Fornecedora liga Odebrecht à reforma no sítio de Lula

No ano passado, reportagem da revista VEJA mostrou que, atendendo ao pedido do petista, o engenheiro Léo Pinheiro, da OAS, fez uma ampla reforma na propriedade rural utilizada pelo ex-presidente e seus familiares

A ex-dona de uma loja de materiais de construção e um prestador de serviço ligaram a empreiteira Odebrecht a obras no sítio do ex-presidente Lula, em Atibaia, interior de São Paulo. Conforme mostrou reportagem da revista VEJA em abril do ano passado, o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro, atendendo a pedidos do petista, fez uma ampla reforma no local. A empreiteira é acusada pela Operação Lava Jato de ter desviado 6 bilhões de reais dos cofres da Petrobras.

Segundo Patrícia Fabiana Melo Nunes contou ao jornal Folha de S. Paulo desta sexta-feira, a Odebrecht gastou cerca de 500.000 reais só em materiais para as obras. À época da reforma, que teve início no fim de 2010, Patrícia era proprietária do Depósito Dias, loja que forneceu produtos para a reforma. “A gente diluía esse valor total em notas para várias empresas, mas para mim todas elas eram Odebrecht”, disse Patrícia, que também admitiu ter comercializado parte dos materiais sem registro fiscal.

O Sítio Santa Bárbara está no nome dos empresários Jonas Suassuna e Fernando Bittar – ambos sócios de Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho do e­­x-presidente. Suassuna e Bittar compraram o sítio em agosto de 2010, quatro meses antes de Lula deixar o cargo, pelo valor de 1,5 milhão de reais.

Originalmente, na propriedade rural havia duas casas, piscina e um pequeno lago. Quando a reforma terminou, a propriedade tinha mudado de padrão. As antigas moradias foram reduzidas aos pilares estruturais e completamente refeitas, um pavilhão foi erguido, a piscina foi ampliada e servida de uma área para a churrasqueira. Também há um lago artificial para pescaria, um dos esportes preferidos do ex-presidente.

Alguns funcionários da obra, que terminou em pouco mais de três meses, chegavam de ônibus, ficavam em alojamentos separados e eram proibidos de falar com os operários contratados informalmente na região e orientados a não fazer perguntas. Os operários se revezavam em turnos de dia e de noite, incluindo os fins de semana, e eram pagos em dinheiro.

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De acordo com Patrícia, o engenheiro da Odebrecht Frederico Barbosa realizava os pagamentos semanalmente e sempre com a orientação de outra pessoa. “Eu lembro que o Quico [apelido do engenheiro] ligava para outro senhor, que orientava sobre como era para fazer as notas. Eu não tinha o telefone, o endereço, nada desse outro senhor. Só sabia que na sexta-feira, às três horas da tarde, ele passava lá para pagar. Os pagamentos giravam em torno de 75.000 a 90.000 reais por semana, em dinheiro vivo”.

“Era uma mala que tinha outros valores também para pagar para os pedreiros, serventes etc. Ele ia tirando envelopes de papel pardo. Dava para ver que tinha uma organização na mala para ser rápido, pagar o pessoal e ir embora. Ele só fazia isso”, contou. A empresária também lembrou que havia grande pressa para terminar a obra até 15 de janeiro de 2011 e que, durante certo período, a loja trabalhou quase exclusivamente para a obra. Os relatos da empresária seguem a mesma linha dos depoimentos ouvidos pela reportagem de VEJA no ano passado.

Na ocasião em que a reportagem visitou o local, o servente de pedreiro Cláudio Santos disse que recebeu mais do que o combinado para que o prazo fosse cumprido. “Ajudei a fazer uma das varandas da casa principal. Me prometeram 800 reais, mas me pagaram 2.000 reais a mais só para garantir que a gente fosse mesmo cumprir o prazo, tudo em dinheiro vivo”, disse. “Nessa época a gente ganhou dinheiro mesmo. Eu pedi 6 reais por metro cúbico de material transportado. Eles me pagaram o dobro para eu acabar dentro do prazo. Eram 20.000 por vez. Traziam o pacotão, chamavam no canto para ninguém ver, pagavam e iam embora”, contou o caminhoneiro Dário de Jesus.

O motorista e marceneiro Antônio Carlos Oliveira Santos disse ao jornal ter prestado serviços de marcenaria no sítio e afirmou que os trabalhos eram chefiados por um engenheiro chamado Frederico. “Ele [Frederico] me disse que era da Odebrecht, que a Odebrecht que estava comandando aquilo. Fui pago por ele em dinheiro vivo. Me chamou a atenção a abundância de dinheiro na obra”. “Todo mundo comentava que o sítio seria para o Lula, mas o Frederico nunca me disse isso”, relatou. Comerciantes da última rua antes da estrada que leva ao sítio afirmam que a mulher do ex-presidente, Marisa Letícia, passa quase toda semana pelo local em seu caminho para a propriedade.

A empreiteira é acusada pela Operação Lava Jato de envolvimento nos desvios da Petrobras que somam 6 bilhões de reais.

À Folha, a Odebrecht disse que não identificou relação da empresa com as obras. Já o ex-presidente Lula não quis comentar o caso.

(Da redação)