18/05/2010 - 14:45
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Medicina

Tratamento paliativo: atenção à vida, à beira da morte

Branca Nunes
O cuidado paliativo deve ser oferecido a todos os portadores de doenças potencialmente mortais

O cuidado paliativo deve ser oferecido a todos os portadores de doenças potencialmente mortais (Agência: Thinkstock)

Quando não há mais nada a fazer, ainda há muito a ser feito. Foi o que descobriu a aposentada Anna Castilho quando seu marido, Joviniano Castilho, sofreu um acidente vascular cerebral, em 2006, e entrou em coma. Depois de dois meses de tratamento, Anna ouviu um prognóstico desanimador: não havia esperança para o homem com quem estava casada havia seis décadas. Ao fim de uma peregrinação por quase 20 endereços, ela encontrou o Premier Residence Hospital, em São Paulo, que abriga 61 dos pouco mais de 300 leitos especializados em cuidados paliativos do Brasil. Ali descobriu o quanto ainda poderia ser feito. "Em latim, pallium significa manto", explica a voz suave de Anna. "Imagine uma mãe envolvendo uma criança: o palio é esse manto, a proteção. Isso é o tratamento paliativo". Assista ao depoimento em vídeo de Anna.

O desconhecimento que afligia Anna acerca desse tipo de cuidado é o mesmo que afeta boa parte da população e também a classe médica. "Na faculdade de medicina não se fala nem na morte, quanto mais em tratamento paliativo", observa a oncologista Dalva Matsumoto, especialista na técnica. "Com a evolução da medicina e da tecnologia, a morte passou a ser vista como um fracasso pessoal do médico e não como um capítulo natural da vida." É por isso que, diante de pacientes terminais, muitos médicos avisam que não há nada a fazer. Os paliativistas pensam o contrário. Uma de suas preocupações é garantir a qualidade de vida a quem está na iminência da morte. Assista ao vídeo com profissionais que adotam práticas paliativas.

Com uma série de técnicas – que vão desde a fisioterapia, até o a diminuição de determinados medicamentos, passando pelo uso de opióides – eles conseguem, por exemplo, eliminar dores, melhorar a respiração e controlar náuseas. Os pacientes são estimulados ainda a fazer, dentro dos limites físicos de cada um, todas as coisas que lhes dão prazer – desde comer uma macarronada até passear ao ar livre ou beber um copo de cerveja. Quando a doença dá um descanso, são mandados para casa. "É sempre melhor estar rodeado por quem amamos, seja durante a vida ou na hora da morte", diz a psicóloga Debora Genezini. Por estarem bem assistidos, esses pacientes raramente morrem em agonia. A família é uma peça-chave. Além de ser estimulada a ficar perto do doente, recebe um tratamento paralelo, com o objetivo de compreender e aceitar a perda. "O processo de luto começa antes e continua depois da morte", ensina Débora. "A família é acompanhada até que possa ser reintegrada e dar continuidade à própria vida".

Além de médico e enfermeiro, uma equipe paliativa engloba fisioterapeuta, psicólogo, fonoaudiólogo, nutricionista, dentista, capelão, cuidadores - pessoas contratadas para ficarem 24 horas ao lado dos doentes - e qualquer outro profissional que possa trazer bem-estar ao paciente. São médicos da pessoa inteira, como têm orgulho em afirmar. O cuidado não contempla só pacientes terminais. Deve ser oferecido a todos os chamados "portadores de doenças potencialmente mortais", como o câncer, e começa a ser aplicado no momento do diagnóstico, período em que o objetivo principal é a cura. "No início, o cuidado paliativo é um complemento ao tratamento convencional", explica o cardiologista Ricardo Tavares de Carvalho. "O cuidado vai aumentando de acordo com a intensificação da doença, mas os dois tratamentos continuam juntos até o fim".

Os paliativistas avaliam permanentemente a questão risco-benefício. Um paciente com insuficiência renal não necessariamente será submetido a uma diálise, tampouco a quimioterapia será obrigatoriamente o caminho para quem está com câncer. "É preciso saber se aquele tratamento invasivo trará o benefício esperado", explica Carvalho. "Em um paciente terminal, a quimioterapia pode simplesmente trazer mais dor". A equipe médica, os familiares e o paciente decidem em conjunto quando é hora de parar. "A decisão técnica é do médico", conta Carvalho. É ele quem pode dizer se uma cirurgia é ou não recomendada. Mas existem os aspectos subjetivos: o paciente pode argumentar que quer passar por aquele tratamento porque conseguirá, por exemplo, despedir-se de um filho que mora no exterior e que só poderá chegar dentro de duas semanas. "Nenhum procedimento é proibido. Se prolongar a vida por mais algum tempo tem um significado, isso pode ser feito", conta o cardiologista.

Idealizado pela médica inglesa Cicely Saunders na década de 1960, o tratamento paliativo ainda engatinha no Brasil. Para ser comparável ao modelo britânico, por exemplo, teria de oferecer 30 vezes mais leitos, saltando dos atuais 300 para 9.000. A despeito da fundação da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, há cinco anos, os profissionais ainda lutam para dissociar esse tratamento da prática da eutanásia e vencer o preconceito dos próprios médicos com relação ao uso de opióides, essenciais para o alívio da dor extrema. Em abril, porém, ganharam um poderoso aliado: o novo Código de Ética Médica, que não apenas reconhece a prática mas também a recomenda.

O texto é considerado fundamental por afirmar que existem situações nas quais não existe reversibilidade e porque retira do médico o poder supremo sobre o doente. "É o resgate de uma relação", acredita Lucineide Souza, chefe de enfermagem do Hospital Premier. "Infelizmente, hoje, o médico deixou de examinar o paciente, apoiando-se sempre em exames, e o enfermeiro não presta mais atenção a ele, concentrando-se em relatórios". Saber que, mesmo quando não há mais nada a fazer, ainda há muito a ser feito é essencial numa sociedade com cada vez mais idosos, mas que, simultaneamente, continua obcecada pela eterna juventude.

 

Histórias de familiares que conheceram de perto os cuidados paliativos:

 

Médicos explicam o que é o tratamento paliativo:

 

Comentários


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zenaide ferreira dos santos

Gostei muito desses depoimentos pois tudo que as doutoras me explicaram sobre o tratamento paliativo foi relmente o que entendi .Meu marido esta com muita dificuldade de aceitar esse tratamento paliativo pois ele acha que esta assinando a morte do nosso bebe

05.06.2011

paula

sou academica da faculdade de teologia gostaria de saber mais sobre os tratamentos paliativos especificamente na terceira idade. obrigada!

27.04.2011

Maria Dolores

Estou cursando Enfermagem,certo que ainda estou no 2º periodo,mas vi um artigo que falava sobre tratamento paliativo e fiquei fascinada pelo assunto,decidi conhecer mais sobre ele porque quero fazer a minha tese em cima deste assunto.

06.07.2010

 

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