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Medalha de lama

A Olimpíada de 2016 era para ser orgulho do Rio, mas pode fazer história como os Jogos da roubalheira

Um mês depois de deflagrada no Rio de Janeiro, a Operação Unfair Play (jogo sujo em português, um braço da Lava-Jato) voltou, na quinta-feira 5, à casa de seu principal alvo, Carlos Arthur Nuzman, no Leblon, na Zona Sul carioca. Desta vez, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) não foi conduzido apenas para prestar depoimento — seu destino era a cadeia de Benfica, onde se encontra o ex-governador Sérgio Cabral. A dupla é acusada de arquitetar e pôr em prática o esquema de propinas que garantiu a indicação do Rio como sede da Olimpíada de 2016 — ponta de um cipoal de contas secretas e pagamentos ilícitos que enreda a Olimpíada do Rio em uma trama que já mancha de desonra a história dos Jogos.

O próprio Nuzman levantou suspeitas ao emendar apressadamente sua declaração de imposto de renda depois da primeira ida à polícia, em setembro. Entre os bens que declarou então estão dezesseis barras de ouro, de 1 quilo cada uma (avaliadas em quase 2 milhões de reais), depositadas em um banco na Suíça. A investigação apurou que em dez anos o patrimônio do cartola aumentou 457%. Na sempre reveladora trilha do dinheiro, a polícia investiga agora a existência de outras contas dele em paraísos fiscais irrigadas por fontes ainda desconhecidas. O atual relatório também mostra que Nuzman paga quase todas as despesas em dinheiro vivo, o que evidentemente soou estranho, indício de malfeitos financeiros.

Além de Nuzman, foi detido seu braço-direito, Leonardo Gryner — ambos em prisão temporária de cinco dias. A grave suspeita: a presença do nome da dupla brasileira em e-­mails trocados com o senegalês Papa Diack, depositário dos cerca de 2 milhões de dólares sob suspeita de terem sido usados na compra de votos para os Jogos do Rio (o pai de Papa, o cartola Lamine, liderou uma espécie de “bancada africana” decisiva na votação). Nas mensagens, Diack cobra transferências não recebidas em contas no Senegal e em Moscou. Uma das respostas cita que “um patrocinador diferente” estava tendo problemas com os depósitos — o que dá a entender que o esquema tem outros integrantes. O operador central dessa engrenagem, o empresário Arthur Soares, está foragido. Nuzman é alvo de investigação interna no Comitê Olímpico Internacional (COI). E a Olimpíada carioca, palco das derradeiras provas de Usain Bolt e Michael Phelps, afundou na lama da corrupção.

Publicado em VEJA de 11 de outubro de 2017, edição nº 2551