Parto domiciliar: quando o risco não é necessário

A prática não é recomendada por conselhos de medicina, já que mulheres e crianças estão expostas a complicações que podem ser graves

“Assumir riscos alegando uma medicina humanizada é uma involução. A medicina bem feita vai da relação entre médico, gestante e equipe envolvida. E é desse relacionamento que se dá a humanização do parto”

Silvana Maria Figueiredo Morandini, obstetra conselheira do Cremesp

O parto domiciliar já foi a opção mais segura para as mulheres. Na Europa de até meados do século 19, somente as mães muito pobres tinham filhos nos hospitais, bem diferentes dos que conhecemos hoje. Os médicos de então não conheciam conceitos – nem a importância – de procedimentos como a assepsia e era comum que manipulassem enfermos graves, cadáveres e logo depois realizassem um parto. A roupa de cama não era sequer trocada. Nessas condições, os índices de mortalidade em geral e também dos recém-nascidos eram altíssimos. Esse tempo, porém, pertence a um passado distante. Depois da revolução pela qual a medicina passou no século 20, hospitais tornaram-se lugares mais seguros e indicados não só para tratamento de doentes, como para o nascimento de crianças. É regra que, dadas as condições, não faz mais sentido realizar um parto dentro casa, sujeito a problemas com consequências potencialmente desastrosas que poderiam ser resolvidas em um hospital. Regra, no entanto, que algumas mulheres moradoras de grandes centros urbanos, com todas as condições de usufruir desses avanços da medicina, questionam e ignoram. Essas mulheres defendem o parto à moda antiga, dentro de casa.

O que a grande maioria dos especialistas argumentam é que, hoje, quando há complicações, médicos neonatais e obstetras têm instrumentos e procedimentos à mão para garantir a boa saúde de mãe e filho. “Mesmo se o parto domiciliar começa e caminha bem, uma intercorrência pode acontecer a qualquer minuto, nunca há 100% de garantia. Se acontecer algo com o bebê no último segundo do parto, ele precisará ser socorrido rapidamente”, diz José Fernando Maia Vinagre, corregedor e coordenador da Comissão de Parto Normal do Conselho Federal de Medicina (CFM). Todas essas vantagens desaparecem se mãe e filho estão em casa, e principalmente, longe de um hospital. Em casos de emergência, a distância da casa da parturiente ao hospital pode ser decisiva para a vida de ambos. “Como há riscos envolvidos, que costumam ser baixos, mas iminentes, o CFM não dá aval a essa prática”, diz Vinagre.

No Brasil, o parto domiciliar não é recomendado pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), por causa do risco desnecessário à mulher e ao bebê. “Com toda a estrutura disponível, considero o parto em casa um retrocesso. A bandeira que precisa ser levantada é a da garantia de hospitais de ponta, cada vez mais preparados para atender à gestante”, diz Vera Fonseca, da Comissão para o Parto Normal do CFM e secretária executiva adjunta da Febrasgo.

Publicada em novembro de 2004, a resolução nº 111 do Cremesp determina que o parto deve ser realizado em uma instituição hospitalar dotada de infraestrutura – o que naturalmente não costuma acontecer nos domicílios. Segundo Silvana Maria Figueiredo Morandini, obstetra conselheira do Cremesp, os médicos que desrespeitam a resolução do Conselho estão agindo de maneira antiética. “Assumir riscos alegando uma medicina humanizada é uma involução. A medicina bem feita vai da relação entre médico, gestante e equipe envolvida. E é desse relacionamento que se dá a humanização do parto”, diz.

Dados mais recentes do Ministério da Saúde apontam que em 2009 foram feitos quase dois milhões de partos pela rede pública. Desses, 65% foram partos naturais e apenas pouco mais de 30.000 foram feitos em casa – planejados ou não. De acordo com Eduardo Souza, obstetra e coordenador científico de ginecologia e obstetrícia do Hospital São Luiz, o parto normal tem índices de complicação relativamente baixos. “As chances de complicar são de, em média, 1%. O problema é que uma vez que acontece uma complicação, mulher e criança estão expostas a riscos que podem ser graves”, diz.

Riscos – Entre as complicações que podem ocorrer durante o parto normal, colocando a saúde da mulher em perigo, estão: retenção placentária, o que pode levar à hemorragia; ruptura uterina, que pode acontecer durante a gravidez ou logo em seguida ao parto; ruptura de colo; atonia uterina, quando o útero não se contrai de maneira regular, chegando a causar hemorragia; e laceração de partes frágeis do corpo, que podem levar a hematoma anal e na bexiga, por exemplo. Para o bebê, o risco principal é a falta de oxigenação, que pode causar problemas posteriores sérios como paralisia cerebral e outras complicações. Todas essas intercorrências podem ser contornadas a contento em hospitais e centros aparelhados, quando há a presença de profissionais capacitados.

Em um estudo publicado no American Journal of Obstetrics & Gynecology, conceituado periódico médico internacional, o obstetra Joseph Wax e equipe demonstraram que a taxa de mortalidade neonatal dos partos domiciliares é até três vezes maior que a dos realizados em hospitais. Em nota, o Colégio Americano de Ginecologia e Obstetrícia salienta os dados da pesquisa de Wax para reforçar sua posição em não recomendar o parto domiciliar – em função, mais uma vez, dos riscos.

Para as mulheres que decidem, ainda assim, dar à luz à moda antiga, o Colégio orienta: é necessário um pré-natal bem feito e com acompanhamento adequado, infraestrutura mínima, condições de transporte de urgência e preparo do profissional que vai acompanhar o parto, seja ele uma enfermeira ou um médico. No Brasil, a realização do parto normal pode também ser realizado por enfermeiros com especialização em obstetrícia, conforme previsto na lei nº 7498/1986 e regulamentado pela entidade de classe.

De acordo com Antônio Júlio de Sales Barbosa, obstetra do Hospital Santa Catarina, hoje já é possível que o parto seja feito de formas mais humanizadas dentro dos hospitais. Em alguns centros há salas preparadas especialmente para isso, com treinamento adequado da equipe e maior respeito às necessidades e vontades da gestante. “É ela quem escolhe a posição em que deseja dar à luz ou mesmo se quer ou não tomar anestesia no parto normal. Cada vez mais estamos nos preparando para que a mulher tenha voz ativa.”