Pop para ouvir na faxina

E também para fazer pensar: Guilherme Arantes, um dos maiores hitmakers do país, retoma seu lado radiofônico — sem concessões ao trivial — em Flores e Cores

Guilherme Arantes mal tinha lançado o disco Condição Humana (2013) quando foi confrontado por sua filha mais nova, Paola. Assustada com a letra — cantada em voz soturna — da canção-título, que fala de “terra enlouquecida” e “guardiões do Mal”, ela aconselhou o compositor, pianista e cantor paulistano a pensar na dona de casa. “Paola achava que nenhuma mulher iria varrer a casa escutando aquilo”, conta Arantes. Pois Flores & Cores, que chega às lojas de disco e plataformas digitais na sexta-feira 18, tem mais do Arantes hitmaker dos anos 70 e 80 do que os flertes com a MPB alternativa do disco anterior. Suas doze canções trafegam entre a balada, a música latina e o rock progressivo, sem perder o elemento pop que consagrou o autor.

Flores & Cores pode acompanhar a faxina, mas também atende a outros anseios. O compositor percebe, com certa razão, uma carência de opções musicais para uma determinada faixa etária: “Há um público desabastecido no Brasil, formado por pessoas que deixaram a balada”. Em apresentações pelo país, Guilherme Arantes começou a notar que, depois do show, o DJ local costumava tocar ABBA ou a trilha de Os Embalos de Sábado à Noite. “Fui atrás do pop. Queria descobrir por que o ABBA é tão bom”, diz. O cantor trabalhou duro. Chegava ao estúdio às 8 da manhã, horário ingrato para um notívago, e lá ficava até o fim da tarde. A busca do pop de décadas passadas traz consigo, assumidamente, o desejo de voltar à parada de sucessos — seja lá o que isso signifique nos tempos do streaming. “A vaidade pede um hit”, admite Arantes.

O sucesso faz parte do dia a dia de Guilherme Arantes desde 1976, quando ele surgiu na trilha da novela Anjo Mau com a canção Meu Mundo e Nada Mais. Naqueles tempos, o compositor foi vendido como uma versão verde e amarela do também pianista e cantor Elton John. A consagração como criador de hits veio somente quando ganhou a aprovação de uma das maiores (se não a maior) intérpretes do país. “Foi Elis Regina quem me chamou de hitmaker”, diz ele. A cantora gravou Aprendendo a Jogar e Só Deus É Quem Sabe no início da década de 80. Depois, outras intérpretes também foram buscar as composições de Arantes — como Maria Bethânia, Gal Costa e Vanessa da Mata.

Guilherme Arantes é um atento observador do universo popular. Orgulha-se tanto de ter sido um dos primeiros a perceber o talento de Daniela Mercury, nos anos 90 (“Eu era jurado de um concurso musical e fiquei doido ao vê-la cantar”), quanto de ter antecipado a recente explosão feminina no mercado sertanejo (“Falei para Zezé Di Camargo que as meninas chegariam com tudo”). No entanto, ele olha para o pop que se tenta fazer hoje com certa reticência. “Existe uma geração que deseja se distanciar do mainstream, como se fosse vergonhoso fazer sucesso e virar um Guilherme Arantes”, reclama. Dois talentos da última safra ainda encantam o Elton John brasileiro: Tiago Iorc e a dupla Anavitória, praticantes de um pop pé no chão, de estética folk. “Tiago não tem medo de ser um ídolo. E eu acho Anavitória de uma qualidade! Elas têm a pureza que os jovens estão querendo.”

O apelo popular da música de Guilherme Arantes nunca se confundiu com a trivialidade, que ele identifica como um traço desalentador dos sucessos contemporâneos. O cantor recorre a uma analogia agrícola para falar da mesmice da música que atrai multidões de brasileiros hoje: “A monocultura do arroz, da soja ou da laranja foi para outros territórios”, define. O alvo primordial dessa crítica é o chamado “sertanejo universitário”, música que se consome como se fosse cerveja: “A indústria privilegia a balada, a festa. Mas será que todas as pessoas querem isso? Eu acho que tem muita gente que sente falta de um lado existencial”.

Pois o lado pop e o lado existencial — para usar o termo do compositor – estão ambos em Flores & Cores, seu melhor disco em anos. O primeiro está presente em canções como A Árvore da Inocência (os versos “só o amor / duas almas que se querem bem” são típicos do Guilherme Arantes dos anos 80), A Simplicidade é Feliz, que faz lembrar as melhores baladas dos Beatles, ou Semente da Maré, música feita sob encomenda para a cantora Wanderléa que o autor preferiu guardar para si. Todas elas têm momentos que se poderiam qualificar de “existenciais”, mas essa qualidade desponta mesmo em Santiago, sobre a famosa peregrinação à cidade espanhola: “Pedras que levei / Das noites geladas (…) Nasci peregrino dessa longa estrada”. Flores & Cores é um doce alento nos tempos sombrios de que Guilherme Arantes falava no disco anterior.

Publicado em VEJA de 16 de agosto de 2017, edição nº 2543