Amor não tem espécie

Okja, que rachou Cannes entre “conservadores” e “liberais” do streaming, é cinema com letra maiúscula

Este é um enredo clássico: a história do amor entre uma criança e seu cão (ou, às vezes, seu cavalo) e da luta para derrotar as forças que trabalham para separá-los. Bem menos usual é que o objeto desse amor seja um porco — e nem um porco qualquer, mas um superporco de umas tantas toneladas, fruto de um experimento clandestino de modificação genética. A ligação de Mikha (Seo-Hyun Ahn) com a mastodôntica Okja (trata-se de uma fêmea), porém, não é menos profunda por fugir assim tão inusitadamente às relações habituais entre as espécies. Mikha convive com a mascote desde bebê, e criou-a tanto quanto foi criada por ela: isolada com o avô nas montanhas do interior sul-coreano, a menina tem em Okja sua maior amiga e também uma figura materna. O animal, porém, pertence a uma megacorporação agropecuária que pretende levá-lo a Nova York para um grande evento publicitário — e, então, para um lúgubre destino final. Com determinação febril, Mikha segue sua companheira numa jornada que, em Okja (Estados Unidos/Coreia do Sul, 2017), desde a quarta-feira 28 disponível na Netflix, é de amor e lealdade, mas também de um duro abrir de olhos. Da fazendinha nas montanhas aos casarios de Seul e, depois, na vastidão de concreto de Nova York — e, para além da metrópole, no cenário horripilante do último ato —, o diretor sul-­coreano Joon-Ho Bong refaz uma espécie de percurso civilizatório da nossa alimentação, da subsistência à industrialização. O mundo moderno perdeu de vista a origem do que se leva à boca, e Okja relembra e dramatiza a extensão dessa perda.

Autor de Memórias de um Assassino, O Hospedeiro e Expresso do Amanhã, Bong é um dos grandes cineastas da atualidade, e um talento originalíssimo. No entanto, ele se viu no centro de um debate inflamado no último Festival de Cannes. Junto com outra produção da Netflix (The Meyerowitz Stories, do americano Noah Baum­bach), Okja foi escalado para a seleção competitiva — e daí repudiado pelo presidente do júri, o espanhol Pedro Almodóvar, que afirmou num manifesto que não premiaria nenhuma produção que não fosse destinada à exibição em sala de cinema. A lei francesa estabelece um intervalo de três anos (sim, 36 meses) entre a estreia de um filme em circuito e sua ida para o streaming. A Netflix considerou o prazo dilatado demais e decidiu disponibilizar Okja diretamente em sua plataforma nos países onde ele não pudesse ser mostrado em cinema. O circo pegou fogo — e reacendeu uma discussão que desde a década de 50 só se intensifica, sobre qual o jeito ou o lugar certo de ver filmes.

É fato que não há experiência que se compare à da tela grande na sala escura. Mas o streaming e o on-demand são hoje uma realidade inescapável. As redes de cabo e as plataformas como a Net­flix e a Amazon não convêm só aos espectadores. Elas oferecem aos criadores algo precioso: oportunidades práticas quase ilimitadas de concretizar projetos e exibi-los — além de muita liberdade artística. Quando fez seu primeiro filme nos Estados Unidos, o ambicioso Expresso do Amanhã, em 2013, Joon-Ho Bong teve de se bater com a interferência constante do produtor Harvey Weinstein, e quase perdeu o direito à edição final. Os estúdios aos quais ele submeteu o roteiro de Okja foram todos pelo mesmo caminho: se o diretor não abrisse mão do devastador ato final, nada de financiamento. Bong diz que a Netflix, entretanto, deu a ele carta branca. O diretor a usou da sua maneira habitual: escalou um elenco excelente (Seo-­Hyun Ahn, agora com 13 anos, é um destaque entre Tilda Swinton, Paul Dano e Jake Gyllenhaal) e criou um espetáculo cinematográfico de apelo visual ex­traor­dinário, sentimento intenso e reflexões inesperadas. A tela em que se vê Okja é menor que a do cinema. A arte de Bong, não.

Publicado em VEJA de 5 de julho de 2017, edição nº 2537