Deputada acusa auxiliar de Agnelo de fazer operação abafa

Chefe da Casa Militar encontra deputado petista minutos antes de parlamentar apresentar vídeo em que lobista retira denúncias contra governador

A deputada Celina Leão (PSD) entregou nesta quarta-feira à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal vídeos (veja abaixo) que lançam mais uma suspeita sobre o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT). O petista foi alvo de um pedido de impeachment por envolvimento em escândalos de corrupção – uma das denúncias foi feita pelo lobista Daniel Tavares – que afirmou ter depositado 5 000 reais na conta de Agnelo a título de propina. O pedido de impeachment foi arquivado na semana passada, mas a oposição promete insistir nele. As imagens reveladas por Celina Leão, líder da oposição a Agnelo, são provenientes do circuito interno da Câmara Legislativa do DF e mostram o chefe da Casa Militar do governador, o tenente-coronel Rogério da Silva Leão, entrando no gabinete do deputado petista Chico Vigilante. Minutos depois, este mesmo deputado vai ao plenário mostrar um vídeo em que o lobista Daniel Tavares muda a versão que até então apresentava sobre a propina paga ao governador. Diz que os 5 000 reais pagos a Agnelo eram nada mais que um empréstimo. Daniel passou de acusador a aliado do governador. Para Celina Leão não restam dúvidas: o auxiliar de Agnelo Queiroz levou ao deputado o vídeo que em seguida seria apresentado em plenário, como uma mal ajambrada prova de inocência do governador. “Esse governo começa a cometer crimes para acobertar outros crimes”, afirma a parlamentar. A deputada se diz convicta de que o depoimento em vídeo de Daniel Tavares foi comprado e que integrantes do governo estão envolvidos nisso. Para completar, Chico Vigilante cometeu um sugestivo “engano”. Antes de passar o vídeo, no dia 8 de novembro, Vigilante disse que o material tinha chegado até ele por um destinatário oculto, na tarde do dia anterior, uma segunda-feira. No vídeo de Daniel Tavares, no entanto, é possível ver uma reportagem publicada em um portal da internet às 19 horas de segunda-feira. Ou seja, o vídeo teria sido entregue antes mesmo de ser gravado. A reportagem do site de VEJA assistiu a íntegra das imagens gravadas pelo circuito interno da Câmara Legislativa e constatou que ninguém entrou no gabinete de Chico Vigilante depois das 19 horas de segunda-feira. Na manhã seguinte, nenhuma movimentação atípica até que, por volta das 15h, aparece o tenente-coronel Silva Leão. Ele entra na sala sozinho, com uma sacola nas mãos, e sai depois de um rápido encontro com o deputado. Minutos depois, como se sabe, Vigilante vai ao plenário.

Proximidade – O coronel Leão é sobrinho de Arquicelso Bites Leão, petista nomeado para a subsecretaria do Entorno no governo Agnelo. Arquicelso, por sua vez, é padrinho de nascimento de Daniel Tavares, que vive na mesma cidade onde Arquicelso fez carreira política no PT e chegou a ser vereador: a goiana Valparaíso, na divisa com o Distrito Federal. Seria ele a ponte com o lobista. Como se não bastasse, há o depoimento de outra parte ligada ao governador: João Dias, o policial militar cujas acusações derrubaram o ministro do Esporte, Orlando Silva, aponta o coronel como o elo entre o governo e a tentativa de cooptação de Daniel. Dias fala até em valores: 250 000 reais. “Coronel Leão, o Daniel continua cobrando o que, segundo ele, o senhor prometeu”, escreveu João Dias em seu blog, em uma mensagem posteriormente apagada. Reação – O deputado Chico Vigilante nega que o coronel Leão seja a fonte do vídeo. Mas admite a incongruência a respeito da data e do horário em que recebeu as imagens: “Eu posso ter me enganado. Isso é natural”, diz ele. O deputado, que se recusa a informar a origem das imagens, nega ter recebido qualquer material durante o encontro que teve com o chefe da Casa Militar. “O vídeo é autêntico. Chegou às minhas mãos e não foi o coronel Leão quem trouxe”, garante o petista. Já o coronel admite ter visitado o deputado, mas diz que tratava de temas republicanos. Nada de vídeos: “De forma alguma. Isso não faz o menor sentido”, garantiu ele ao site de VEJA. Embora admita a relação pessoal de seu tio com Daniel Tavares, Leão diz nunca ter visto o acusador de Agnelo. Em nota, o governo do Distrito Federal diz que a presença do coronel na Câmara Legislativa se deu porque ele discute a reestruturação da Casa Militar. A visita foi, de acordo com a nota, “absolutamente rotineira”. O texto ataca a deputada Celina Leão: “Tenta-se, mais uma vez, estabelecer uma farsa, uma versão contaminada por uma luta política desleal. A responsável pela divulgação de mais esta farsa criminosa vai ter que responder judicialmente por tais acusações”. No início do ano passado, governador José Roberto Arruda resistia à crise deflagrada pela Operação Caixa de Pandora até ser flagrado em uma tentativa de cooptação de testemunha. No Distrito Federal, a história parece se repetir.