lendo, se ativa um guia sobre quem ele é, o que pensa etc. É solução útil durante leituras longas, de sagas épicas, repletas de tramas, como o clássico Odisseia, do grego Homero.

O Lab126 foi criado em 2004 para iniciar o desenvolvimento do e-reader Kindle, lançado três anos depois – estima-se que já tenham sido vendidos 80 milhões de unidades do modelo, gerando um faturamento anual de 5 bilhões de dólares. Conta-se que o CEO Jeff Bezos, fundador da empresa, comandou uma equipe de funcionários encarregados de construir o melhor aparelho de leitura digital antes que a Apple e o Google os ultrapassem na disputa. Ele teria ordenado: “Prossigam como se nossa missão fosse tirar o trabalho de todos os que comercializam livros físicos”.

É curioso como a empresa que procura reinventar a leitura também é tida como inimiga mortal por muitas representantes tradicionais do setor livreiro. O grupo francês Hachette e o americano Simon & Schuster chegaram a protagonizar batalhas contra a Amazon, alegando que ela controlaria os preços e repassaria valores irrisórios às editoras por e-book vendido. No fim, ambos tiveram de ceder, e acabaram por firmar acordos com a rival. Hoje, a Amazon reina no mercado, vendendo, por meio de seu site (em meio a vários itens de outros tipos), 40% dos livros físicos comprados nos EUA e dois em cada três e-books.

“O objetivo é auxiliar escritores, leitores e editores a vender mais”, assegura Tritschler, da Amazon. Para ele, livros físicos não têm concorrido de igual para igual com outros passatempos modernos, “como o Facebook, o Twitter, os games de smartphone”. Segundo Tritschler, “temos de entender que agora a literatura precisa disputar espaço com essas atrações chamativas, e o livro digital é o meio para isso”. De acordo com estudo da Amazon, donos de e-readers acabam por ler três vezes mais do que quem se atém às obras impressas. Mesmo assim, aposta-se em um futuro no qual os livros físicos e os virtuais conviverão pacificamente.

Há, porém, quem não se entusiasme com o advento da leitura digital. Conforme a neurocientista americana Maryanne Wolf, da Universidade Tufts, “estudos indicam que o ambiente digital impulsiona o cérebro a processar quantidades enormes de informação e, assim, a ler rápido e superficialmente”. Uma pesquisa realizada em 2013 analisou a questão ao pôr 72 alunos de ensino médio para ler um texto de 1 500 palavras. Metade deles realizou a tarefa em um computador, enquanto a outra metade fez o mesmo em papel. Depois, todos foram submetidos a uma prova sobre o conteúdo – e os leitores do texto impresso se saíram melhor.

Defensores do hábito digital, entretanto, alegam que o ser humano saberá se adaptar. Vale lembrar que esta não é a primeira vez que a leitura, em si, é posta em dúvida. No século IV a.C., quando a escrita começava a proliferar pela Grécia Antiga, o pensador Platão declarava, reproduzindo o que defendia seu mentor, Sócrates: “Esta invenção vai produzir esquecimento na consciência daqueles que aprenderem a usá-­la”. É extraordinário que só saibamos o que ele pensou porque sua história foi registrada por escrito. Hoje, talvez tenhamos dificuldade de lidar com a literatura digitalizada. Mas há quem não veja nisso um problema. Como o bebê de um vídeo que viralizou no YouTube. A menina, já acostumada a navegar com seus dedinhos pelas telas de tablets, demonstrou dificuldade em folhear páginas impressas. As próximas gerações, portanto, deverão achar uma bobagem essa discussão de como letras digitais podem prejudicar o cérebro – assim como hoje não se negam as vantagens da leitura, tão criticada por Platão, há mais de 2 000 anos.

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