Felicidade é maior aos 20 anos, diz economista da ONU

Laços sociais e um bom ambiente de trabalho ajudam a reduzir a tristeza na meia-idade

O economista canadense John Helliwell é um dos coordenadores do relatório anual da ONU sobre felicidade, que reúne dados de 155 países. Professor emérito na Universidade de British Columbia, no Canadá, e conhecedor de várias pesquisas empíricas sobre o tema, ele deu a seguinte entrevista por telefone para VEJA:

 

Em que idade as pessoas são mais contentes? Por volta dos 20 anos. Em seguida, entre os 30 e os 50 anos, a felicidade cai. Na meia-idade, homens e mulheres estão mais ocupados. Precisam cuidar do trabalho e da família. Muitas coisas acontecem ao mesmo tempo e há mais responsabilidades. Dependendo do país, a curva pode subir de novo em uma idade mais avançada. Ao ficarem mais velhas, as pessoas se tornam mais realistas e deixam de ter sonhos impossíveis. Com menos expectativas, elas se frustram menos. Além disso, ao reconhecer coisas ruins nelas mesmas e tirar lições disso, elas podem viver melhor o tempo que ainda lhes cabe.

Ao ficarem mais velhas, as pessoas se tornam mais realistas e deixam de ter sonhos impossíveis. Com menos expectativas, elas se frustram menos

John Helliwell

O que se pode fazer para aliviar a crise da meia-idade? Isso varia muito de acordo com a qualidade dos laços sociais. Pessoas que são casadas com aqueles quem elas consideram ser seu melhor amigo não sofrem tanto nesse período. Em dupla, eles podem lidar juntos com as pressões do dia a dia. Nos Estados Unidos, também percebemos que os indivíduos que consideram seu superior imediato um parceiro, e não um chefe, também enfrentavam melhor essa fase. Nossa conclusão então é que há mais bem-estar se há liberdade no local de trabalho, se o ambiente é menos autoritário e mais divertido.

Segunda-feira é dia mais chato da semana? Pesquisas já mostraram que os americanos tendem a ser mais felizes nos finais de semana do que nos dias úteis. O interessante é que essa diferença é menor se as pessoas têm um bom clima no ambiente de trabalho, como afirmei anteriormente. Além do mais, se a profissão permite uma vida social de segunda a sexta, então elas são felizes tanto nos dias úteis como nos sábados e domingos.

John Helliwell, economista da Universidade British Columbia e um dos coordenadores do estudo de felicidade da ONU

John Helliwell, economista da Universidade British Columbia e um dos coordenadores do estudo de felicidade da ONU (divulgação/Divulgação)

Quais são as profissões mais felizes? Na maioria dos países, aqueles empregos considerados de colarinho branco, de escritório, geram maior alegria do que aqueles de colarinho azul, que geralmente usam uniforme, como os operários de fábricas. Aqueles que fazem mais tarefas manuais são mais tristes. Talvez isso aconteça porque muitas dessas ocupações são severas com o corpo e afetam o espírito. O problema, então, provavelmente está nas condições de trabalho.

Trabalhar demais é algo ruim? A jornada semanal, em geral, é de 40 horas no mundo. Alguns estudos já mostraram que ir muito além disso deixa as pessoas menos felizes. Paradoxalmente, trabalhar muito menos também tem esse efeito. Muitos dos que aparecem assim nas estatísticas possuem um emprego parcial ou temporário, e não estão contentes com essa situação. Mas tudo também depende da qualidade do emprego. Para alguém com uma missão desafiadora e divertida, ficar mais horas nisso pode ser algo que o torna mais feliz. Ao contrário, se o trabalho é chato e tedioso, quanto mais horas ele exigir, pior será.

Para alguém com uma missão desafiadora e divertida, ficar mais horas nisso pode ser algo que o torna mais feliz.

John Helliwell

O que um país precisa esbanjar para figurar no topo do ranking de felicidade? Nós levamos em conta seis fatores principais. Para cada nação, calculamos a renda per capita e a possibilidade de se levar uma vida saudável. Além disso, avaliamos os determinantes sociais. Perguntamos às pessoas se elas têm alguém com quem contar em tempos difíceis, medimos a confiança que elas têm nas instituições e o senso de liberdade e de generosidade em cada sociedade. Desde que começamos a fazer esse relatório, em 2012, quatro países sempre se destacaram nesses critérios: Noruega, Dinamarca, Suíça e Islândia.

O que atrapalha a posição de um país? O que descobrimos olhando as nossas estatísticas é que o desemprego afeta muito o ânimo das pessoas. Não é sem motivo que os países que estão no topo da lista tendem a ter programas melhores para encurtar os períodos de desemprego e para abrir chances aos desocupados. A fome também importa. Quanto mais gente responde afirmativamente à pergunta se passou fome nos últimos trinta dias, pior o país fica na avaliação. Outro fator é a desigualdade, principalmente nos países pobres.

 

Por que a desigualdade afeta a felicidade? É uma questão de empatia. Quando alguns chegam ao fundo do poço, os que estão em condições melhores sentem-se responsáveis por eles e ficam amargurados. Muitos ainda podem ficar ressentidos com os mais ricos, pois veem que seria mais correto que os carentes tivessem mais. Se os milionários pegam uma fatia muito grande da torta, pode-se acreditar que isso seja a razão de os mais pobres não terem o suficiente.

A empatia pode ser frustrante? Nem sempre. Para isso, é preciso antes de mais nada entender a noção de justiça. Há uma diferença entre igualdade de oportunidades e igualdade no sucesso. As pessoas são sensibilizadas pelo primeiro tipo, não pelo segundo. Se o fracasso é simplesmente o resultado da decisão de alguém de não querer se esforçar, então isso diminui a compaixão que ela pode gerar nos outros. Tudo depende então de quais são as causas da desigualdade que se vê. Normalmente, as pessoas se sentem melhor vivendo em um país ou em uma sociedade em que a igualdade de oportunidade é mais nivelada, onde todos têm acesso a uma boa educação e a saúde de qualidade.

Se o fracasso é simplesmente o resultado da decisão de alguém de não querer se esforçar, então isso diminui a compaixão que ela pode gerar nos outros. Tudo depende então de quais são as causas da desigualdade que se vê.

John Helliwell

Como o Brasil pode estar na 22ª posição no ranking sendo uma das nações mais desiguais do mundo? Nas nossas observações, vemos que quase sempre há algo que interfere na felicidade, mas que não é captado pelos seis fatores que levamos em conta. Na América Latina, às vezes, pode-se notar que na vida urbana existem certos laços e um frescor que permitem às pessoas se conectar mais facilmente. E nós sabemos que essas relações são decisivas em uma população.

Pode dar um exemplo de um país em que os laços sociais são fortes? O que aconteceu no norte da Itália, em Friuli, em 1976, depois de um terremoto foi excepcional. Depois da devastação, todos começaram a salvar os afetados e a consertar as casas destruídas. Eles não queriam saber se ganhariam por isso, apenas faziam aquilo que precisava ser realizado. Em um momento assim, os níveis de confiança sobem em vez de cair e até o bem-estar geral pode subir em relação ao que havia antes. A sensação de que você está trabalhando junto com outros por algo importante é algo extremamente revigorante. Quando um tremor atingiu o sul da Itália, na Sicília, em 1968, foi o oposto. Nada foi feito. Em uma circunstância como essa, as pessoas podem se sentir infelizes com relação à sua própria inabilidade de se unir para resolver um problema. No relatório do ano passado, nós estudamos o impacto que as catástrofes naturais e depressões econômicas têm no bem-estar. A conclusão foi a de que, se os níveis de confiança em uma sociedade são altos, a crise pode trazer à tona o melhor dos cidadãos.

Por que a felicidade está caindo nos Estados Unidos? Apesar de a renda e a saúde terem melhorado, houve uma piora nos fatores sociais. Nos últimos quarenta anos, os americanos ficaram mais individualistas. Eles passaram a buscar mais a compensação financeira e o prestígio pessoal. Isso afetou muito a felicidade, porque eles ficaram menos conectados socialmente. Eles sentem que não têm mais com quem contar, dizem que a corrupção é um problema e que a generosidade caiu. Também relatam que não têm mais tanta liberdade para tomar decisões. Isso é ruim para o bem-estar geral. As pessoas gostam de trabalhar em um ambiente em que existe mais divisão de oportunidades e de carga de trabalho, em vez de competirem umas com as outras. Se os funcionários de uma empresa estão mais inclinado a colaborar e a contribuir com os demais, eles têm ideias melhores e rendem mais.

Nos últimos quarenta anos, os americanos ficaram mais individualistas. Eles passaram a buscar mais a compensação financeira e o prestígio pessoal.

John Helliwell

A internet e as redes sociais podem contribuir para a satisfação geral? Ter amigos reais deixa a pessoa mais alegre, mas possuir vários amigos online pode ter um efeito negativo. Isso sugere que as relações virtuais não substituem as reais. Claramente, existe um problema com o vício na internet e nos smartphones. As pessoas estão usando os celulares como um substituto para os amigos reais, assim como acontecia com a televisão antigamente. Com isso, deixam de gastar tempo se conectando com gente de verdade ou de fazer investimentos mais importantes para o futuro delas. O lado bom da internet é que ela permite manter contatos de uma maneira muito mais ampla e completa do que antes. Idosos que vivem em asilos podem fazer contato com familiares de forma mais imediata e natural. É um efeito duplo, portanto. A tecnologia pode tanto atrapalhar a vida social como estreitar algumas relações.