“Pais tendem a achar que há algo errado com seus filhos, mas não há”, diz autor de guia sobre adolescentes

Pediatra acredita que a aproximação dos jovens e seus pais é essencial para um crescimento saudável e sem desvios para comportamentos de risco

Paulo César Pinho Ribeiro, um dos autores do livro Filhos – Adolescentes de 10 a 20 anos de idade, da Sociedade Brasileira de Pediatria, trabalha há 22 anos como especialista em medicina da adolescência. Em seu consultório, escuta preocupações bastante variadas dos pais, que vão desde o consumo de substâncias ilícitas até o medo relacionado à sexualidade dos filhos. Em entrevista ao site de VEJA, diz que a aproximação dos jovens e seus pais é essencial para um crescimento saudável e sem desvios para comportamentos de risco, e que muitas vezes os pais inquietam-se sem razão.

Qual a importância do livro? Este é o primeiro que abrange questões de saúde e comportamento com linguagem simples e lançado pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Há muita coisa que ocorre no período da adolescência que faz com que os pais achem que há algo errado ou patológico. Mas que na verdade, do ponto de vista médico, não há. Eles acham, por exemplo, estranho que seus filhos valorizem demais a turma, que tenham mudanças bruscas de humor, que questionem alguns aspectos da vida, que detestem – sem motivo aparente – a família. Tudo isso é comum. Há também muitas dúvidas em relação à sexualidade. Por isso, é importante passar essas informações aos pais através de um livro.

Por que é importante ir ao médico nessa idade? Somente 42% dos adolescentes são vacinados. É preciso ampliar este número e não podemos deixar essa questão nas mãos dos próprios jovens. Da mesma forma que os pais têm cuidado com os filhos pequenos, eles precisam ter com os adolescentes. O problema é que eles nem vão ao médico. Nessa idade, quase não têm mais febres, cólicas, etc. Somente 30% das queixas são relacionadas à saúde física, o restante de 70% são queixas psicossociais, que precisam ser discutidas e orientadas pelo médico.

A pediatria está muito ligada à prevenção. Como o pediatra ajuda os jovens nesse sentido? Em vários quesitos, desde orientações comportamentais, evitando comportamentos de risco, como também na prevenção da obesidade, por exemplo. Uma pesquisa feita com 29.000 crianças entre 9 e 16 anos mostrou que quase 50% deles tinha colesterol alto. Se fosse feito um trabalho preventivo, poderia ser diferente. É preciso explicar qual alimento vai deixar o colesterol ruim e qual a importância de deixar o sedentarismo. Tudo isso é muito importante.

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SÍNDROME DA ADOLESCÊNCIA NORMAL

Os pediatras criaram o termo para definir certas atitudes “normais” dessa faixa etária, como a contestação constante aos pais, atos arriscados e pequenas transgressões, que precisam ser acompanhadas com mais atenção. O nome evita que comportamentos até certo ponto comuns sejam tratados com excesso, mas também impede que seja adotada uma postura liberal, de que tudo não passa apenas uma “fase”, indicando que é necessário uma visita ao médico como forma de diferenciar um comportamento normal de um patológico.

O livro cita a síndrome da adolescência normal (veja quadro ao lado). Como os pais podem identificar se esse comportamento ultrapassa o limite e se torna preocupante? Se um jovem chegar em casa e quiser ficar sozinho um pouco, é normal. É uma fase em que eles precisam viver o momento de intimidade. Agora, uma pessoa que faz isso, mas abandona todos os hábitos de rotina, pode ter problemas. Se o desejo de ficar sozinho reflete no cuidado que o adolescente tem consigo mesmo ou no desempenhos escolar, é preciso se preocupar. A agressividade também é comum nessa fase. É até importante para crescer e vencer as dificuldades. Agora, uma pessoa que é sempre agressiva, bate nos irmãos, ou é cruel com os animais, pode ter distúrbios de comportamento.

Como os pais devem se aproximar dos filhos? Antes de ser melhor amigo, o pai tem que ser pai. É preciso exercer a autoridade primeiro e depois ser melhor amigo. Ele deve dizer ‘não’ quando for necessário e ‘sim’ quando for possível. Para temas como a sexualidade, os filhos costumam ser resistentes em conversar sobre o assunto com seus pais. Por causa disso, muitas vezes os pais deixam de levá-los ao médico, que, em alguns casos, seria o melhor profissional para falar disso.

O livro também trata da homossexualidade. Essa é uma preocupação dos pais? É uma grande preocupação. No livro, deixamos claro que não é possível caracterizar alguém como homossexual por conta da escolha de roupas ou acessórios. A forma como o jovem se veste às vezes está muito mais ligada a tribos. Agora, se houver um interesse por pessoa do mesmo sexo, ninguém poderá mudar isso. É importante que haja um acompanhamento do médico e às vezes do psicólogo para ajudar nos conflitos que podem surgir a partir disso. E para evitar que a criança sofra com rótulos.

Quais mitos são abordados no livro? Falamos sobre as substâncias esteroides, que dizem melhorar o desempenho do atleta. Nós não aconselhamos o uso, que pode trazer diversas conseqüências. Os pais também tem muitas dúvidas sobre a gravidez, a partir de que idade ela pode ocorrer. Também acreditam em mitos sobre a relação da masturbação e o aparecimento de espinhas, por exemplo.

Em resumo, que dicas o senhor daria para os pais passarem tranquilamente por essa fase? Um grande conselho é investir no diálogo. É preciso levar em conta tudo que o seu filho está dizendo. Muitos pais com filhos nesse período têm dificuldades em entender e passar por esse processo. E isso ocorre porque muitas vezes não são bem orientados.