Uso de droga antiepiléptica na gravidez eleva o risco de autismo nos bebês

Segundo estudo britânico, o valproato de sódio, um dos medicamentos mais comuns para epilepsia, aumenta a chance de o bebê apresentar problemas neurológicos durante a infância

Um estudo britânico descobriu que mulheres que fazem uso, durante a gravidez, de valproato de sódio, um dos medicamentos mais comuns para tratar a epilepsia, apresentam um risco maior de ter filhos com autismo e outros problemas associados ao desenvolvimento neurológico. A pesquisa, desenvolvida na Universidade de Liverpool, na Grã-Bretanha, foi publicada nesta quarta-feira no periódico Journal of Neurology Neurosurgery and Psychiatry, que faz parte do grupo British Medical Journal (BMJ).

Opinião da especialista

Elza Márcia Yacubian Neurologista, chefe do setor de epilepsia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro da Academia Brasileira de Neurologia

“Essa relação já é conhecida entre os médicos. É preciso lembrar que quase todos os medicamentos provocam algum efeito adverso em grávidas, não é o caso somente do valproato de sódio.

O problema é que o valproato de sódio é bastante utilizado por pessoas com epilepsia, e a paciente não deve, em hipótese alguma, deixar de fazer uso desse remédio, inclusive caso venha a engravidar. Isso porque ela ficaria mais propensa a ter crises, que representam um risco ao bebê.

Diante dos resultados de estudos que mostram os efeitos adversos de drogas antiepilépticas entre grávidas, nós, como médicos, devemos explicar todos os riscos que pacientes com epilepsia correm ao engravidar. Explicamos com detalhes as vantagens e desvantagens, e ela deve fazer uma opção.

A paciente nunca deve deixar de tomar o remédio, e o médico nunca deve aconselhá-la a não engravidar.”

Segundo os autores do trabalho, diversos estudos anteriores já haviam encontrado relação entre o contato de fetos com drogas antiepilépticas e a malformação congênita, inclusive entre o próprio valproato de sódio e danos às funções cognitivas da criança. Com o objetivo de aprofundar os conhecimentos sobre o assunto, esses pesquisadores compararam a prevalência de distúrbios neurológicos em crianças que foram expostas, ainda no útero materno, a diferentes drogas antiepilépticas. Esses problemas podem incluir, além de autismo, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e dispraxia, uma condição que prejudica a coordenação motora da criança.

No estudo, a equipe, coordenada por Rebecca Louise Bromley, do Departamento de Farmacologia Clínica e Molecular da Universidade de Liberpool, selecionou 528 crianças nascidas na Inglaterra entre 2000 e 2004. Entre as mães desses jovens, 243 tinham epilepsia, sendo que 209 fizeram uso de drogas antiepilépticas durante a gravidez – os medicamentos mais usados eram o valproato de sódio e a lamotrigina.

Os pesquisadores avaliaram o desenvolvimento físico e intelectual das crianças quando elas tinham um, três e seis anos. Eles também pediram às mães que elas relatassem se os seus filhos precisaram passar por consultas médicas devido a problemas de comportamento, de desenvolvimento, educacionais ou de saúde.

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Prevalência – Segundo os resultados, a prevalência de distúrbios neurológicos entre crianças que tinham mães epilépticas foi de 7,4% – entre o restante das crianças, essa taxa foi de 1,8%. Além disso, entre as crianças cujas mães fizeram uso de drogas antiepiléticas na gravidez, o maior risco de problemas neurológicos foi observado quando a grávida tomou valproato de sódio, tanto isoladamente quanto combinado com outro remédio. O risco de desordens neurológicas chegou a ser dez vezes maior se comparadas as crianças cujas mães fizeram uso de valproato de sódio na gravidez aos filhos de mulheres que não tinham epilepsia.

Segundo os autores dessa pesquisa, esses resultados são preliminares e devem ser confirmados em estudos maiores. No entanto, eles advertem que mulheres com epilepsia que desejam engravidar devem ter acesso, por meio de seu médico, às informações sobre os riscos dos medicamentos. Assim, caberá a elas tomar uma decisão sobre a gravidez. “Grávidas que fazem uso dessa droga devem ser monitoradas. Mas gestantes não devem simplesmente parar de tomar o medicamento por medo de prejudicar o desenvolvimento da criança”, escreveram os pesquisadores.