Os filhos do crack

VEJA acompanhou durante quase meio ano a luta de Ligia, usuária de droga e mãe de um bebê de 7 meses, contra o vício que já está em 1 milhão de lares brasileiros

De poetas a biólogos evolucionistas, não faltaram ao longo da história tentativas de explicar, quantificar e enaltecer o sentimento mais nobre e inquebrantável do ser humano. O amor de mãe desafia as forças destruidoras da guerra, da miséria e do preconceito. Prontifica a mulher ao autossacrifício e lhe dá coragem redobrada quando se trata de salvar os filhos. Se há objetivo no amor, o materno é todo voltado para a proteção da prole. O instinto impele a mãe a ficar do lado dos filhos – para tê-los em seus braços, para assegurar-lhes as condições para crescer felizes e em segurança. O que dizer do surgimento de uma força que se tem mostrado potente o bastante para superar até o amor de uma mãe pelo próprio filho? Essa força existe, só pode ser descrita como infernal e está se espalhando pelo Brasil com o nome de crack.

Essa droga barata, feita de pasta-­base de coca, bicarbonato de sódio e amônia, quando inalada, leva à produção no cérebro de quatro vezes mais dopamina (um hormônio que dá sensação de prazer) do que a cocaína. Quatro em cada dez dependentes de crack têm endereço fixo. Não são, ainda, parte daquela multidão de andarilhos que vemos nas ruas, pele e osso, maltrapilhos, com o olhar petrificado. O crack está destruindo famílias, jogando no lixo décadas de estudo de suas vítimas e produzindo uma geração dickensiana de órfãos de pais vivos, abandonados em “lares sociais” para ser criados pela caridade dos outros. Muitos são filhos da classe média que, não fosse pelo crack, estariam de mãos dadas com o pai ou a mãe indo para a escola ou aprendendo a andar de bicicleta nos parques nos fins de semana.

Oito em cada dez crianças abandonadas são filhas de dependentes químicos. Milhares de brasileiras engravidaram sob o efeito do crack, gestaram seus bebês drogadas e agora lutam contra o vício para não perder seus filhos. São mulheres como a ex-estudante de pedagogia Ligia Carvalho Fiochi, de 34 anos, de São Paulo, cuja história é contada nestas páginas. A reportagem de VEJA acompanhou Ligia durante pouco mais de cinco meses, começando três meses depois de ela dar à luz Lethicia. O embate entre o desejo de cuidar da filha e a vontade por diversas vezes incontrolável de usar a droga que a afasta do instinto materno é uma síntese do que enfrentam diariamente muitas outras mães brasileiras.

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