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Quando tudo vai mal, amputação

Se até bons países vão mal, o nosso está perto do desespero

“TODOS NÓS sabemos o que é preciso fazer. Só não sabemos como ser reeleitos depois disso.” Falar o que pensa, mesmo se inconveniente, é uma das características do autor dessa frase, Jean-Claude Juncker, que foi primeiro-ministro do tipo de lugar que não tem problema nenhum, o rico e minúsculo grão-ducado de Luxemburgo, e agora é o pouco popular presidente da Comissão Europeia. Fazer reformas necessárias, mesmo que não tenham ampla aceitação, é uma das características que diferenciam os países que dão certo dos que não dão. Uma rápida volta ao mundo, hoje, mostraria resultados inesperados nessa categoria.

No país mais poderoso da história, a economia cresceu 3% no último trimestre, o desemprego é o menor em quase duas décadas, e milhões de pessoas no mundo todo sonham com a chance de ir para lá. Mas os Estados Unidos da era Trump parecem viver de sobressalto em sobressalto, sejam reais ou excessivamente magnificados. Cada tuíte é uma crise nacional. As boas iniciativas tomadas para energizar a economia são constantemente ofuscadas por acontecimentos menores e até tolos. Falar em “guerra civil”, um anátema até poucos meses atrás, passou a ser menos absurdo. A bolsa sobe, os ânimos se exaltam. Este é outro sinal de inflamação nacional: quando uma parte do país começa a odiar a outra, por divisões políticas.

Na Inglaterra, a economia vai bem. Contrariando todas as previsões, também está crescendo além do esperado. Mas o governo vai mal. Theresa May ficou paralisada depois de perder votos numa eleição da qual esperava sair mais forte. Pode despencar a qualquer momento, não pelo estado lamentável das negociações sobre o Brexit, mas pelo mau comportamento em relação a mulheres de parlamentares e ministros do governo.

Estranho, não? Agora imaginem um mundo em que a Argentina das crises catastróficas vai bem, nem que seja por um curto e mágico período proporcionado pela aprovação ao presidente Mauricio Macri, que quer fazer as reformas necessárias e ser reeleito, e a Espanha, infeccionada pela independência autodeclarada na Catalunha, vai mal, mesmo que tenha tomado um antibiótico de efeito temporário.

E nós, onde ficamos nesse passeio por um mundo estranho? O Brasil vive uma era gangrenada, em que muitas pessoas têm medo de ficar em casa e ser assaltadas por bandidos comuns ou de ir votar para presidente e ser assaltadas pela falta de opções. Não ter opções é um dos caminhos mais curtos para a autodestruição. No livro Por que as Nações Fracassam, os autores, Daron Acemoglu e James Robinson, criaram o termo “elites extrativistas”, que praticamente resume o show de horrores que vemos em todas as instituições. Juízes do Supremo se enlameiam, o presidente sobrevive graças a tudo o que existe de ruim na caixa de ferramentas do poder. Um deputado acompanha mulheres de chefões do tráfico até o ministro da Justiça para propor a retomada das visitas íntimas. Uma ministra pede que seja mudada a lei de proventos em benefício próprio. Vendo que não tem remédio que dê jeito, muita gente pensa em amputação. E é a democracia que pode ir junto.

Publicado em VEJA de 15 de novembro de 2017, edição nº 2556

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